NUM DOMINGO, DIA DE FEIRA À minha irmã Martha Tavares Num domingo, dia de feira. Multidão em tumulto, indo e vindo, como onda. Entr...
Crônicas do livro No escuro, armados
NUM DOMINGO, DIA DE FEIRA
À minha irmã Martha Tavares
Num domingo, dia de feira.
Multidão em tumulto, indo e vindo, como onda.
Entre a multidão, que se vai propagando e propagando, vaga misteriosa mulher, vadia.
Procura-se, em vão, espaço para se instalar negócio.
Mãos e olhos, olhos e mãos, em troca de compra e venda.
Alguém vende algo doce: algodão doce.
Aipim, batata doce e mandioca, lê-se a propaganda.
— Olha o limão! Olha o limão! — a voz pouca e rouca de um velho de olhar amargo e aspecto abatido; fora, outrora, elogiável gritador de "jiló".
Ávidos em comerciar, os mais vívidos gritam mais alto os preços dos produtos.
Dá-se a cada freguês laranja lima a navalha descascada, com esmero.
Uma menina mendiga furta uma fruta-pão. Por policial detida, prova — ou simula bem — estar farta de fome: como faminta, come-a loucamente, diante da pequena multidão já em volta aglomerada. É tida e reconhecida como louca. E logo posta em liberdade. Alguns lhe dão umas moedas: desfruta do auxílio de muitos poucos, afora os que a vêem alvo de gracejos. Mais adiante, porém, furta uma outra fruta, menor, e sai, furtivamente. Evita, no entanto, o juiz de menores.
Jovem anêmico, e raquítico, hesita na escolha de vitamina de tal ou qual fruta. Mas logo desanima.
— Vendo feijão preto! — um mulatinho, esperto, a mandar às favas os que por soja perguntam ou apenas observam, enquanto seu irmão maior recolhe, sujas as mãos, os pequenos grãos pelo chão espalhados.
— Castanha-do-pará para acabar! — um sotaque nortista, acanhado.
Um cão, ferido, raivosamente briga com outro, são. Este foge, rosnando, a exibir os dentes. Motivo da briga: um osso enorme, lançado fora, com o propósito de incitá-los.
Senhoras maduras, mal remuneradas, admiram somente a verdura das hortaliças. Uma aguarda, esperançosa, cesta à mão, que, ao final da feira, se reduza o preço das bananas verdes, então vendidas a valores inacessíveis à sua bolsa. De vez em quando observa as tabelas. "Belas bananas", fala consigo. Outra comenta o aumento dos legumes e, por questão de classe, protesta a média voz.
Em gritos de pregão, dois vendedores concorrem:
— Rapadura de gengibre!
— Jaca mole madura é aqui!
A recolher restos para os porcos, os rastos da multidão um menino mal arrumado segue.
— Corre que lá vem o rapa! — com a vinda dos fiscais da Prefeitura, a dura venda dos sem licença ou sem documento, que se dispersam feito vento, apesar de feira livre, num domingo.
Agricultura farta, fruta barata, anuncia um vendedor de maçãs importadas. Caras, segundo opinião pública. A ninguém importa, mas ele anuncia.
Seis senhoras de cesta criticam o custo da dúzia de laranjas — e mexericas — e brigam até à redução: para o lar vão satisfeitas, a misturar com o gosto da vitória o amargo das cítricas.
Dois sotaques nordestinos, secos:
— Mamão macho da Paraíba, maxixe e cana caiana.
— Coco da Bahia, vatapá e cocada baiana.
Magros meninos, nanicos, oferecem-se a carregar pesadas bolsas, cheias de mercadorias. Outros, igualmente menores, carentes e/ou parentes, agem em sacolas e/ou vagem em pedidos de esmola.
Um feirante confere a féria do dia, maior do que aos feriados, enquanto o ajudante, em tarefa de mudar os preços, dobra as mangas da suada camisa.
Galinhas, à venda, cacarejam apenas, ante a hora da morte às mãos de estranho algoz. Uma dona-de-casa, abastada e penosa, penalizada delas, compra cinco carijós para soltá-las no quintal. Compara-as aos humanos. É contra a pena de morte. Além de vegetariana. Acha horrível a morte dos animais, sem ao menos uma venda aos olhos.
Ao redor da improvisada peixaria esvoaçam moscas. Expulsa-as o vendedor, a brandir, histérico, longo e fino peixe espada. Outro grita "sargo fresco e bonito" e em sua direção movem olhares as mulheres.
"Macarrão com camarão", um novo prato propõe-se entre compradoras de um e outro, ambas comadres.
Rara espécie em feiras, um senhor de aspecto nobre interroga, com voz doce, onde encontrar fruta-do-conde. Mal lhe responde o vendedor de pimentas, o rosto a arder de ira, por haver vendido pouco, e o estômago a reclamar alimento. Quase azul, com seus haveres vai-se embora por via mais próxima, estreita. Esbarra, no caminho, com mercador de pimentão. Resmunga.
Longe, não muito, ouve-se "olha o couve, couve-flor, couve-brócolo e couve-manteiga". É o coveiro da região, que, em folga do cemitério, comercia hortaliças de seu próprio plantio: além dos óbituais sete palmos, terras de cultivo conhece a fundo como se a própria palma da mão, segundo seu mesmo cultivado modo de falar.
Procuram-se, entre a multidão, abricós. É a costureira de nome e renome nas redondezas.
A um canto acha-se, agachado, o menino de olhar choroso, que, com alhos verdes, vende também cebolinhas e cebolas, quando não flores em botão.
Com faca de dois gumes — e certa arte — corta um mexicano melancias em duas partes semelhantes. E as põe à mostra a fim de se ver melhor o vermelho delas. Uma senhora gorda e avermelhada pergunta-lhe por cenoura, mas, logo, seu olho direito fita um repolho à esquerda. Ansiosa, apalpa-o por certo tempo. Balança-o. Logo o repõe no lugar. Acaba por comprar abacate, abacaxi, abricó e tomate.
Vindo do interior, louro hortelão expõe, timidamente, seus produtos: salsa, coentro e hortelã. Não faz propaganda. Embora silencioso comercia, porém, brotos de boa safra.
Policiais detêm um bêbado trôpego e dão batidas em supostos vadios. Estes, desorientados, mostram os bolsos, vazios, como de praxe, assim como é de praxe detenções e batidas, num domingo, dia de feira. Em carteira furtada: a féria e documentos. É a lei.
A multidão em constante movimento como se pelo vento movida, faz inventosos vaivéns, como ondas, ou ora em girares qual catavento ou redemoinho. Ou então qual tentáculos de gigantesco polvo.
Pleno o sol, já a pino, a requeimar as faces.
Da festa da feira, resta enorme estoque de pepino e alface. Sério, pensa o negociante: "Fácil seria a venda a preço de primeira mão. Mas não compensa. Melhor aguardá-los para segunda, o dia seguinte. É a lei da oferta e procura."
Alguém procura por alguém perdido.
Em meio a conversa de nenhum assunto, dois homens, meio ébrios, bebem batidas. Enquanto isso, o sóbrio feirante conserva os jenipapos num saco já cheio deles.
Alguém oferta algo a alguém. É a lei.
Laranja aqui é uma uva. Jaca por preço de cajá. Banana a preço de banana, para ir embora. Abóbora aberta e fechada. Chuchu com X ou CH. Abacaxi a baixo preço. Aqui quem manda é o freguês. Picolé e sorvete. É chegar e levar. Caqui é aqui mesmo. Suco de morango para matar a sede. É hora de ir embora. Beterrabanete. Maracujambola. Milho verde para quem quiser ver e comprar. Batida de pêssego. Bananica a preço pequeno. Morena cor de jambo não paga o produto. Passas e ameixas estrangeiras. Pêra argentina a preço nacional. Manzanas brasilianas. Bananas aqui da terra mesmo. É comprar, levar e lavar. Alface crespa e francesa. Uvas brancas, pretas e rosadas. É comprar e comprovar. Pega ladrão, pega. Uva italiana. Olha o preço do cação. Uma esmola pelo amor ao próximo. Um auxílio para o cego. Três quilos para a madame. Tomate aqui é de graça. Cuidado com o fiscal. É para acabar. Jaca dura é moleza. Galinha já abatida com abatimento. O preço, o preço é do povo. Coma ovo de codorna. Mamão aqui na minha mão. Hoje é mole. Para se ver e vender. Olha a jabuticaba já acabando. Acabando. Acabando. Olha a banda da melancia. Acabando. Acabando. Olha que tudo se acaba: abacate, abacaxi e abricó. Acabando. Acabando.
Os fregueses fim-de-feira se acabando. Restam alguns: bandos esparsos, rostos à procura do que restou do acabado. Depois, cada qual para sua banda, melhor, seu lado. A feira se acabando. Acabando. Acabando. É como um campo de batalha, após acabada a batalha. As barracas quais barricadas, algumas já desarmadas, soado o alarme de trégua. Troços e destroços, os traços da fúria comercial. Mas sem feridos.
Enfim, num domingo, fim de feira.
[p. 104-9.]
* * * * *
FROM DORES DO RIO PRETO, WITH LOVE
Porque eu poderia estar em frente ao Big Bem e não estou, estou diante do relógio da matriz católica a ver o tempo passar e não posso me afogar nas águas do Tâmisa porque o rio que corre nesta cidade, limitando-a, é o rio Preto, e porque é meio-dia e estou a ver o tempo no relógio, não esqueço que não estou no coração de Nova York, e estas pessoas que passam, poucas, me acenam porque não estou sobre a ponte sobre o Hudson nem estou pronto para o mergulho com uma pedra amarrada ao pescoço. Porque não posso me lançar do último andar do Empire State estou na praça ao meio-dia nesta cidade de poucos habitantes, e não posso me lançar de andar algum porque nenhum edifício está situado nesta latitude, e meu coração me atrapalha as pernas. Porque não empunho um revólver apontado ao meu próprio ouvido, estou nesta cidade, sendo alvo de olhares, todos muito discretos, porque estou na praça da matriz católica e não estou na catedral de Notre Dame nem estou no Louvre a ver minha própria imagem de cera. E como não posso ver a baía de Vitória nem a baía dos Porcos, estou com um míssil apontado para o meu miocárdio, enquanto a moça dos Correios me anuncia a chegada de uma carta que poderia vir de Londres, Berlim ou Paris, mas não. Porque estou com um pé aqui e outro ali, um num Estado, outro no outro, um rio corre entre minhas pernas, e corta-me o coração banhado, um rio doce corre. E como não estou com os olhos banhados de lágrimas, um rio corre em meu rosto e prossegue sua história neste mapa de lembranças, porque Hong Kong está muito longe de mim, está longe e não devo me apressar para a hora da morte porque sei que um franco atirador me tem por alvo e não entrincheirado estou neste lugar assim como estive em Dallas, quando sobre mim caiu pesado sono, e o sonho veio. E estive perto da solidão, em Arizona, aqui. E pesada solidão desaba sobre meu chapéu, e tenho meu lugar à sombra, longe do sol, longe assim, agora.
[p. 110-1.]
[In No escuro, armados, de Marcos Tavares, Anima/Fundação Ceciliano Abel de Almeida-Ufes, Rio de Janeiro/Vitória, 1987. Reprodução autorizada pelo autor.]
© 2001 Marcos Tavares - Todos os direitos reservados ao autor. A reprodução sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais, desrespeito à propriedade dos acervos e aos serviços de preparação para publicação.
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Marcos Tavares, poeta, contista e cronista, nasceu em Vitória, 1957, radicou-se em Dores do Rio Preto. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
(Final) Garibaldi retirou do colo materno o texto encadernado e depositou-o sobre a mesa do Sr. Eylau. Este título estava gravado com l...
Dois graus a leste, três graus a oeste - Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos - VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (final)
Garibaldi retirou do colo materno o texto encadernado e depositou-o sobre a mesa do Sr. Eylau. Este título estava gravado com letras d'ouro na capa: Catálogo das ruas de Vitória pelo método racional simplificado. O Sr. Eylau abriu o volume e deu uma folheada, lambendo de quando em vez a ponta dos dedos. Aí perguntou:
— O que o senhor propõe é uma simplificação oficial dos nomes das ruas de Vitória?
— Sim, — disse Garibaldi. — Fiz uma relação de todos os nomes de ruas de Vitória e os reduzi a um ou no máximo dois elementos. Nenhum escritor terá mais qualquer problema pra usar um nome de rua não só em título de livro mas também, não esqueçamos, em texto de conto ou romance ou em verso de poema. Porque isso também é importante: os atuais nomes de rua são altamente poluentes: poluem qualquer página literária em que sejam inseridos.
— A simplificação, porém, — disse o Sr. Eylau, — vai certamente provocar a repetição de alguns nomes. Como você resolve esse problema?
Garibaldi, aparentemente, pensou em tudo:
— De modo muito simples. Pra esses casos adotei o método anglo-saxônico: rua Oliveira Oeste, rua Oliveira Leste. Rua Rosa Norte, rua Rosa Sul. E assim por diante.
