Abre a fase pré-romântica o Poema mariano , de Domingos de Caldas (sic), que, sem fugir à regra, ao longo de 126 estrofes em oitava rima, f...

Oscar Gama Filho in Razão do Brasil em uma sociopsicanálise da literatura capixaba

11/19/2015 0 Comentários


Abre a fase pré-romântica o Poema mariano, de Domingos de Caldas (sic), que, sem fugir à regra, ao longo de 126 estrofes em oitava rima, faz a apologia de Nossa Senhora da Penha, de seu convento e de seus milagres. A primeira edição, de que nenhum exemplar chegou até nós, foi impressa na tipografia Capitaniense, em 1854, e transcrita, na íntegra, em As maravilhas da Penha, de J. J. Gomes da Silva Neto, em 1888. Junto com o poema se reproduziu também uma carta do primitivo editor, o padre Inácio Félix de Alvarenga Sales, informando que o texto original, escrito em 1770 por “Domingos de Caldas, natural da cidade da Bahia” (sic), infelizmente teve de ser retocado: “pude conseguir um caderno tão mal escrito, que apesar dos esforços que fiz para corrigi-lo, conheço ainda terá defeitos (…)”.[ 1 ] Tradicionalmente o autor do poema tem sido identificado pela crítica como sendo o padre Domingos Caldas Barbosa, (…)”.[ 2 ] presidente da Nova Arcádia, que, aliás, era consagrada a Nossa Senhora. O estilo, por certo, não se adequa à simplicidade, à harmonia, à ingenuidade, à tranqüilidade e ao bucolismo defendidos pelo arcadismo. Não foi mero acaso a escolha da oitava rima, forma empregada em composições que, à semelhança do Poema mariano, tratam de tema elevado com pompa, estardalhaço e grandiosidade. Mas, por outro lado, suas descrições da terra capixaba, poetizando fatos verdadeiros, registrados pela história — os acidentes naturais, os combates entre holandeses e portugueses, a fé popular nos milagres do convento da Penha —, o aproximam do pré-romantismo, cuja proposta estética tem diversos pontos de contacto com a obra de Caldas Barbosa. Waltensir Dutra situa Lereno “na linha de transição entre o Arcadismo e o Pré-Romantismo”[ 3 ] e Antônio Soares Amora surpreende um “modernismo” ou “pré-romantismo” em sua “poesia folclórica”.[ 4 ] O encantamento com a paisagem brasileira está presente nas estrofes LXXXIII e LXXXIV do Poema mariano:

LXXXIII

Apenas entra a Virgem, quando os ares
As nuvens vomitando sobre a terra,
Parece com dilúvio, que nos mares
Quer a água vingar do fogo a guerra.
Os verdes papagaios nos pomares,
Os barbados, bugios, pela serra,
E nos charcos as rãs cheias de glória,
Estão cantando os vivas da vitória.

LXXXIV

A sequiosa terra a chuva bebe;
Em uma raridade a gente espanta;
Porque de cada pingo, que recebe,
Um pequeno sapinho se alevanta.
Também ao longe um fumo se percebe,
Que sutilmente aos ares se adianta,
Qual tição apagado de água fria,
Que agora fuma só, se antes ardia.[ 5 ]

Os primeiros versos reforçam a hipótese de que a obra é de autoria de Caldas Barbosa. De fato, neles o poeta comunica que está abandonando os motivos arcádicos que usou no passado — “(…) cantando amores / Muitas vezes ao som das doces canas”, “vida dos pastores”, “beleza das serranas” — porque não condizem com quem já não deseja “cantar glórias mundanas”:

I

Eu sou aquele que cantando amores
Muitas vezes ao som das doces canas
Lisonjeei a vida dos pastores, —
Exaltei a beleza das serranas:
Porém hoje depondo os seus louvores,
Já não quero cantar glórias mundanas,
Que são sombras da luz, do ar assento,
Formosuras de flor, torres de vento.[ 6 ]

Esse desapego às ortodoxias e aos dogmas estéticos, essa capacidade de mudar, essa tendência a moldar a forma ao conteúdo estão presentes em Lereno, um árcade sui generis — surpreendente pela sua inovadora brasilidade — que parece não ter hesitado em sacrificar a forma de vários de seus poemas para ajustá-los a uma boa melodia.

Certamente há muito que investigar ainda. Não devemos nos esquecer, porém, que Alvarenga Sales “corrigiu” o poema antes de publicá-lo, em 1854. A prudência nos adverte, portanto, de que devemos colocar em dúvida a constelação de elementos que o compõem. Transformados em detetives, suspeitamos tanto da data de redação — 1770? — quanto do corpo do trabalho em si, que talvez seja uma versão absolutamente infiel do original “mal escrito” de Sales. Mas, com tão poucas chances de descobrir o criminoso, o melhor é nos contentarmos com a posse do que realmente importa: a reprodução, na íntegra, da edição de 1854, que preservou — apesar das “correções” — um texto fundamental para as fases pré-romântica e romântica da literatura capixaba. A sua boa repercussão pode ser aquilatada pela afirmativa de José Marcelino Pereira de Vasconcelos, que diz ser possuidor de uma segunda variante do Poema mariano — chamado de Penha por ele —, retocada por José Gonçalves Fraga e dotada de “diferenças notáveis” em relação ao livro de Sales, “que aí corre cheio de grosseiros erros, impresso na tipografia Capitaniense (…)”.[ 7 ]

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NOTAS


[ 1 ] Inácio Félix de Alvarenga Sales, apud J. J. Gomes da Silva Neto, op. cit. [As maravilhas da Penha, pp. 184-5.
[ 2 ] Domingos Caldas Barbosa (Rio de Janeiro, 1738 ou 1740 — Lisboa, 1800) adquiriu fama em Lisboa como poeta, repentista, violeiro, cantor e compositor de modinhas e lundus. Presidiu, sob o pseudônimo de Lereno Selinuntino, as reuniões da Nova Arcádia no salão literário do conde de Pombeiro, de quem era protegido. Foi capelão da Casa de Suplicação. Seus poemas mais significativos se encontram em Viola de Lereno, publicada em Lisboa, em 1798.
[ 3 ] Waltensir Dutra, ‘O arcadismo na poesia lírica, épica e satírica’, em: — A literatura no Brasil, op. cit., p. 240.
[ 4 ] Antônio Soares Amora, ‘A literatura do Setecentos’, em: — A literatura no Brasil, ibid., p. 220.
[ 5 ] Domingos de Caldas, apud J. J. Gomes da Silva Neto, op. cit., p. 209. Afonso Cláudio deturpa a estrofe LXXXIII na p. 48 da sua História da literatura espírito-santense (op. cit.).
[ 6 ] Ibid., p. 185.
[ 7 ] J. M. P. Vasconcelos, op. cit. [Jardim poético, Vitória, tipografia de Pedro Antônio d’Azeredo, 1856], pp. 172-3.

[Transcrito de Razão do Brasil em uma sociopsicanálise da literatura capixaba, de Oscar Gama Filho, Fundação Ceciliano Abel de Almeida/José Olympio Editora, Vitória/Rio de Janeiro, 1991, p. 54-7.]

Oscar Gama Filho é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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