O Sr. Eylau fechou o volume sobre a mesa. Fisguei-o pra meu lado. Abri. Havia um sumário. O projeto se dividia em cinco partes: (a) Apresentação do problema; (b) Ação predadora contra os antigos nomes de ruas de Vitória; (c) Simplificação racional da nomenclatura; (d) Operacionalização do sistema; (e) Tabela de nomes atuais e simplificados. Fui adiante até chegar à tabela. Eis uma parte do que li à página 38, referente às ruas da Mata da Praia:
Nome original Nome simplificado
Alcides Sérgio Melo Monteiro Alcides
Amélia Tartuce Nassar Amélia
Audífax Barreto Duarte Audífax Norte
Carlos Gomes de Sá Sá
Carmélia Maria de Souza Carmélia
Danton Bastos (Desembargador) Danton
David Pimenta (Construtor) David
Darcy Monteiro (Dr.) Darcy
Denizart Santos (Dr.) Denizart
Emília Mazoco Keijock Emília
Gastão Franco Americano (Coronel) Gastão
Gilberto Martins Gilberto
Hilário Favarato Favarato
Maria de Lourdes Poyares Labuto Maria de Lourdes
Newton Thevenard (Desembargador) Thevenard
Ormandino Benezath Benezath
Pedro Luiz Zanandréa Zanandréa
Interrompi a leitura pra acompanhar a argumentação de Garibaldi, que seguia viajando de vento em popa:
— O senhor veja que o meu sistema tem muitas vantagens. Em certos casos, dei preferência ao sobrenome e não ao prenome. O que temos, então? A família inteira passa a ser homenageada e não apenas aquele indivíduo específico. É o caso, por exemplo, de Grecco, Rabelo, Caliman, Trancoso, Gagno, Neffa, Vivacqua, e tantos mais. Outra vantagem, sobretudo no caso de ser mantido o prenome, é a abrangência universal da homenagem. A rua Coronel Gastão Franco Americano, por exemplo, que só homenageava o próprio coronel, no meu sistema homenageia não só a ele como também ao sortudo Gastão, primo do Pato Donald. A rua Professor Nilo Martins da Cunha passa a ser, também, uma homenagem ao rio Nilo, e a rua Promotor Diógenes Malacarne uma homenagem, também, ao filósofo Diógenes, aquele do tonel.
— Mas não creio, — disse o Sr. Eylau, céptico, — que a Prefeitura aceitaria o seu sistema só em nome do bom senso.
— Aí é que está, — disse Garibaldi. — Eu pensei em tudo. Minha proposta contém uma isca que prefeitura nenhuma há de resistir a ela. Essa isca está na operacionalização do sistema. Proponho o seguinte. — Deu uma folheada no texto, à procura da isca passível de fisgar a Prefeitura em mortal anzol. — Onde é que está mesmo? Ah, aqui: "O executivo municipal substituirá as atuais placas de rua, onde aparecem os nomes sujeitos a simplificação, por outras, em que constarão os nomes simplificados." Sentiu a isca? E mais: "Além das novas placas, o executivo municipal proverá placas especiais, em bronze, contendo informações sobre o homenageado específico, incluindo nome completo, datas de nascimento e morte, e um pequeno currículo de vida." Que prefeitura vai resistir a uma coisa dessas? Já pensou a mão de obra que a operacionalização do meu sistema vai exigir? Já pensou a alegria das autoridades municipais quando sentirem o rebuliço que vão provocar em toda a cidade, a atenção que vão chamar entre todos os moradores votantes? Assim que perceberem isso, vão aceitar o meu sistema na hora.
— É possível, — disse o Sr. Eylau. — Mas ainda não entendi o que o senhor espera da Agência Ajax.
— Espero, — explicou Garibaldi, — que a agência, como pessoa jurídica, submeta uma proposta de venda do sistema, do jeito que está, prontinho da silva, à Prefeitura. Submeta, acompanhe o andamento do processo, mexa alguns pauzinhos, e, quando for aprovado, receba a grana e me pague um percentual de autor, tipo 90%, 50%, 15%, qualquer coisa simbólica. Que que acha?
— Creio que 15% é um percentual adequado, — disse o Sr. Eylau. — E qual o valor de venda que o senhor propõe para o sistema?
— Dez mil reais, — disse Garibaldi. — Mas, se eles chiarem, podemos baixar pra sete e trezentos, seis e quinhentos, algo assim.
O Sr. Eylau ficou estarrecido, e tanto que até suspirou. Depois do suspiro, disse:
— Sr. Garibaldi, acho que o senhor tem de dinheiro a mesma noção que tem de tempo. Dez mil reais é um valor ridículo. Vou propor duzentos mil para chegar a cento e cinqüenta.
— O quê? — Garibaldi quase caiu da cadeira. — Mas eu tenho vergonha de propor tanta grana assim.
— Não se preocupe, — disse o Sr. Eylau. — A Agência Ajax é que vai propor. E a Agência Ajax tem vergonha é de propor pouco, e não de propor muito. Quanto mais alto o valor da proposta, mais a gente é olhado com respeito e consideração.
Garibaldi estava sem fala. O Sr. Eylau disse:
— Vou estudar melhor o seu sistema e minutar duas coisas: um contrato para o senhor assinar e um expediente para encaminhar a proposta à Prefeitura. Deixe, por favor, o seu telefone com Dona Mônica e aguarde notícias.
Garibaldi levantou-se. A cifra, de tão vultosa, deixara-o quase catatônico. Imaginei que mais um pouco e ele arrebataria o seu Catálogo de cima da mesa e sairia correndo da agência como costuma sair correndo de consultórios dentários. Pra distraí-lo fiz-lhe esta pergunta banal:
— Sr. Garibaldi, e o jazz, como é que anda?
Seu rosto se iluminou. Eu tinha proferido a palavra mágica. Garibaldi recuperou a fala:
— O jazz anda bem, obrigado. Aliás, anda sempre muito bem por uma razão muito simples: porque o estoque de gravações que os músicos antigos deixaram pra nós é inesgotável, inesgotável no sentido de que nenhum de nós, jazzófilos, teria tempo astronômico pra ouvir tudo que gostaria de ouvir. Então o que temos? Morreram os veteranos, mas o som gravado está aí, imortal. É a nossa sorte. Porque, meu amigo, se não fosse isso, nós estaríamos fodidos. Porque o que esse pessoal anda fazendo hoje não dá pra escutar. Mas deixe eu ir, que tenho compromisso às quatro e meia lá no Centro da Praia.
— Já são mais de cinco, — disse o Sr. Eylau.
— Tô em cima da hora, — disse Garibaldi.
Apertou-nos rapidamente as mãos e lá se foi, alto e sem engonços. O Sr. Eylau sentou-se de novo e começou, coisa incrível, a sorrir. Era o sorriso cintilante do agente que via cair à mão, por milagre, a oportunidade de tirar da lama o pé da agência. Não duvidei nada que aquela noite, diante de uma imagem de Nossa Senhora da Penha, fizesse a promessa de, se tudo saísse bem, subir de joelhos a escadaria do convento. De repente desceu da dimensão do devaneio e olhou fixamente pra mim.
— Quer dar uma mordida nesse bolo? — perguntou, apontando pro Catálogo de Garibaldi.
— Dinheiro honesto é comigo mesmo, — respondi. Um pouquinho desonesto também, pensei, mas não disse.
— Leve o texto para casa, dê uma estudada, veja se tem algum furo, faça alguma sugestão pertinente e redija os documentos necessários. Não. Só o expediente para a Prefeitura. Quanto ao contrato, deixe que eu mesmo redijo. Tenho mais prática.
— Quanto ganho com isso? — perguntei.
— Cinco por cento da fatia da agência. Aliás, acho que vou elevar o pedido para quatrocentos mil com possibilidade de reduzir para duzentos e cinqüenta. O que são duzentos e cinqüenta mil reais para a Prefeitura de Vitória?
— Também acho, Sr. Eylau, — concordei; não tenho o escrupuloso cagaço de Garibaldi. Dei ali mesmo uma de Homem que Calculava e calculei mentalmente a parte que me tocaria: 250.000 - 15% = 212.500 x 5% = 10.625. R$10.625,00? Nada mal. Poderia levar a doce Fúlvia pra jantar a semana toda num desses restaurantes que cobram trinta reais o prato.
Deixei o Sr. Porfírio Iolau Eylau sorrindo sozinho e saí de seu gabinete. Mal e mal dei boa noite a Dona Mônica, com a cabeça cheia de dez mil, seiscentos e vinte e cinco reais como ia. Se ela ficou, como presumo, meio decepcionada, que se consolasse com os beijos de Teodomiro Júnior. Saí pro corredor. Coincidência: desci no elevador com os mesmos dois rábulas com que subira. De novo conversaram entre si como se eu estar ali ou ali não estar tanto fizesse. Se soubessem que quem estava ali agora era o Homem de R$10.625,00 teriam decerto agido diferente.
— Você comeu aquela recepcionista da Esculamed? — perguntou o marido da aniversariante.
— Comi e estou comendo, — respondeu o outro. — Passei a conversa nela dizendo que eu era o governador.
— Ela acreditou? — perguntou o primeiro.
— Prometi até uma função gratificada na Secretaria de Cultura, — disse o outro, rindo.
— Até quando você vai levar isso adiante? — perguntou o primeiro.
— Até ela me dar a bunda, — disse o outro. — Depois quero ver a puta me encontrar.
— Deixa ela se queixar ao governador, — disse o primeiro.
*
Saí pro ar puro do poluído crepúsculo do centro de Vitória. Que faço comigo agora? Pego um ônibus pra Jardim Camburi, um ônibus pra Jardim Camburi ou um ônibus pra Jardim Camburi? Pego o 121, pra ir pela avenida da Penha, o 161, pra ir pela Maruípe, ou o 241, pra ir pela Beira-mar? Eis aí, pensei, três avenidas que se qualificam, pelos nomes que têm, a ser palco de um duplo assassínio literário. Assim pensativo, parei diante de uma loja de eletrodomésticos. Havia uns quinze televisores na vitrine, todos ligados, e todos mostravam, em cores berrantes, a cara porca de Miguel Desidério. Ele disse alguma coisa que não entendi. Num passe de mágica, sai Miguel Desidério das quinze telas e entra Jacqueline Paganini. É linda de desesperar qualquer sujeito que, como eu, não tenha namorada. Sorrindo pra mim numa quinzena de sorrisos, ela anuncia:
— Poeta Miguel Desidério vai recitar uma de suas mais recentes poesias.
Aí, leitor, leitora, tive de ver e ouvir, a um só tempo, quinze Manoéis Desidérios recitarem, com voz mais melíflua que a de Dom Evaristo Arns, o seu poema "Todo cuidado é pouco, Jacqueline".
Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
(Continuação II) — Projeto Garibaldi? — exclamei. — Que projeto é esse que não estou sabendo de nada? — Não tem nada a ver com o senh...
Dois graus a leste, três graus a oeste - Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos - VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação II)
— Projeto Garibaldi? — exclamei. — Que projeto é esse que não estou sabendo de nada?
— Não tem nada a ver com o senhor, — disse o Sr. Eylau. — Trata-se de um projeto para publicar a primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste. A parte composta pelo velho narrador.
— E foi recusado? — exclamei, furibundo. Numa hora dessas uno-me solidário até mesmo ao chato do Velho. — Recusado por quê?
— A burocracia da Lei, — disse o Sr. Eylau, — exige um documento que nós esquecemos de anexar ao processo: uma declaração por escrito de Garibaldi Magalhães concordando em participar do projeto como personagem principal. Sem esse documento, nosso projeto nem sequer chegou à etapa de avaliação. Para usar linguagem futebolística, foi eliminado no torneio início do campeonato.
— Que pena, Sr. Eylau, — consolei-o. — Apesar de ser um texto do meu rival, não queria que passasse por situação tão patética.
— Coisas da vida, — disse o Sr. Eylau, filosófico. Logo, porém, menos filosófico, acrescentou: — Sei de pessoas que, para garantir seus próprios projetos, sempre que vão ao escritório da Lei levam biscoitos Alcobaça para distribuir entre os funcionários. Aposto que os projetos dessas pessoas não são recusados sumariamente, por falta de um documento, como foi o nosso. Tento encarar friamente essa situação, mas confesso que às vezes o sangue me sobe à cabeça e sinto vontade de fazer uma loucura.
Telefone sobre a mesa do Sr. Eylau zumbiu. Era Dona Mônica. Chegara o sujeito agendado pras quatro horas. O Sr. Eylau olhou pra mim e disse:
— Não se retire não. Do jeito que estou fragilizado esta semana, é bom contar com a sua presença aqui para me assistir se for necessário.
Bateram à porta, que se abriu pelas mãos de fada de Dona Mônica. Ela afastou-se pra dar entrada ao recém-chegado. Quem era? Leitor quer saber quem era? Pois era José Garibaldi Magalhães: o próprio. * Assim que José Garibaldi Magalhães, desengonçado como só ele sói, entrou gabinete do Sr. Eylau adentro, percebi que muito ainda mais amplo do que eu pensara a princípio era o paralelismo entre a visita que fizera mais cedo à Bico de Lacre Editores e a que fazia agora à Agência Ajax de Produções Literárias. Confira o leitor: lá, como cá, fui recebido por secretárias cujos nomes começam pela letra M; lá, como cá, sentei-me em audiência com os respectivos titulares de uma e outra empresa; lá, como cá, deparei-me com o que se poderia chamar de calamidade editorial; lá, como cá, tentei receber meus honorários (que me foram pagos lá mas não cá); e agora, por fim, se lá me vi em presença de um sócio emérito do Clube das Terças-feiras, a saber, Fernando Achiamé, cá me vejo em presença de outro sócio (só que mais emérito ainda: o mais emérito de todos) do mesmo clube, a saber, José Garibaldi Magalhães.
Confesso que me bateram no peito um tique e um taque de pura emoção diante da perspectiva de conhecer pessoalmente, agora vis-à-vis e tête-à-tête, o meu personagem principal. Garibaldi descambou porta adentro alto e sem engonços, plantado sobre suas longas pernas de Dexter Gordon e sobraçando um texto impresso encadernado em capa dura. Levantamo-nos, o Sr. Eylau e eu, corteses, pra apertar-lhe a mão. Quanto a mim, coração bateu ainda mais taquicardíaco (ou mais tiquetaquicardíaco, como diria o meu amigo Alfred) nessa hora histórica. O Sr. Eylau é que nem se tocou: triste ficou como triste estava. Sentamo-nos os três. Garibaldi depôs maternal sobre o próprio colo o texto impresso, deu uma espiada nas unhas das mãos, pra ver se estavam no lugar, e não disse palavra. Apenas enfiou sobre o Sr. Eylau o olho esganiçado e espremeu entre os lábios um sorriso de maraçapeba.
— Em que posso servi-lo, Sr. Garibaldi? — perguntou o Sr. Eylau.
— Ah! — exclamou Garibaldi. — Era isso que eu esperava que o senhor dissesse. O senhor quer mesmo saber?
— Acho que é o senhor que quer que eu saiba, — disse o Sr. Eylau. — Ou muito me engano ou foi o senhor que pediu esta audiência comigo.
— Bem enunciado, — disse Garibaldi. — Nesse caso não me resta outra alternativa a não ser colocar as cartas na mesa. O motivo da minha visita, senhores, é submeter à apreciação da Ájax —
— Ajax, — corrigiu o Sr. Eylau.
— Da Ajax um projeto de minha concepção e autoria, que intitulei —
Aqui Garibaldi interrompeu-se pra, num borbotão, dizer:
— Não, não, acho melhor começar historiando como foi que me bateu o estalo que deu origem a esse projeto. Foi assim: um mês atrás, estava lá em casa arrumando a estante de livros e dei com minha velha edição das Novelas extraordinárias, de Edgar Allan Poe. É uma edição da Garnier, que pertenceu a meu pai, e estão até faltando as últimas páginas, e por isso perdeu-se a parte final do conto "Berenice" e alguma coisa mais que não tenho como descobrir, porque perdeu-se o sumário também. Mas ainda ficou muita coisa boa ali, inclusive os três melhores contos de Poe, na minha Modesta Opinião, que são "O escaravelho de ouro", "A carta roubada" e "O duplo assassínio na rua Morgue". Meus amigos, parei de arrumar a estante pra reler essas obras-primas. Regalei-me com elas. Li-as pra mim mesmo, depois chegou Penha, que é a minha, ham, pois é, chegou Penha e li "O duplo assassínio" de novo, em voz alta, pra ela ouvir e se regalar também. Depois, deu vontade de tomar um café, então fomos tomar um café. Durante o café eu estava tão absorto em mim mesmo que Penha disse, como dizem as atrizes nos filmes americanos em situações semelhantes: Alô! Alô! Aí eu acordei do meu devaneio. Penha me perguntou: Em que que você está pensando? E eu respondi: No título do conto de Poe que li pra você: "O duplo assassínio na rua Morgue". E o que tem isso, ela perguntou. Tem, eu disse, que um título como esse seria fatalmente impossível no Brasil, porque os nomes das ruas, aqui, com rarissimíssimas exceções, não se prestam à literatura. Aí eu disse a ela: Quem ia querer ler um conto chamado "O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior"? Credo, ela disse. Exatamente, eu disse. Um título como esse faz broxar o mais tarado dos leitores de literatura. Os amigos, por exemplo: os amigos encarariam um conto com esse título?
— Dificilmente, — disse o Sr. Eylau. E professorou: — O título de uma obra literária é de capital importância para captar o interesse do leitor em potencial.
— Existe uma rua Tenente-coronel não sei das quantas? — perguntei.
— Acho que não, — disse Garibaldi, — mas bem que poderia existir. Vocês sabem que os nomes de ruas, praças, avenidas, ou seja, dos logradouros em geral, no Espírito Santo e no Brasil, estão sob a pior das custódias, que é a das câmaras de vereadores. Vereador não quer saber de outra coisa que não seja voto. E nome de rua dá voto. Se você apresenta um projeto pra dar a uma rua que se chamava, digamos, rua da Árvore, o nome de algum falecido comerciante, você garante, nas eleições do ano que vem, os votos da viúva, dos filhos e noras, das filhas e genros e até dos netos votantes do homenageado. É uma tentação muito grande pra qualquer vereador que se preze, e afinal árvore não dá voto. Que importa então a ele se a pobre rua está condenada a carregar pela eternidade afora o nome, digamos, de Delecarliense Drummond de Alencar Araripe? Importam, sim, os votos que ele vai garantir com essa condenação. Porque por voto vereador dá até a, ham, a camisa. Nada o detém. Por voto vereador se arrisca até a queimar no fogo do inferno. Não vê o que aconteceu aqui mesmo em Vitória: a câmara em peso teve a coragem de espoliar a própria Nossa Senhora, mãe de Deus, pra bajular a família de um empresário poderoso. Lembram não do caso?
Eu lembrava. Garibaldi referia-se ao caso da avenida Nossa Senhora dos Navegantes, que os vereadores julgaram extensa e importante demais pra levar só o nome de Nossa Senhora e cortaram-na ao meio, pra fins onomásticos, bem entendido, dando à metade dela o nome de Américo Buaiz. Consolo de Nossa Senhora é que os hereges ainda lhe deixaram metade da avenida. Fosse uma santa menor, tipo Santa Rita dos Impossíveis, teria, apesar de toda a sua capacidade pra lidar com casos impossíveis, perdido a avenida toda pro falecido empresário. Garibaldi esperou a conclusão deste parágrafo narrativo pra continuar:
— Mas não me interessam aqui ilações religiosas mas literárias. Estou defendendo é o direito da literatura brasileira de poder usufruir de nomes de ruas literários. Todo país civilizado garante esse direito a seus escritores. "O duplo assassínio na rua Morgue" é o caso clássico. Mas tem muitos outros. O nome do romance póstumo de Eça de Queiroz é A tragédia da rua das Flores. Ora vejam só. Nós tivemos uma rua das Flores em Vitória, que se chamou assim, segundo diz a lenda, porque nela moravam, lá pelos idos de 1820, as moças mais bonitas da cidade, que eram as filhas do Dr. Pientznauer. Veio a vereança predadora, que não respeita nem moça bonita, e mudou o nome da rua pra Dionísio Rozendo. Pronto. Cagaram no pau dos nossos escritores que, agora, se quiserem, vão ter de escrever um romance chamado A tragédia da rua Dionísio Rozendo.
— Muito correto o seu ponto de vista, — disse o Sr. Eylau. — Como agente de produções literárias, minha simpatia está toda com o senhor. Mas ainda não vi aonde —
— Deixe-me dar mais alguns exemplos, — interrompeu Garibaldi. — Um: o grande Henry James escreveu um romance chamado Washington Square. Nossos escritores teriam a opção de escrever, digamos, Praça Antônio Jacob Saad. Outro: existe um conto de Dashiell Hammett com o título "A casa da rua Turk". Um título equivalente entre nós seria "A casa da rua Carlos Eduardo Monteiro Lemos". Mais outro: eu li uma vez um romance policial de Stanley Ellin chamado A chave da rua Nicholas.
— Belo título, — eu disse.
— Também acho. Em Vitória, qualquer coisa análoga viraria, por exemplo, A chave da rua Amélia Tartuce Nassar. Não há nada de belo nesse título.
— Concordo, — concordei.
Garibaldi, empolgado, continuou:
— E Sinclair Lewis, que escreveu um romance chamado Rua Principal? Quase todas as cidades do interior dos Estados Unidos têm a sua Main Street. A partir dessa rua, Lewis fez um retrato social que valia pra qualquer dessas cidades, todas tão idênticas entre si em seus vícios e virtudes, e o título do romance não podia ser outro nem melhor. Isso, no Brasil, seria impossível, porque vereador nenhum admitiria dar à rua principal de uma cidade o nome choco de rua Principal. Um nome desses só homenageia a própria rua, e desse mato não sai voto.
— Tudo bem, — disse o Sr. Eylau. — Mas ainda não entendi —
Garibaldi não deixa o Sr. Eylau dizer o que mas ainda não entendeu:
— Até pras crianças escreveram-se livros com nomes de rua. Exemplo? Os meninos da rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár. Como se chamaria um livro similar ambientado em Vitória? Os meninos da rua Soldado Miguel Furtado. Os meninos não teriam saco de ler esse livro, só por causa do título.
— Não há nenhum autor brasileiro que tenha escrito um livro com nome de rua no título? — quis saber o Sr. Eylau.
— Luís de Almeida, — Garibaldi respondeu, da ponta da língua. O Sr. Eylau recuou o cabeção ao ouvir o nome do inimigo. — É um autor de Vitória que impinge aos leitores da Internet algumas croniquinhas sobre o quotidiano de uma delegacia. Nunca li nada, mas meu amigo Pedro Nunes lê, e gosta, por alguma razão lá dele. O nome dessa série de crônicas é Chapot Presvot 272, que é o endereço da delegacia.
— Esse não vale, — disse o Sr. Eylau. — Não tem outro, mais nacional?
— Guilherme Figueiredo, — Garibaldi respondeu, de novo da ponta da língua. — Mas só que o livro dele tem no título o nome de uma rua de Paris: 14, Rue de Tilsitt. Imaginemos um título equivalente com o nome de uma rua de Vitória: Rua Lumberto Maciel de Azevedo 14. Que tal?
— Inconcebível, — disse o Sr. Eylau.
— Isso me leva, aliás, a lembrar uma coisa. Queria ater-me ao campo da literatura, mas, como tenho algum conhecimentozinho de jazz, lembrei-me de uma composição do pianista Lennie Tristano que tem como título o endereço do estúdio que ele manteve em Nova York durante anos: 317 East 32nd Street, também conhecida como East Thirty-Second e como 317 E 32nd. Esse recurso onomástico é proibitivo pros músicos brasileiros.
Aí Garibaldi respirou fundo pra entrar nos aspectos teóricos da questão:
— Mas o problema da incompatibilidade entre os nomes de ruas de Vitória e a literatura está, portanto, em dois aspectos: primeiro, os nomes das ruas são longos demais; segundo, não têm, digamos, charme poético. Por que os nomes são longos? Primeiro, porque a vereança desvairada não admite abreviação. O poeta Augusto Lins sempre foi conhecido como Augusto Lins. Mas a rua que tem seu nome chama-se Augusto Emílio Estellita Lins, porque o vereador autor do projeto nunca leu um livro do poeta e ignora que o poeta se chamava apenas Augusto Lins. Segundo, a vereança prolixa agrega aos nomes dos homenageados os seus títulos, quando é o caso. A gente vê, nas ruas de Vitória, uma porrada de Desembargador, Professor, Engenheiro, Soldado, General, Presidente, Governador, Deputado e mais o caralho a quatro, totalmente desnecessários. E por que os nomes não têm charme? Que charme pode ter, pra nome de rua, um nome como Serapião Tolentino Cavalcante? Além disso, boa parte dos prenomes dos homenageados estão no que um teórico chamaria de grau zero de lirismo: Aflordízio, Crisolino, Dióscoro, Duntalmo, Elesbão, Erotildes, Itobal, Lucidato, Medardo, Orcalina, Orozimbo, Pantaleão, Urquízia, Arquimimo e outros mimos. Eu digo aos senhores: eu preferiria morar na rua das Putas do que na rua Euflorzina dos Anzóis Carapuça.
— Está bem, — disse o Sr. Eylau. — Já entendi a sua tese. Mas o que a Ajax pode fazer pelo senhor?
Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor, clique aqui)
(Continuação I) — Que eu me lembre, — disse o Sr. Eylau, — não mandei chamá-lo, mandei? — Que eu me lembre, — respondi, — mandou não....
Dois graus a leste, três graus a oeste - Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos - VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação I)
— Que eu me lembre, — disse o Sr. Eylau, — não mandei chamá-lo, mandei?
— Que eu me lembre, — respondi, — mandou não. Mas tomei a liberdade de vir assim mesmo porque tenho um assunto com o senhor.
— Não cabe ao senhor ter assuntos comigo, — disse ele, — mas eu com o senhor. Não invertamos a ordem hierárquica de nossa relação profissional.
— O senhor me deve dinheiro, — entrei de sola. — Isso faz toda a diferença.
O Sr. Eylau teve um estremecimento. Leitor dirá que não escolhi a hora certa pra cobrar do pobre homem uma dívida. Pelo contrário. Essa é a hora certa: quem deve um milhão não há de se incomodar de dever (e pagar) um milhão e cem.
— O que o senhor está me dizendo, — disse ele, sorrindo com malícia, — é um desatino. O que o fez pensar tal coisa?
— Dois capítulos no ar, — repliquei. — Dois capítulos da História inconfessável. Não foi esse o nosso trato? O senhor disse, textualmente, que eu não receberia nada por intercapítulos nem por entretenimentos, e que só me pagaria quando eu produzisse alguma coisa da História inconfessável. Pois produzi. Agora pague.
— Eu li esses capítulos, — disse ele. — Achei que estão muito aquém do que eu esperava e do que o senhor prometeu. Inclusive não consegui detectar ali nenhuma das influências que o senhor apregoou.
— Temos muito texto ainda pra correr por baixo da ponte, — afirmei. — Seja como for, em "Metade palmito, metade marguerita" já há algumas alusões a histórias em quadrinhos e já está esboçada a influência de Evelyn Waugh: igual ao personagem Gilbert Pinfold, o Velho já começou a sofrer de alucinações.
— Não vi alucinação nenhuma ali, — disse o Sr. Eylau.
— Viu não? — eu disse. — E aquela sacada do "quer que te chupe"?
— Aquilo foi uma alucinação? — disse ele.
— Auditiva, — precisei.
O Sr. Eylau parou pra um ato de reflexão. Depois disse:
— Alucinação ou não, achei de muito mau gosto.
Achei necessário atualizar-lhe o conceito:
— Sr. Eylau, não existe, na literatura de hoje, isso de mau gosto. Pelo contrário, o bom gosto é a única coisa hoje que é de mau gosto. Mas voltemos ao que importa.
— Ainda não, — objetou ele. — Ainda tenho algo a dizer sobre o assunto em pauta. A influência que tenho visto em seus textos sabe qual é? É a influência do primeiro narrador.
— Como é que é? — exclamei.
— Isso mesmo, — disse ele. — Já não vejo mais em seus textos aquela narrativa seca, áspera, cínica, até escrachada dos primeiros capítulos. Dá para deduzir que o primeiro narrador está tomando posse de sua personalidade literária e assumindo controle de sua mente narrativa. Ele está encarnando no senhor. Sua escritura está cada vez mais rebuscada, mais prolixa, mais, por assim dizer, barroca.
— Barroca? — Senti-me insultado.
— Barroca, — confirmou o Sr. Eylau. — Para mim tanto faz. Meu compromisso com o autor é prover um narrador capaz de prosseguir e concluir a seqüência da História inconfessável. Mas, pensando bem, até nisso parece que o senhor vem sofrendo a influência do outro. Por que essa resistência quanto a botar para fora os capítulos inconfessáveis? Por que essa insistência em gerar uma profusão de intercapítulos e sobrecapítulos? Diria até que a fobia do outro contagiou o senhor.
Mal pude acreditar no que ouvia. Será possível, diga-me, leitor, que algo tão bizarro e sórdido esteja de fato ocorrendo? Se será, preciso tomar providências urgentes pra conter essa insidiosa possessão estilística.
— Vou examinar com calma esse assunto, — prometi, tanto ao Sr. Eylau como a mim mesmo. — Mas agora voltemos ao que importa. Acabei de passar na Bico de Lacre e recebi um cheque como pagamento de uma revisão que fiz pra editora. Se não acredita, eis aqui a evidência.
E exibi-lhe, em pleno nariz, o cheque da Desentupidora e Higienizadora Clean.
— Não há por que exibir nada para mim, — disse ele. — Eu li o intercapítulo anterior na internet. Aliás, uma observação: que o texto esteja repleto de notas de pé de página é compreensível, porque a tese da professora doutora serve de gancho para isso. O que não compreendo é por que, a partir de determinado ponto, as notas não têm mais nenhuma relação com o que diz o texto.
— O senhor já esqueceu do seu Mendes Fradique? — repliquei. E, diante da expressão de surpresa em seu rosto, prossegui: — Não lembra que Mendes Fradique, na Gramática portuguesa pelo método confuso, estica uma infinidade de notas de rodapé que não têm nada a ver com o texto? O leitor inocente vai lá ver o que é e encontra uma receita de bolo aqui, uma receita de cola pra vidro ali, mais adiante uma dica pra manter o brilho dos cristais ou a frescura das flores depois de colhidas. O que fiz foi fazer a mesma coisa, só que pior: pois as citações teóricas que escolhi pras notas, todas de Greimas, não têm utilidade nenhuma, porque não contêm nem que seja uma dica pra, por exemplo, evitar constipações. Mas, voltando ao cheque que tive o prazer de receber na Bico de Lacre, confesso que esperava merecer do senhor tratamento igual ao que recebi de Djalma Smee.
— Meu amigo pessoal, — disse o Sr. Eylau.
— O que o senhor quer dizer quando diz amigo pessoal? — perguntei. — Haverá um amigo que não seja pessoal? E o que seria um amigo impessoal? Gasparzinho, o fantasma camarada?
— Não me venha com questões abstrusas, — disse o Sr. Eylau. — Quanto ao seu pagamento, estou impedido de fazê-lo.
— Impedido como? A Ajax está quebrada? — perguntei.
Ele se fez de ofendido:
— Claro que não. Tenho sólidos patrocinadores. O que há é que não posso pagar sem infringir a cláusula nona do nosso contrato.
A cláusula nona do maldito contrato que assinei com a Ajax é uma cláusula mutável: de texto movediço: hoje reza uma coisa, amanhã outra.
— E o que reza a cláusula nona no dia de hoje? — perguntei.
— Que, — respondeu ele, — se alguma coisa em seu trabalho der motivo a processo contra a agência, ficam suspensos os seus pagamentos até à conclusão do processo. Conclusão favorável à agência, bem entendido.
— Isso se aplica ao Roderico, não a mim, — protestei. — Não tive nada a ver com o caso Zefa-Rezefa.
— Não, não, — fez ele, impaciente. — Refiro-me a outro processo, que um tal Luís de Almeida está ameaçando mover contra nós.
— Luís de Almeida? — repeti.
— Sim, — disse ele. — Esteve aqui um advogado, que por sinal tem escritório aqui mesmo neste andar, e disse que estava representando esse Almeida. Por quê? Porque Almeida alega que o senhor se apropriou, sem autorização, de um personagem que pertence a ele: Teodomiro Reis. Alega que esse personagem aparece num conto que ele escreveu há muito tempo, intitulado "O penúltimo caso de Teodomiro Reis". Alega que o senhor está usando esse personagem, nos seus intercapítulos, na qualidade de namorado de Dona Mônica e que o usou também no entretenimento intitulado "Estudo em ébano". Viu no que deu sua mania obsessiva de intercapítulos e entretenimentos?
Fiquei sem fala. O Sr. Eylau aproveitou pra continuar:
— Por sorte sua, e nossa, o advogado disse que Luís de Almeida, ignorando o conselho dele advogado, não pretende entrar com um processo contra nós mas sim firmar um acordo que lhe garanta o uso exclusivo do personagem.
Maldito Luís de Almeida. Há vinte anos escreveu esse conto, há vinte anos, eu disse, e nunca publicou. Agora que usei o personagem lá vem ele reclamar direitos. Mas eu estava preparado pra isso ou pra algo como isso. Recostei-me à cadeira e assumi um ar de total tranqüilidade pra dizer:
— Desse processo a gente se safa numa boa, Sr. Eylau. Luís de Almeida não está com nada. Pois acontece que nosso Teodomiro Reis na verdade é filho do Teodomiro Reis dele. E isso é fácil de provar até por meio da lógica. Luís de Almeida escreveu o conto com Teodomiro como personagem há vinte anos atrás, e nesse conto Teodomiro tinha mais de quarenta anos. Me diga agora se é possível, a bem da lógica, a fulgurante Dona Mônica namorar um detetive escroto de sessenta anos. Não, Sr. Eylau, o Teodomiro Reis da Falcão Negro, seu vizinho, não tem nada a ver com o Teodomiro Reis de Luís de Almeida a não ser o nome e, naturalmente, alguns leucócitos e hemácias.
— Este é filho do outro? — disse o Sr. Eylau. — Então Luís de Almeida não tem caso contra nós.
— Claro que não. Mas já que ele mostrou certa consideração conosco, podemos aceitar um acordo nestes termos: se ele esquecer essa furada de meter processo na gente, o nosso detetive passará a chamar-se Teodomiro Reis Júnior.
— Não é má idéia, — murmurou o Sr. Eylau.
— Ou até, abreviado, Teodomiro Júnior, — acrescentei. — A propósito, o senhor foi leitor da Vida Capichaba?
— Fui, — disse o Sr. Eylau, e ? de sorriso se afixaram em seus lábios, porque a saudosa revista é doce lembrança pra todos os capixabas que tiveram ocasião de comprá-la em bancas, como o sócio velhinho do capítulo anterior.
— Então deve lembrar, — eu disse, — de uma seção da revista que se chamava "Consultório do Dr. Nostradamus Júnior".
— Se lembro? — confirmou ele. — Essa seção é inesquecível.
A seção inesquecível, inaugurada em 1952 na célebre revista, não era, como poderá pensar o leitor, uma coluna de orientação clínica, nem, como poderá pensar a leitora, um consultório sentimental. Nada disso. O Dr. Nostradamus Júnior, Ph. D. em Cultura Inútil, respondia a toda e a qualquer pergunta que lhe faziam os leitores da Vida no âmbito desse vasto e ilimitado território do conhecimento humano. Só que ocorre (vou entregar o bruto) que o ilustre sábio nunca recebeu consulta de leitor algum! Sim, aqui digo e assevero que o Dr. Nostradamus Júnior simplesmente inventava as consultas e, por conseguinte, os consulentes, ou vice-versa, pra justificar a permanência (por pura vaidade, porque, como os demais colaboradores, era pago mensalmente a leite de pato) do consultório nas páginas da revista. Assim, nem um só daqueles consulentes que se escondiam sob os mais diversos pseudônimos — Carola, Hermengardo, Marmanjo, Pixote Canela-verde, etc. — nunca existiu, a tal ponto que todos eles chegavam a ser ainda menos reais do que o Homem que Nunca Existiu: pois enquanto esse famoso personagem da Segunda Guerra Mundial tinha toda uma história de vida, falsa embora, minuciosamente elaborada pra enganar a contra-espionagem alemã, qualquer um dos fictícios consulentes do Dr. Nostradamus Júnior nada tinha de seu além do seu falso pseudônimo, já que mais não era preciso pra enganar o velho Maneco Pimenta, dono da revista, que acreditava piamente na farsa. Assim, falsos eram os consulentes, falsos os pseudônimos e falsas as consultas, que o próprio sábio extraía dos almanaques e das enciclopédias de que dispunha, em especial do Tesouro da Juventude.
— Eu gostava muito, — disse o Sr. Eylau, — daquele consultório. Costumava acompanhar as consultas com muito interesse. Posso até dizer que o consultório foi tão importante para minha formação cultural como uma universidade. Lembro que uma vez atrevi-me a fazer uma consulta, e para isso usei o pseudônimo de Iolau, que é meu nome do meio. Queria saber a origem e o significado da palavra intelligentzia, de uso ainda recente na época, mas não dei sorte: no número seguinte não vi mais o consultório. Tinha fechado.
Não disse nada ao Sr. Eylau, pra não perturbá-lo, mas tenho certeza de que o consultório fechou exatamente por conta da consulta que Iolau se atreveu a fazer. O Dr. Nostradamus Júnior só sabia as respostas pras consultas que ele mesmo pinçava em seus sebentos alfarrábios.
— Mas por que o senhor mencionou essa seção da velha Vida? — perguntou o Sr. Eylau. — O que tem isso a ver com Luís de Almeida?
— Tudo, — respondi. — Quer saber a identidade secreta do Dr. Nostradamus Júnior? Eu lhe direi: Luís de Almeida. Sim. Luís de Almeida e o Dr. Nostradamus Júnior eram a mesma pessoa. E se ele se assinava Júnior era porque já antes dele tinha pontificado, em jornal de Vitória, nas mesmas condições de sábio-que-sabe-tudo, um outro Dr. Nostradamus. Ora, se Luís de Almeida se apropriou do consultório do Dr. Nostradamus valendo-se do ardil de acrescentar um "Júnior" ao nome, por que não podemos nos valer do mesmo ardil pra nos apropriar do nome Teodomiro Reis? Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
— Excelente! — vibrou o Sr. Eylau. — Esse argumento, se for preciso, será usado como golpe de misericórdia contra as ameaças de Luís de Almeida.
Fiquei todo bobo dentro das calças diante do reconhecimento, por parte do Sr. Eylau, da minha capacidade advocatícia. Quis logo capitalizá-lo:
— Bom, agora que esse problema não representa mais nenhum perigo, que tal pedir a Dona Mônica pra me fazer um cheque?
— Não creio que seja possível, — disse ele.
— O texto da cláusula nona já mudou de novo? — perguntei.
— Exatamente, — disse ele. — Agora reza que o senhor só receberá seu pagamento quando tiver produzido pelo menos o mesmo número de capítulos nucleares, isto é, da História Inconfessável propriamente dita, e de capítulos periféricos. Ora, pelas minhas contas, temos dois capítulos nucleares contra sete periféricos. Viu? O senhor está perdendo tempo com esses intercapítulos e contracapítulos e sei lá mais o quê. Tempo e dinheiro. Mas não posso deixar de reconhecer que, no caso Teodomiro Reis, o senhor me deixou aliviado com a solução proposta.
— Eu devia tê-la vendido pro senhor, — murmurei.
— Eu a teria comprado, — disse ele. — Estou sempre pronto a pagar alguma coisa por um bom tranqüilizante. Esta semana, então, foi um rabo de foguete atrás do outro. Primeiro a ameaça de Luís de Almeida, depois o caso Zefa-Rezefa, como o senhor o chama, e ainda hoje mesmo recebi uma comunicação da Lei Rubem Braga no sentido de que o Projeto Garibaldi, que apresentamos à Lei, foi recusado.
Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Promessa é dívida, portanto cumpra-se a promessa é dívida do narrador: abra-se, pelas mãos de musa de Dona Mônica, a sisuda porta da Agênc...
Dois graus a leste, três graus a oeste - Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos - VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continua)
Promessa é dívida, portanto cumpra-se a promessa é dívida do narrador: abra-se, pelas mãos de musa de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência Ajax.
Dona Mônica abriu meia porta, viu quem era, meteu o belo rosto pra fora, varreu o corredor com o olhar, talvez pra ver se não havia por ali algum detetive de tocaia, e aí então me botou agência adentro.
— Cá está você outra vez, — disse ela.
— Tornar a vir é o ser do que devém, — eu disse. — Tornar a vir é o ser do próprio devir, o ser que se afirma no devir. O eterno retorno como lei do devir, como justiça e como ser.
— Que que é isso? — perguntou ela, surpreendida. — Poesia?
— Sei lá, — eu disse.
Nem queria saber. Já estava entregue ao êxtase de confirmar que Dona Mônica consegue, sabe-se lá a poder de que artifícios, poções mágicas ou pactos diabólicos, pôr-se cada dia mais linda e mais gostosa. Quis, recuando dela, criar a necessária distância pra, que nem crítico de artes plásticas, contemplar aquela obra-prima de alto a baixo e de baixo a alto, mas a saleta, desde a minha última visita, tinha sido capaz de uma grande proeza: encolher. O que era, o que não era, verifiquei que parte do já exíguo jazigo que é a saleta de Dona Mônica estava tomada por pilhas de pacotes que emparedavam as próprias paredes e que, evidentemente, continham esse produto nojento que se chama livro; nojento e prolífero, visto que suas ninhadas nunca se contam por menos que centenas. De qualquer modo, recuei até o limite de encostar a bunda a uma dessas pilhas e dali o que fiz foi deixar de molho o olho sobre a, de Dona Mônica, beleza estonteante (nela, mais que em ninguém, o clichê é de todo perdoável).
— Que que você está olhando? — perguntou ela.
— Olhando você, — respondi. — Cada dia mais linda. Cada dia mais g... Cada dia mais garrida.
Contato com Miguel Desidério me deixara confiante pra seduzir e conquistar. Desidério não era nada de mais bonito que eu e no entanto comia, se não toda e qualquer, muita e qualquer mulher que lhe desse na telha da libido comer. Daí, com a cara mais sonsa, parti pra esta pergunta inocente:
— Já pensou em posar pra fotografia, Dona Mônica?
— Posar? Que que você quer dizer? Pra fotos artísticas? — disse ela.
— Até certo ponto, — disse eu.
— Pra fotos eróticas, é isso que você quer dizer, — disse ela. — Fotos em pêlo. Pois nem que a vaca tussa. Já me convidaram e eu disse que não. Qual é? Sou filha de meu pai e evangélica.
Evangélica? Evangélica e não hesita em personificar a figura diabólica de uma freira por duas horas em lugar público e concorrido? Vai entender. Mas, por outro lado, mostrei sincera indignação:
— Já te convidaram? Quem foi o patife que ousou fazer uma coisa dessas?
— Conhece um poeta chamado Miguel Desidério? — disse ela. — Pois é fotógrafo também. Me mostrou algumas fotos que tirou de mulher de tudo que é tipo: branca, preta, castanha, amarela. Tudo muito erótico. Cama, praia, piscina, banheira. Deus que me livre. Tá pensando que eu sou o quê? De vez em quando o safado liga pra mim e repete o convite. Pois pode esperar sentado.
Aproveitei a dica e sentei-me. E disse:
— Mas faça-me o favor de não me confundir com Miguel Desidério. As fotos que quero tirar de você são artísticas, verdadeiramente artísticas, e não eróticas. Ou melhor, com uma lightíssima carga de erotismo, porque até vestida de freira você fica sedutora. Por falar nisso, como é que uma briosa evangélica como você foi capaz de se disfarçar de freira?
— Sou profissional, — disse Dona Mônica, com dignidade.
A velha e mofada desculpa de todo mundo — até de uma secretária da Agência Ajax — pra fazer e ter feito toda e qualquer merda na vida. Mudei de assunto:
— E que livralhada é essa que inundou a sala, Dona Mônica?
— Esses pacotes? — murmurou ela. — Preferia que você não tivesse perguntado.
— Agora já perguntei, — eu disse. — E faço absoluta questão de ser informado a respeito. Tenho direito de. Afinal, sou praticamente da família Ajax.
Esperei enquanto Dona Mônica hesitava três segundos. Depois ela disse:
— Uma das nossas publicações foi impressa com erros escabrosos. O autor mandou recolher a edição e ameaçou processar o Sr. Eylau se ele não fizer outra às custas da agência. Um tremendo prejuízo financeiro. Coitado do Sr. Eylau. Já tem tantos problemas e ainda por cima cai-lhe sobre a cabeça essa calamidade.
Calamidade, disse Dona Mônica. Calamidade, dissera Fernando Achiamé. A mesma palavra. Calamidade, calamidade, tudo calamidade. Calamidade no Instituto Histórico e Geográfico, calamidade na Agência Ajax de Produções Literárias. E, no meio de tanta calamidade, o pobre narrador autodiegético.
— Tem um exemplar aí pra eu ver? — perguntei.
Dona Mônica abriu a gaveta da mesa e extraiu de lá o exemplar de um livro, que passou às minhas mãos. Era um romance intitulado Regina, meu amor, e seu autor chamava-se Marcéu do Espírito Santo.
— Já vi a calamidade, — eu disse. — O nome do autor está escrito errado na capa.
— Como assim? — estranhou Dona Mônica.
— O nome dele não é Marcel, com "l"? — estranhei por minha vez.
— Não, é assim mesmo, — disse ela. — O nome dele reúne as palavras "mar" e "céu". Achei lindo isso. Achei muito romântico.
— Então o que foi que aconteceu de tão grave na edição do livro? — perguntei.
— A personagem principal chamava-se Regina, — disse Dona Mônica, — mas havia também uma personagem secundária chamada Gina. Depois do livro editorado, pronto pra imprimir, o Sr. Eylau tomou a iniciativa de sugerir ao autor que não convinha ter duas personagens com nomes tão parecidos, e o autor concordou e decidiu mudar pra Zefa o nome da tal Gina. Aí o Sr. Eylau mandou Roderico, o editorador, fazer a mudança no arquivo. Isso é fácil de fazer no computador. Você usa os comandos "localizar" e "substituir". No caso, localizar Gina e substituir por Zefa. Você pode substituir tudo de uma vez, se quiser, mas não é prudente. O computador é meio burrinho e pode mudar coisas que não é pra mudar. Só que Roderico, que é um irresponsável, usou o comando "substituir tudo" e deu no que deu. O texto impresso do romance está todo prejudicado.
Meu olho pediu-lhe que explicasse melhor. Ela disse:
— A palavra "virginal", que aparece umas trinta vezes no texto, virou "virzefal". "Página" virou "pázefa". A expressão "imagina só", que também aparece várias vezes, tornou-se "imazefa só". E, o que é pior, o nome da personagem principal ficou Regina só na capa e na folha de rosto; no texto do livro, de fora a fora, virou Rezefa.
Dei uma folheada no livro. Era vero. À pázefa 64, logo na primeira linha, dei com uma frase estranha, aparentemente escrita numa língua híbrida de português e uraniano: "Rezefa, a linda zefasiana do rosto virzefal, estava apaixonada."
— E o pior, — disse Dona Mônica, — é que o problema que deu origem à calamidade não foi resolvido. Se antes o livro tinha as personagens Gina e Regina, agora tem Zefa e Rezefa.
— O pior, — disse eu, — é saber que, com Gina e Regina ou com Zefa e Rezefa, o romance é a mesma boa merda. Uma nova edição não vai salvar a literatura da calamidade original. Ou devo dizer: orizefal?
— Você já leu o livro? — espantou-se Dona Mônica.
— E preciso? — repliquei. — Basta ler uma frase pra saber.
Telefone tocou, Dona Mônica atendeu. Era uma tal de Dona Amália. Pelo que pude deduzir das falas de Dona Mônica, Dona Amália insistia com ela pra fazer alguma coisa e Dona Mônica insistia em dizer que não podia, que não tinha interesse, que não ficava bem, afinal de contas, Dona Amália, eu tenho namorado. Teodomiro Reis. É detetive particular. Eu sei. Sei. Sei. Não, claro que não. Ham. Hum. Hein? Não. Sei. Mas, Dona Amália... Sei. Hum. Ham. Sei. Posso não, Dona Amália. Olha, Dona Amália, eu estou com um cliente aqui, preciso dar atenção. Depois eu ligo pra senhora. Boa tarde.
Dona Mônica desligou, olhou pra mim meio constrangida. Tentei adivinhar o que que Dona Amália queria que Dona Mônica fizesse. Minha fértil imaginação fez de Dona Amália uma alcoviteira que queria (no que eu lhe dava toda razão) contratar os serviços qualificados de Dona Mônica como prostituta de luxo. Por que outro motivo Dona Mônica invocaria o namorado como impedimento pra proposta de tal modo razoável e lucrativa? Dona Mônica, porém, parece que leu o meu pensamento e resolveu corrigi-lo:
— Dona Amália é uma velhinha que mora no mesmo conjunto que eu. Não regula muito bem. Botou na cabeça de me casar com o irmão dela e vive telefonando pra armar um encontro entre nós dois.
— E como é esse irmão dela? — perguntei. — Rico e bonito?
— Eu acho até que ele é um rapaz alegre, — disse Dona Mônica.
— Veado? — exclamei.
Ela acenou afirmativa com a cabeça. Depois disse:
— Que tonta que eu sou! O Sr. Eylau está sozinho esse tempo todo. O sujeito que devia vir às quatro não veio. Vou perguntar se ele quer receber você antes da hora.
Algo me disse que, por alguma razão misteriosa lá dela, Dona Mônica queria livrar-se de mim. Foi até à porta da sala do Sr. Eylau, bateu e entrou. Entrou pela metade: de onde eu estava podia ver-lhe o belíssimo perfil da bunda. Logo voltou inteira e fabulosa.
— Pode entrar, — disse.
Porfírio Eylau manda, eu que sou eu obedeço. Entrei. Algumas pilhas de pacotes de Regina, meu amor tinham chegado na enxurrada até seu gabinete, reduzindo-lhe as dimensões originais. Lá estava o velho agente sentado miúdo do outro lado da mesa; sua mesa e seu cabeção conservavam, no território abreviado, a enormidade de sempre. O Sr. Eylau usava o mesmo terno e o mesmo luto das outras vezes em que o vira. Desta vez, diante da tragédia que se abatera sobre a agência no caso Zefa-Rezefa, o luto até que fazia algum sentido.
Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Naquela tarde — Não. Comecemos pela Prof. Álvara Fragosa. Dois quase exatos anos atrás, a professora Álvara Maria Fragosa [ 1 ] defende...
Dois graus a leste, três graus a oeste - Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos - VI. De adenóides e amígdalas
Naquela tarde —
Não. Comecemos pela Prof. Álvara Fragosa. Dois quase exatos anos atrás, a professora Álvara Maria Fragosa[ 1 ] defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, diante de uma banca de medalhões da Crítica Literária Nacional. A tese ostentava o título de A fantasmalização do morto em espectro e o silêncio intervalar, diferido no espacitempo, informado como sintaxe dos indecidíveis derridianos por meio de marcas iterativas no âmbito de um glossário intertextual, com base em obras de Luciano de Samósata, William Shakespeare, Machado de Assis e William Burroughs e, título por título, um título como esse, por si só, já deveria ser suficiente para dar a alguém o título de doutor. Ao final da séance (que durou quatro horas) a professora se viu aplaudida de pé pelos quatro medalhões que compunham a banca e pelos cinco gatos pingados que compunham a platéia, aplauso que a levou a tão vulcânica erupção de soluços e lágrimas que deu origem a nova catadupa de palmas e pôs em moção um círculo vicioso: quanto mais chorava ela, tanto mais aplaudiam os circunstantes, de modo que já não saberia dizer quem porventura entrasse naquele momento se o aplauso se destinava à brilhante defesa de tese ou ao sísmico epílogo de lágrimas. Seja como for, esse, segundo confessou depois a já então doutora Dra. Álvara a uma amiga aqui em Vitória, foi o melhor e o mais feliz choro de toda a sua vida.[ 2 ]
Aprovada summa cum laude, a Dra. Álvara Fragosa zarpou a bordo do seu próprio Entusiasmo rumo à publicação da obra. A tanto, apesar de sua congênita modéstia, foi convencida pelos quatro cavaleiros da néo-nova crítica no jantar que a eles ofereceu após a defesa.[ 3 ] Pois a súmula da conversa desse jantar foi esta e só esta: que empreendimento intelectual de tamanha envergadura como A fantasmalização tinha de ser devidamente divulgado entre todos os estudiosos de crítica literária do país.
Isso fora dois anos antes. De volta a Vitória, fiel à confiança nela depositada pelos olímpicos medalhões, a Dra. Álvara enviou cópias da tese (quatrocentas páginas em entrelinha dupla) a dezesseis editoras, inclusive à da USP, e a treze medalhões que a pudessem apadrinhar com uma só palavra ao pé de um ouvido editorial ou até mesmo com o laurel de um bem aplicado prefácio. Nessa brincadeira gastou uma pequena fortuna, seja pra produzir as vinte e nove cópias xerográficas (a R$ 0,06 a página, preço especial pra documentos acima de cinqüenta páginas), seja pra remeter os vinte e nove pacotes via Sedex (a R$ 19,80 o pacote), mas pouquíssimo ou nada conseguiu de concreto além de três ou quatro mensagens eletrônicas acusando recebimento do material e prometendo leitura em breve. Numa das mensagens, assinada por um velho medalhão de Santa Catarina, o nome da professora doutora aparecia como Alvará Fragosa.
A Dra. Álvara, porém, não se permitiu esquecer o seu sonho. Ou melhor, seus bons colegas, que torciam todos contra ela, isto é, a favor de seu fracasso, é que não permitiram que esquecesse, cobrando-lhe notícias e relatórios do andamento da edição no momento do cafezinho de cada dia na sala nossa dos professores. Decidiu, portanto, dar uma banana (a expressão é minha e não dela) aos dezesseis insensíveis editores e aos treze relutantes padrinhos e custear ela mesma uma edição caprichada em Vitória, certa de que, uma vez impressa a obra, viriam — não pra ela, que era doce e humilde, mas pra tese dela, que não era nem uma coisa nem outra — a glória e o desagravo. Uma grande editora, sonhava, poderá mesmo interessar-se em fabricar uma segunda edição, e nesses momentos de sonho franzia o cenho e prometia-se que a nenhuma das dezesseis casas a cuja porta batera em vão a nenhuma delas daria o gostinho de publicar sua obra-prima.
Assim foi que a Dra. Álvara caiu nas mãos melhores impossível de Djalma Smee, da Bico de Lacre Editores. Ele a impressionou à primeira vista pela figura forte e varonil, pelo perfume de loção após barba, pelo terno de microfibra, pela voz de barítono (que, junto com sua figura, a fez lembrar do ator Howard Keel), pela beijoca que depositou nas costas da mão dela, pelas palavras de confiança e serenidade, pelas baforadas de charuto (que pediu licença pra acender) e por um esporro homérico que despejou, via telefone, sobre um sujeito que tratou por Perereca,[ 4 ] e que, pela conversa, nada tinha a ver com nada de bibliográfico mas sim com mecânica de automóveis. Impressionou-a, portanto, por tanta coisa que ela relevou (coisa difícil numa professora da área de Letras) os barbarismos cariocas que pontuam o discurso dele.[ 5 ]
A Dra. Álvara saiu da Bico de Lacre com Djalma Smee na cabeça e no coração, e com cheiro de tabaco no cabelo. Estava segura de ter confiado seu tesouro intelectual ao editor mais que certo, e ainda levava de lambujem, pra casa e pra cama, a fantasia de um possível, nunca se sabe, relacionamento amoroso com um homem que era, na cara e na voz, o próprio sósia de Howard Keel. Ressalve-se que esse meigo xodó pelo ator não significa que ela tivesse idade pra ter visto os filmes dele no cinema, pois nessa época (primeira metade dos anos cinqüenta) nem tinha sequer pensado em nascer. Vira-os, mas sim, em vídeo, retirados da seção de clássicos da locadora, porque uma de suas muitas paixões eram os românticos musicais da Metro (outra eram alcachofras empanadas). E, com a cabeça cheia de Djalma Smee como estava, na volta pra casa passou na sua locadora, a Videologia, ali mesmo em Santa Lúcia, o seu bairro, e, meio excitada, meio constrangida, locou uma cópia de Ardida como pimenta.[ 6 ]
A história da Dra. Álvara Fragosa, com alcachofras e tudo, já vai extensa demais. Cumpre dizer apenas que tal era a confiança dela em seu editor adquirido que, apesar do bruto susto telefônico que levou no dia seguinte ao inteirar-se do orçamento pra publicação de seu livro com o selo do passarinho de bico vermelho, logo se recuperou e, com voz firme, como se estivesse casando com aquele orçamento, disse a Djalma Smee que sim.
A Dra. Álvara não era rica; quarenta e cinco anos, divorciada (ainda que sem filhos), sujeita a pagar uma pensão alimentícia ao marido (que, no mercado informal, ganhava mais que ela), vivia do emprego que tinha na Ufes, e a publicação do livro lhe custaria o equivalente a cinco meses de salário. Aceitou o assalto, como tudo na vida, em confiança, fez um empréstimo na Caixa Econômica e, na cerimônia de assinatura do Contrato de Edição, pagou um gorducho sinal. Feito isso, aceitou um cappuccino e esperou engatar uma conversa mole com o seu editor, que lhe permitisse, inclusive, chegar aonde queria: a Howard Keel. O editor, porém, espiando a hora certa em seu relógio, lamentou sinceramente que uma audiência com a secretária de cultura lhe abreviasse o tempo disponível aquela manhã. Saiu a Dra. Álvara mais pobre e menos satisfeita e chamou Djalma Smee a secretária (não a de cultura, mas a dele próprio, que respondia pelo nome de Magnólia) e mandou incluir o nome da professora no índex das pessoas pra quem estaria, a partir de então, ou em viagem de negócios a Gotthaab, na Groenlândia, ou em reunião com a secretária de cultura do município, do estado, ou da universidade: nessa ordem. Djalma Smee tinha verdadeira fixação em secretárias de cultura, na doce ilusão de que seus seios fossem bojudas cornucópias de verbas e recursos e na perene esperança de muito mamar em cada um da meia dúzia deles.[ 7 ]
Não se pense, no entanto, que a medida de Djalma Smee de indexar a Dra. Álvara na sua lista negra telefônica significasse que pretendia rolar a edição do livro até o fim dos tempos. Se tomou essa medida foi só porque sentira na Dra. Álvara uma certa predisposição a se tornar uma chata do tipo "Como é que vai o nosso livro?" — no que estava muito enganado, porque o que ela só queria era conversar com ele sobre Howard Keel e, quem sabe, convidá-lo pra verem juntos Ardida como pimenta. Mas a Bico de Lacre não enrola os seus autores, pois não interessa a Djalma Smee garfar apenas o gorducho sinal mas toda a grana do obeso orçamento. Tanto assim que no mesmo dia passou os originais da famosa tese — que, na Bico de Lacre, ficou conhecida pelo codinome de "livro dos fantasmas" —, às mãos da secretária que, por sua vez, os passou às mãos do revisor oficial da casa editora, isto é, às mãos de mim.
Nem seria necessário, a rigor, uma revisão do texto impecável da professora, mas a casa editora não abria mão dessa rubrica de despesa, até porque 60% do valor cobrado sugava-os o bolso voraz de Djalma Smee. De qualquer modo, dei conta do meu trabalho: li a tese da professora e fiz alguns pequenos reparos — do tipo trocar aspas duplas por aspas simples em citações no interior de citações e corrigir uma que outra falha de digitação — sem, no entanto, entender muito bem o que estava acontecendo ali naquele texto. Sim, o texto não fez sentido nenhum pra mim, fato que atribuí ao elevado grau de inteligência crítica e teórica da professora, já que não podia contrapor o meu pobre e rasteiro estranhamento ao erudito aplauso dos quatro medalhões da banca nem ao diploma de doutorado conferido por uma universidade como a USP. Assim, li o cipoal acadêmico munido de reverência e respeito e até quase bati palmas pra frases como esta: "O múltiplo é a manifestação inseparável, a metamorfose essencial, o sintoma constante do único. O múltiplo é a afirmação do um, o devir, a afirmação do ser. A afirmação do devir é, ela própria, o um; a afirmação múltipla é a maneira pela qual o um se afirma." E como esta: "Tornar a vir é o ser do que devém. Tornar a vir é o ser do próprio devir, o ser que se afirma no devir. O eterno retorno como lei do devir, como justiça e como ser." Pérolas da néo-nova crítica literária.
Naquela tarde (agora sim e finalmente) fui à Bico de Lacre devolver o texto da professora devidamente revisto e incompreendido. A Bico de Lacre, como se sabe, é o braço editorial da Desentupidora e Higienizadora Clean, e divide com esta, irmãmente, as suas dependências administrativas. Djalma Smee atende, na mesma mesa, aqueles clientes interessados em limpar fossas e esgotos e também aqueles fissurados por colocar no mundo obras intelectuais que sem elas (na opinião exclusiva de seus autores[ 8 ] ) o mundo estaria irremediavelmente empobrecido. Lembrando-me de algumas[ 9 ] dessas obras, todas revistas por mim, vejo que, ao contrário do que pode parecer, não é tão descabida assim a associação entre desentupidora e editora: a diferença está em que a desentupidora trata merda como merda e a editora trata merda como literatura. Já administrativamente o que as distingue é que, ao atender os clientes literários, Djalma Smee maloca a plaqueta em que seu nome aparece como diretor gerente e a substitui por outra com os dizeres gerente editorial.
Mas andiamo, como dizem os etruscos. O endereço de ambas e uma só firma é ali no bairro do Horto, ao pé de um morro, não muito longe mas também não muito perto da horta de gráficas que se situa em Gurigica. A rua é tranqüila (até mesmo os cadáveres que de vez em quando rolam lá de cima do morro são discretos e silenciosos) e (coisa rara em Vitória, cidade sedenta de sol) arborizada. Toquei a campainha, troquei algumas palavras com uma voz emparedada e, como por milagre, a porta abriu-se com um estalo de chibata, acionada por um dedo de longo alcance. Galgando os alguns muitos degraus a pique, corri a mão pelo corrimão de madeira, e não demorou muito cheguei ao patamar administrativo da empresa. Dona Magnólia veio receber-me com um sorriso estranho, estranho porque sorriso. Quando foi que vi essa megera sorrir antes pra mim? Vejam: vai tratar-me até de danadinho:
— Você caiu do céu, seu danadinho. Já liguei não sei quantas vezes pra sua casa. Dr. Djalma está louco pra falar com você.
Djalma Smee não é doutor a não ser pras negas dele, já que não defendeu nenhuma tese de teoria literária, ou do que seja, como fez, galhardamente, a Dra. Álvara Fragosa. Doutor ou não, vi-o ver-me através do vidro do aquário que lhe serve de gabinete e vi-o pespegar na perna uma palmada de contentamento, após o quê chamou-me com largos acenos de mão e charuto. Entrei no aquário. Djalma apertou-me a mão. Mandou-me sentar.
— Como é que tu adivinhou[ 10 ] que eu estava querendo falar contigo? Magnólia está ligando direto pra tua casa desde meio-dia.
— Meio-dia eu saí pra almoçar e não voltei em casa, — eu disse.
— Tu precisa é de um celular, — aconselhou ele, — pra ficar acessível quando a gente precisa de ti. Vou te dar um de presente de Natal.
— No momento o que eu quero, — disse eu, — são os meus honorários de revisor. E depositei sobre a mesa o calhamaço em que se encarnava a tese da Dra. Álvara Fragosa.
— Já? — assombrou-se Djalma. — Tu é fera, hein, cara?[ 11 ] E que que tu achou? Diz pra mim.
— É do cacete, — disse eu pra ele, — só que não entendi porra nenhuma.
— É exatamente isso que eu quero pra Bico de Lacre, — exultou ele: — o texto indevassável. E está cheio de penduricalhos, não está?
— Penduricalhos? — estranhei.
— Notas de rodapé, — traduziu ele, soltando uma baforada de fumaça.
— Às pencas, — disse eu.
— Jóia, — disse ele. — São textos assim que impõem respeito à comunidade acadêmico-científica.
— E quanto a isto, Djalma? — perguntei, coçando o polegar com o indicador.
Nesse ponto — em pagar o que deve, pelo menos a mim — tenho de reconhecer que Djalma nunca nega fogo, e não negou desta vez:
— Vou falar com Magnólia pra fazer teu cheque, — disse ele, com o charuto plantado em riste entre os dentes. Falai no mal, preparai o pau. A secretária bateu à porta e meteu dentro do aquário meio palmo de cara.
— O pessoal chegaram, — disse ela, empregando com muita propriedade uma concordância ideológica.
— Manda entrar, — disse Djalma, e levantou-se pra receber os visitantes.
— Quer que eu saia? — perguntei, humilde, levantando-me também.
— Não, não, — disse ele. — Tu é a pessoa que eu quero comigo nesta reunião.
Entraram no gabinete três homens e uma mulher, que Djalma recebeu com uma overdose de cordialidade. A mulher era jovem e estava visivelmente ou grávida ou ascítica, ou seja, ou esperando neném ou com barriga d'água.[ 12 ] Dos três homens, o primeiro era velho, franzino e anguloso, e bem podia ser o pai da moça. O segundo era grande, sisudo e faraônico, e bem podia ser o seu irmão. O terceiro, pra minha surpresa, era Fernando Achiamé, um dos sócios eméritos do Clube das Terças-feiras: era o único que trazia chapéu na mão,[ 13 ] e a ele bem podia a moça ter dado a mão ou algo mais: e, sendo ou não sendo ele o pai da criança, aproveitemos pra concluir que ela não estava ascítica mas grávida.
Ao apresentar-me aos recém-chegados, Djalma fez questão de carregar nas tintas. Longe de ser pouca porcaria, eu era, pra todos os efeitos, chefe da equipe de revisão da editora, formado em Letras, poeta com livro publicado, pesquisador de naufrágios de navios,[ 14 ] e premiado em vários concursos promovidos por instituições culturais de todo o Brasil. Os quatro nomearam, um a um, os seus nomes, e Djalma repetiu-os, um a um, pra mim como se lhe coubesse a responsabilidade de homologá-los, e depois apresentou os visitantes em conjunto como membros do conselho editorial da Academia Pansófica do Espírito Santo.
— Instituto Pansófico, — corrigiu Fernando.
— Sinto-me honrado, — disse Djalma, ignorando a correção e, por conseguinte, o erro, — com a vossa presença em minha toca.
Dito o quê, dirigiu-se vocífero à secretária que, empedrada à porta, esperava ordens:
— Liga pra Miguel Desidério. Diz que só está faltando ele. E manda trazer café e água.
Há no aquário de Djalma Smee uma mesa de reunião com meia dúzia de distintas cadeiras, distintas tanto porque todas têm aparência respeitável como porque nenhuma delas tem qualquer parentesco com nenhuma outra.[ 15 ] O editor da Bico de Lacre abriu sobre as asas de nós cinco os vastos tentáculos e conduziu-nos até à mesa. Ali cada qual sentou na cadeira que lhe coube; a uma e outra cabeceira sentaram-se Djalma e o irmão da moça. Djalma abriu então um largo sorriso editorial nos lábios e disse:
— Que calor que está fazendo lá fora, hein? Diz pra mim. Se importam de esperar um pouquinho? Desidério já foi chamado. Trabalha aqui perto. Não demora. Não conheço quem faça melhores projetos gráficos que ele em Vitória. Em Vitória? No sudeste inteiro, e quem fala do melhor do sudeste fala do melhor do país. Não é não? Diz pra mim.
— Vai demorar muito? — perguntou Fernando.
— Nada, — respondeu Djalma. — Cinco, dez minutos. Enquanto isso, vamos tomar um café.
— O senhor poderia apagar o charuto? — disse a Djalma o irmão da moça. — Peço este obséquio em atenção ao estado interessante de Terezinha.
— Mil perdões, — disse Djalma, enterrando o charuto editorial na tumba de um cinzeiro.
Chegou a servente das empresas geminadas trazendo café e água. Era uma senhora franzina de seus mais pra sessenta que pra cinqüenta anos, de cara amarrada, que bem podia ser esposa do sócio velhinho e, por conseguinte, mãe da moça grávida. Djalma achou de bom tom mostrar-se democrático:
— Dona Leonarda está conosco há quantos anos, Dona Leonarda? Quinze? Diz pra mim.
— Fora os sem carteira, — disse Dona Leonarda.
— Ah! Que senso de humor! — exclamou Djalma. — E ainda faz o melhor café forte de Vitória. Tem gente de alto quilate que vem aqui, eu penso que é por minha causa, que nada, é pra tomar o café desta moça.
— A senhora é daonde? — perguntou Fernando Achiamé.
— Sou de Colatina, — respondeu Dona Leonarda.
— Eu também! — exclamou ele, deslumbrado ante o feliz acaso. — Então a senhora é minha conterrânea!
— Eu não, credo! — disse ela. — Nem conheço o senhor. Olha essas liberdades comigo, moço. Sou pobre mas sou honesta.
— Que senso de humor! — riu-se Djalma. — Que faria eu sem essa mulher? Diz pra mim.
Dona Leonarda caiu fora sem ter pronunciado um só sorriso. Calamo-nos pra beber a água e depois pra adoçar o café. Colherinhas de plástico fizeram um vôo rasante do açucareiro às xícaras, enquanto a moça grávida pingava no seu café algumas gotas de adoçante. O meu fiz questão de, prevenido, açucarar bem açucarado, que já conheço o café forte de Dona Leonarda. Djalma tomou o dele puro e preto, num só gole, e levantou-se.
— Vão me desculpar um minuto. Aproveitem pra pôr meu chefe de revisão a par do problema que aflige a nobre Academia.
Aí fugiu pra sua mesa e pediu uma ligação, que aguardou com um charuto fresco metido — apagado — no canto da boca. Cá entre nós, Fernando tomou a palavra. Disse que estavam ali, ele e os outros, pra entregar à Bico de Lacre a edição da Sursum Prorsum, a revista do Instituto Pansófico.
Aproveitei a ausência de Djalma pra perguntar, baixinho, o que significava a palavra "pansófico".
— Pansófico, — explanou Fernando, — é o adjetivo que corresponde a pansofia, palavra grega que significa ciência universal. E Sursum Prorsum, o nome da nossa revista, significa, em latim, para cima e para diante. É, modéstia à parte, o periódico mais antigo do Estado em circulação. O primeiro número saiu em 1912, com colaborações de Rui Barbosa, Austragésilo de Ataíde, Pessanha Póvoa, Dom Fernando Monteiro, meu xará, e muitos mais.
— É mais antiga que a Revista do Instituto Histórico, — disse o irmão da moça.
— É mais antiga que a Vida Capichaba, — repetiu o sócio velhinho, levantando um dedo idoso e caloso.
— A Vida Capichaba não conta, — resmungou o irmão da moça: — parou de circular há mais de trinta anos.
— Ah é? — disse o sócio velhinho. — Bem que eu não tenho visto nas bancas.
— É mais antiga que A Gazeta, — disse Fernando, — que circula desde 1928.
— É verdade que A Gazeta é um jornal diário, — disse a moça, — e a Sursum teve ano que não saiu nenhuma edição dela, mas, ressalvando isso, não se pode negar que tem mais tempo de longevidade.
— Ultimamente temos publicado sem falha um número por ano, — disse Fernando. — O problema é que a qualidade gráfica e editorial sempre deixou muito a desejar, e o último número foi uma verdadeira calamidade. Por isso o atual conselho, do qual tenho a honra de fazer parte, resolveu dar uma guinada de trezentos e sessenta graus[ 16 ] e reformular a revista como um todo, sobretudo nos itens grafismo e revisão.
— Deu tudo errado na revisão do último número, — suspirou a moça.
— Grum, — resmungou o irmão dela.
— Só no meu artigo, — disse a irmã dele, — contei oitenta e sete erros diversos, principalmente de ortografia. Os acentos fugiram todos das palavras certas e foram parar nas palavras erradas. Por exemplo: todos os verbos no passado receberam chapeuzinho: estâmos, recebêmos, colocâmos. Ao enunciar cada palavra a moça fazia no ar, com o dedinho, o sinal de circunflexo.
— Quem foi o responsável pela revisão? — perguntei, com curiosidade meramente profissional. E estava tranqüilo: eu que não fora.
Minha pergunta fez pipocar na mesa um silêncio pesado.
— Que que ele perguntou? — perguntou o sócio velhinho.
— Ele perguntou, — disse o irmão da moça, — quem foi o responsável pela revisão desse número da revista.
— Ah! — exclamou o velhinho. — E não foi você, Epitácio? Me disseram que foi você.
— E fui eu, sim, — disse Epitácio. — E quero ver quem tem coragem de dizer que não cumpri diligentemente minha tarefa. Passei oito dias lendo as provas da revista e anotando as correções à margem. E afirmo que havia correções a dar com o pau. Fiz o que me competia e entreguei as provas ao nosso presidente. O que aconteceu depois não é de minha responsabilidade.
— E o que foi que aconteceu? — perguntei.
— Pelo que sei, — disse Fernando, — o empregado da gráfica teve dificuldade pra decifrar as correções que tinha de fazer, porque a letra de Epitácio são uns garranchos ilegíveis.
— Isso é desculpa dele, — disse Epitácio. — O sujeito é um preguiçoso safado. Eu falei isso pra ele. Abri a esmo as provas da Sursum no nariz dele e mostrei uma das minhas correções. Olha o que eu escrevi aqui: Almanaque do Tico-tico. Você corrigiu? Não. Do jeito que estava, ficou.
— E como é que estava? — perguntei.
— Almanaque do Reco-reco, — disse Epitácio. — A autora do texto confundiu Tico-tico com Reco-reco porque a revista tinha um trio de personagens que se chamavam Reco-reco, Bolão e Azeitona. Mas eu consertei. Consertei e não adiantou nada. Tá lá: Almanaque do Reco-reco. E o sujeito teve o desplante de dizer na minha cara que eu tinha corrigido Reco-reco pra Reco-reco, quando estava lá, claramente, Tico-tico.
— Logo você, Epitácio, — disse Fernando, — que até escreveu uma crônica sobre o Almanaque do Tico-tico, aliás belíssima.
— Pois então, — disse Epitácio.
— Então a revista saiu cheia de erros, — disse eu.
— Cheíssima, — disse Fernando. — A única coisa que saiu correta foram uns poemas em polonês que Mieczyslaw levou pra revista e ninguém teve coragem de recusar.[ 17 ]
— Esses eu nem olhei, — disse Epitácio. — Não sei polonês... O raio foi que um dia aí me telefonou um gaiato perguntando quanto é que eu cobrava pra fazer a revisão de um livro em polonês. Quando entendi que era uma gozação e já ia mandar o sujeito praquele lugar, ele desligou.
— Deve ter sido alguém do próprio Instituto, — disse Fernando, com um sorriso tão deliciado que logo desconfiei ter sido ele mesmo o autor do trote.
— A revista do Instituto Pansófico também publica poesia? — estranhei.
— Sim, nós temos uma seção chamada "A poesia é necessária," — disse o pai da moça.
— Isso também vamos mudar, — replicou Fernando. — A poesia não será mais necessária, pelo menos na nossa revista. Não tenho nada contra a poesia, também eu cometo meus versos,[ 18 ] se quiser posso até recitar alguns aqui, mas o Instituto não pode descarrilar de sua linha pansófica. Teve um número aí que tinha mais literatura que ciência. E, cá pra nós, uma literatura muito da chinfrim ainda por cima. O Instituto estava perdendo a credibilidade. Mas não importa. Daqui pra frente tudo vai ser diferente.
— Você tem que aprender a ser gente, — cantou uma voz. Era Miguel Desidério que vinha entrando aquário adentro. — O seu orgulho não vale nada, nada!
— Oi, Miguel, — disse Fernando, com um sorriso. É amigo de Miguel? Quem diria.
— Ei, Miguel, — disse eu, não querendo deixar por menos: também eu sou amigo do bruto.
Miguel chegava do jeito desleixado como gosta de andar, com blusa de malha, bermuda jeans e sandálias de borracha, e uma sacola de supermercado cheia de tudo que precisa pra enfrentar o dia, inclusive alguns exemplares de seu mais recente livro de poemas,[ 19 ] que costuma distribuir como isca a toda e qualquer criatura do sexo feminino que encontre pelo caminho. À vontade em qualquer espaço, Miguel veio sentar-se à cabeceira da mesa, no lugar deixado vago por Djalma: muito justo: quem foi ao convento perdeu o assento.[ 20 ] Foi então logo se apresentando à moça, sentadinha à sua esquerda, e apertou-lhe a mão. Depois apertou também a mão da família toda: do pai e do irmão e daquele a quem a moça deu a mão.[ 21 ]
Djalma Smee voltou do convento pra mesa trazendo nas mãos uma sétima cadeira, e abriu espaço pra ela e pra si ao lado de Miguel: preferia dividir com outro o império da cabeceira a perdê-lo. A seguir pigarreou. Bem, agora estamos todos aqui, disse ele, expressando o necessário óbvio. Aí começou, oficialmente, a reunião pra redenção editorial da revista do Instituto Pansófico do Espírito Santo.
Uma hora depois estava terminada a reunião. Nenhum dos quatro representantes do conselho editorial do Instituto resistiu à avalanche de esmeradas publicações que se derramou sobre a mesa, todas elas com projeto gráfico creditado ao fino gosto de Miguel Desidério e a inequívoca marca de qualidade editorial representada pelo passarinho de bico vermelho. Não havia ali, é verdade, nenhum texto que fizesse justiça à capa primorosa, ao caprichoso projeto gráfico ou ao sublime logotipo ornitológico: nem o robusto Valor reconhecido, que continha nada mais nada menos que o curriculum vitae do professor Nicanor Dias dos Santos, Ph. D.,[ 22 ] nem tampouco o livro de poemas Rebentos da minha alma, do desembargador Átila, o Huno, de Oliveira, nem mesmo a profunda filosofia religiosa de Jesusismo, de um iluminado garçom que vendeu a casa pra pagar a edição. Mas todos esses volumes contribuíram pro resultado final da reunião: a Bico de Lacre assumiu formalmente o controle editorial da Sursum Prorsum, com Desidério responsável pelo projeto gráfico e editoração e este narrador, pela revisão dos textos.
— À exceção, — frisei, cedendo à tentação do gracejo, — de poemas em polonês.
— Desses Epitácio cuida, — acrescentou Fernando.
— Seu filho da mãe, — disse Epitácio, mas rindo.
A reunião levantou-se pras despedidas. Desidério encostou num canto a moça grávida e passou-lhe, num gesto de mágica, um exemplar de seu Cupim. Certamente havia inserido ali uma daquelas suas famigeradas dedicatórias, feitas de caso pensado pra seduzir ainda que até mesmo a mais inflexível das madres superioras de convento de carmelitas descalças.
— Telefona pra mim e diz o que achou, — disse ele, com jeito modesto, como se sua auto-estima de poeta dependesse do veredicto daquela leitora em especial.
Saíram do aquário os sócios pansóficos do Instituto. Ficamos Desidério e eu, que Djalma queria dar-nos ainda uma palavrinha.
— Capricho, hein, capricho! — disse ele. — Essa revista vai nos dar prestígio no meio acadêmico-científico de Vitória. Tudo bem publicar umas merdas como essa — e deu um chega-pra-lá no exemplar do Valor reconhecido, do professor Nicanor Dias dos Santos, Ph. D., —, que ninguém é de ferro, mas o que dá prestígio é publicação científica. Não é não? Diz pra mim. E além disso o dinheiro entra da mesma maneira.
E como. O orçamento apresentado por Djalma Smee era estratosférico. Só o projeto gráfico e editoração de Miguel Desidério ficava a preço de artista plástico consagrado. A minha revisãozinha besta também não ficava muito atrás, uma vez que, como propagara o editor, seriam feitas três revisões de provas e uma revisão de vegetais, e por mais de um revisor, porque, explicou, há que haver um rodízio de revisores porque revisor cansa do texto e texto cansa do revisor. Fez questão de assinalar que não há livro, nem mesmo da Bico de Lacre, sem erro de revisão, porque perfeito só Deus, mas garantiu que a sua equipe de revisores daria um tratamento de primeira aos textos da revista, e nisso empenharia sua barba, se a tivesse.
— Qualidade gráfica e conteúdo intelectual, — disse Djalma. — Com a revista dos pansóficos e a tese da Dra. Álvara inaugura-se uma nova fase pra Bico de Lacre. Não me vão cagar no pau, hein? Diz pra mim.
E despediu-nos. Fiz uma escala na Dona Magnólia pra embolsar meu cheque. Depois descemos, nós da equipe técnica da revista do Instituto, até sermos postos na rua tranqüila e arborizada ali do Horto.
— Vamos naquele bar que eu quero comer alguma coisa, — disse Desidério.
Havia um boteco na esquina de uma ladeira que sobe morro acima. Havia alguns salgados tristonhos na vitrine do balcão. Era preciso coragem pra encarar qualquer um deles. Desidério tinha toda a coragem necessária. Pediu uma coxinha.
— Quer uma? — perguntou.
— Não, obrigado, — respondi.
Desidério pediu também uma guaraná. Sentamo-nos a uma mesa esquálida — filha única de mãe solteira — na calçada. Ele deu uma mordida na coxinha e retirou de dentro da sacola de supermercado um desses pequenos álbuns de fotografias que as reveladoras dão de brinde aos clientes.
— Olha só, — disse ele. Olhei mas não só: olhei e perscrutei cada foto. Era o ensaio fotográfico de uma moçoila morena que, nuazinha em pêlo, mostrava, em corpo esguio, um sorriso carnudo e uma carnuda xota como raramente vi outros tão que tais.
— Onde você descobriu essa figura?
— Gostou? — Desidério lambeu dos beiços alguns átomos de frango.
— Se gostei? — exclamei. — Miguel, aposto que nunca vi lábios tão sensuais assim antes.
— Nome dela é Hipoteneuza, — disse Desidério, — mas gosta que chamem de Neuza. Achei na rua. Você não imagina as jóias que estão aí dando sopa na sarjeta.
Desidério tem dessas coisas. Descobre no olho das ruas modelos fotográficos em bruto, leva pra um motel, dá-lhes um bom banho, ensina-lhes algumas poses eróticas,[ 23 ] fotografa e depois come. Reveladas as fotos, carrega pra cima e pra baixo na sacola de supermercado pra mostrar aos amigos.
— Tá precisando de emprego, — disse ele. — Tem emprego pra ela não?
— Essa moça já nasceu com emprego, — disse eu. — Nasceu pra dar. Que que ela está esperando? E que que você está esperando pra ser o proxeneta, quer dizer, o empresário dela? O book já está aí pronto.
— Tô falando sério, — disse ele. — Ela tem uma filha.
— Tenho emprego não, — disse eu. — Por que não pediu a Barrica?
— Barrica não, — disse ele. — Não confio.
— Então pede ao pessoal do Instituto Pansófico, — disse eu.
Ele sorriu.
— Gostei daquela Terezinha, — disse. — Existem duas coisas numa mulher que me deixam de água na boca, e uma delas é gravidez.
— Você é um pervertido, — disse eu. — E qual é a outra?
— Aparelho nos dentes, — disse ele.
— Você é um tarado, — disse eu.
Desidério deu mais uma dentada na coxinha e tomou mais um gole de guaraná.[ 24 ]
— Quanto à tal da Terezinha, — eu disse, — não está só grávida, está casada. Não viu a aliança na mão dela não?
— Também adoro mulher casada, — disse ele. — Estou até comendo uma. Se eu te disser quem é, você vai levar um susto. É mulher de amigo.
A última frase foi sussurrada com todos os requintes de confidência ao meu ouvido.
— Então não me diz, — disse eu. — Não quero saber. Nesse ponto sou absolutamente leal. Mulher de amigo pra mim é homem, como se diz. Já fui cantado por mulher de amigo, e mulher gostosa ainda por cima, e declinei a cantada com absoluta convicção, embora tenha tomado um puta esporro do meu pau depois.[ 25 ]
— Comi essa mulher na semana passada pela primeira vez, — disse ele. — Uma belezura. Deixa eu te dizer quem é.
— Não quero saber, — repeti.
— Só as iniciais, — insistiu ele.
— Não, — disse eu.
— Então lê o poema que eu fiz pra ela, — disse ele.
Tirou uma pasta de dentro da sacola e, de dentro da pasta, uma folha de papel.[ 26 ] Eis o poema que jazia ali:
Não é pra menos, eu que o diga, amada:
também pudera, e olhe lá, agora
em ponto, tão bonita que, além
do mais, sem mais tardar, vamos, venhamos.
Há quanto tempo é como queiras. Psiu.
Antes, porém, depois. Se for o caso,
deixo de nove às vinte e quatro horas,
e pelo sim se for o que dirás?
Há que, tal qual, favor não soletrar,
porque não há por quê, nem há de quê,
e o poema se faz sem ter em vista
senão coisa com coisa. E tanto faz
assim como como como assim,
dou-lhe uma e dou-lhe duas e fim.
— Que que você achou? — perguntou ele.
Respondi no chofre:
— Achei indecidivelmente conceitual e metafórico, organizador e desestruturante, filosófico e poético.
Ele releu o poema, por sua vez, enquanto mastigava a derradeira lasca de coxinha. Depois concordou:
— Acho que você tem razão. De qualquer forma, nossa amiga, a mulher de nosso amigo, ficou extasiada quando leu. Agora lê isso aqui.
E me impingiu outra folha de papel com outro poema nela. Eis o que li:
Todo cuidado é pouco, Jacqueline,
agora que te vi, agora que assisti
você sorrir, que admirado admirei
a sombra do teu corpo esguio e belo,
e passei necessidade de tocar
as tuas mãos, e os lábios, e os cabelos,
todo cuidado é pouco, porque basta
um só deslize, um triz, uma fagulha,
e apaixonado estarei até o pescoço
por você. E aí? Que terrível destino
me espera, prisioneiro em tuas mãos?
Melhor me prevenir enquanto é cedo:
fica o poema contigo de refém
e eu fico livre de ti e passo bem.
— E aí? Que que achou? — perguntou o poeta.
Respondi com a maior sinceridade:
— Achei um tanto constativo e performativo, mas a textualidade podia ser mais velada, mais heterotanatobiográfica. Porque, você sabe, não há indecidibilidade nem deslocamento do texto metafísico sem a incorporação de uma película mortífera ao tecido textual.
— É? — disse Desidério, meio decepcionado. — Mas essa é uma primeira versão. Vou ver se reescrevo o poema de acordo com isso aí que você disse.
— Mas quem é Jacqueline? — perguntei.
— Jacqueline Paganini, — disse Desidério.
— Da tevê? — exclamei, incrédulo.
— A própria, — disse Desidério. — Telefonou me convidando pra ir no programa dela hoje à noite falar de poesia. E acho que ela me dá ponto. Olha o que estou dizendo: seu amigo ainda vai acabar comendo essa musa televisiva.
Jacqueline Paganini é um fenômeno da televisão local. A porra da mulher tem trinta anos, parece que tem vinte, é linda pra cacete, desimpedida, desembaraçada, e tem o dom de sorrir o sorriso mais bonito de Vitória. Todos os homens (e quem sabe algumas mulheres também) que comparecem ao seu programa fatalmente acabam por cantá-la até mesmo diante das câmeras. Não será Miguel Desidério que fará diferente.[ 27 ]
— Não esquece de dar seu livro a ela, — recomendei.
— Já dei, — disse ele. — Já fui no programa dela uma vez. Agora vou atacar de poema personalizado. E mais: pretendo recitar o poema com o programa no ar.
Aí Desidério virou-se pro dono do boteco e disse:
— Quanto é que deu?
— Três contos, — disse o homem.
— Tem três contos aí? — perguntou a mim.
— Não tem dinheiro não? — repliquei.
— Só uma nota de cem, — disse ele. E, pro dono do bar: — O senhor troca cem?
— Cem contos? — disse o homem. — Nem sei o que que é isso.
— Paga aí pra mim, cara, — disse Desidério. — Você tá com muito. Acabou de receber.
Paguei o lanche de Desidério, em respeito ao seu talento como poeta. Despedimo-nos, cada qual ia pra um canto. Lá se foi ele de volta ao estúdio onde trabalha, lá vim eu pra avenida Vitória a fim de pegar um ônibus. Essa decisão estava tomada. Só não sabia se pegava um ônibus pra casa ou pro centro. Sim. Rever um de meus editores deu vontade de rever o outro.[ 28 ] Tive saudades do Sr. Eylau e, sobretudo, de Dona Mônica. Tive saudades da doce Fúlvia, até porque estava trabalhando num poema de amor endereçado a ela (também tenho esse direito). Tive saudades do Edifício Pongal. Saudades tive do centro da cidade às quatro e meia da tarde. Passava nesse exato momento diante de um telefone público, que como os há espalhados pela cidade toda: um exército de caça-níqueis. Tinha um cartão telefônico. Liguei pra Agência Ajax. Atendeu, como esperado, a secretária da agência.
— Dona Mônica, boa tarde, — disse eu, — e diga-me depressa, que meu cartão só tem três unidades, se o Sr. Eylau pode me receber ainda hoje.
— Ele tem um compromisso às quatro, — respondeu ela. — Vou agendar você às cinco. Pode ser?
— Estou indo pra aí, — disse eu.
— Está cedo, — disse ela. — São dez pras quatro.
— Estou com saudades da Agência Ajax, — disse eu, e desliguei.
Peguei um ônibus pra cidade na avenida Vitória. Aproveitei a viagem pra fazer, na cabeça, mais uma estrofe do poema pra doce Fúlvia. Embora seja eu quem o diga e não a Dra. Álvara Fragosa, trata-se de um projeto ambicioso e revolucionário, uma versão altamente original e pós-moderna de poema alfabético, bem distante, é claro, dos poemas abecedários medievais e dos abecês da poesia popular. O elemento alfabético do poema se situa na última sílaba do primeiro verso de cada estrofe, e se caracteriza por um monossílabo em á. Eis a estrofe referente à letra J:
Te quero, Fúlvia, já!
Te quero tanto como
não quero operar as adenóides
nem as amígdalas, mas,
se for preciso pra cheirar melhor o teu cangote,
pra engolir melhor a tua baba de moça,
que venham, cortantes, afiados, mais que já,
as abençoadas pinças e os redentores bisturis.
Saltei na rua Osório. No elevador subi junto com dois rábulas engravatados que, por coincidência, iam também pro quarto andar, ou seja, por coincidência tinham algum processo a tratar com o patrão da doce Fúlvia. Os dois conversavam não como se eu nem estivesse ali mas sim como se, estando ou não estando, tanto fizesse.[ 29 ] Um deles disse ao outro:
— Hoje não tem jeito: vou ter de comer a minha mulher.
— Que que houve? — perguntou o outro.
— É o aniversário da filha da puta, — disse o primeiro.
Saltamos os três no quarto andar. Passei à frente deles e patinei em direção à esquina que, uma vez dobrada, deixava a gente de frente pra porta da Agência Ajax. Bati à porta com os nós dos dedos, trêmulo de saudade. Ah, boa e velha agência Ajax. Ah, bom e velho Porfírio Eylau. Ah, boa e gostosa Dona Mônica.
Feche-se o intercapítulo. O próximo — promessa de narrador — há de abrir-se-á ao abrir-se, pelas mãos de fada de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência Ajax.[ 30 ]
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NOTAS
Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
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