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Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950. Este Livro O projeto deste livro nasceu na Universidade Federal do Espírito Santo, ...


Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950.
Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950.

Este Livro


O projeto deste livro nasceu na Universidade Federal do Espírito Santo, concebido como uma forma de marcar o centenário de nascimento do folclorista Guilherme Santos Neves em 2006. Nasceu no Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, setor que, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Letras (Departamento de Línguas e Letras, Centro de Ciências Humanas e Naturais), venho administrando desde 1995.

Nascendo na Ufes nasceu, creio, no lugar certo: pois, paralelamente à sua intensa atividade como folclorista no meio cultural espírito-santense, Guilherme Santos Neves foi também – e na Ufes – professor de Literatura Portuguesa, tendo feito parte do corpo docente do Departamento de Letras da então Faculdade de Filosofia desde 1951 até se aposentar em 1976. Nasceu, assim, este projeto, no lugar certo e, se não nas mãos do homem certo – porque são as mãos suspeitas de seu filho –, o leitor verá que a obra em si paira acima de qualquer parcialidade filial.

O sempre lembrado Renato Pacheco, discípulo dileto de Guilherme Santos Neves, costumava declarar com total conhecimento de causa que a grande obra de Mestre Guilherme – como o chamava – jazia nas centenas de artigos e estudos que publicara em jornais e revistas do Espírito Santo, Brasil e Portugal. Era aí – e não em livros que suas demais ocupações não lhe possibilitaram organizar – que ele divulgava os resultados de seus estudos e pesquisas sobre o folclore espírito-santense. Sua produção em formato de livro – no que se refere ao folclore – está restrita a apenas cinco títulos, que, embora clássicos como estudos da cultura popular capixaba, não traduzem a amplitude do trabalho que Mestre Guilherme realizou nessa área. São eles os dois livrinhos de Cantigas de roda, de 1948 e 1950;[1] o Cancioneiro capixaba de trovas populares, de 1950, quatro das quais trovas foram musicadas pelo maestro Guerra-Peixe; Alto está e alto mora: Nótulas de folclore, de 1954; História popular do convento da Penha, de 1958 (2a. edição, 1999); e Romanceiro capixaba, de 1983 (2a. edição, 2000), este último por mim organizado a partir dos estudos esparsos que meu pai publicou no campo do romanceiro tradicional. Um sexto livro poderia acrescentar-se a essa lista: Folclore brasileiro: Espírito Santo, publicado pela Funarte em 1978.

Na verdade, uma coletânea de estudos sempre esteve nos planos de Mestre Guilherme, como o demonstram diversas listas de artigos encontradas, em manuscrito ou datiloscrito, entre seus papéis, com diferentes títulos, como História e tradições do Espírito Santo e Índice do folclore capixaba (deste último se valeram Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco para batizar, numa homenagem ao mestre, o panorama do folclore capixaba em verbetes que publicaram, em 1994, com a chancela do Banestes). Não pôde ele próprio, porém, por várias razões que não cabe identificar aqui, organizar aquela que seria sua obra de maior escopo e significado.

Assim, no momento em que se decidiu escolher uma obra para celebrar-lhe o centenário de nascimento, natural e justo que se escolhesse a coletânea sonhada por Mestre Guilherme, incluindo textos selecionados de tudo quanto ele publicou, no varejo, sobre o tema pelo qual tinha particular carinho e devoção: a cultura popular do Espírito Santo.

O projeto foi aprovado na seleção pública, de âmbito nacional, do Programa Cultural da Petrobras, basicamente no formato e no escopo em que está aqui. Das centenas de artigos, chegando ou ultrapassando a casa do milheiro, que Mestre Guilherme publicou em vida, cerca de 80% abordam temas de folclore e cultura popular, inclusive paremiologia. A seleção dos artigos passíveis de inclusão nesta coletânea foi feita mediante a leitura e exame de várias centenas de itens até chegarmos ao número de 240 que consta do projeto submetido à Petrobras e posteriormente à Lei Rouanet. Quando, porém, iniciei o trabalho de organização do livro, a reavaliação do seu conteúdo e a localização de estudos importantes levaram à supressão de alguns dos artigos da relação original e à inclusão de outros, resultando nos 250 itens, mais o texto do Prólogo, que compõem o texto definitivo.

O trabalho de seleção é uma via de mão dupla: inclui-se e exclui-se. Assim, ao mesmo tempo em que várias modalidades de estudos folclóricos foram incluídas sem discussão, outras decidi desde o início deixar fora da obra, em especial a paremiologia, as cantigas de roda e o romanceiro tradicional. Vetei os artigos de paremiologia porque, por seu grande número, viriam congestionar uma obra já por si vasta, e também porque, tendo estreita afinidade com a linguagem, perdiam o toque regional que, no meu entender, constituía a principal premissa do trabalho. As cantigas de roda e o romanceiro foram suprimidos porque praticamente toda a contribuição de Guilherme Santos Neves nesses campos que lhe eram particularmente caros já fora reunida e divulgada nos dois volumes de Cantigas de Roda e no Romanceiro capixaba. Ainda assim, alguns textos paremiológicos – “Por que somos capixabas”, por exemplo – acharam lugar nesta coletânea, assim como alguns estudos avulsos sobre cantigas de roda e o trabalho panorâmico que Mestre Guilherme publicou na Revista Brasileira de Folclore sobre o romanceiro no Brasil – e no Espírito Santo –, não incluído no citado Romanceiro capixaba.

O material selecionado para publicação foi então distribuído pelas onze categorias que compõem a obra, mas algumas vezes após um processo de hesitação e dúvida, pois muitos itens se encaixariam perfeitamente em mais de uma categoria.

Algumas explicações se impõem sobre três dessas categorias.

A categoria Personalidades congrega, lado a lado, textos que Guilherme Santos Neves escreveu não só sobre mestres do folclore brasileiro como também sobre alguns dos portadores de folclore com os quais teve ligação mais estreita e constante.

Já a categoria denominada Registros abrange uma série de notícias, relatórios e resenhas que contribuirão para mostrar como se fazia o trabalho de coleta, preservação e divulgação das manifestações folclóricas no Espírito Santo daquela época.

Por fim, os Anexos. Os textos previstos nesta categoria eram, a princípio, mais numerosos, mas por conveniência editorial e/ou estrutural foram suprimidos ou distribuídos ao longo da obra, exceto dois. O primeiro deles reúne todo o conteúdo (exceto os fac-símiles) da publicação intitulada A Cabula: Um culto afro-brasileiro (Cadernos de Etnografia e Folclore, volume 3, Vitória, Comissão Espírito-santense de Folclore, 1963) tendo como núcleo a pesquisa do bispo D. João Batista Correia Nery sobre a seita afro-brasileira com que se deparou nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus durante sua visita pastoral de 1900. O segundo abriga o acervo de informações coligidas pelo folclorista junto à portadora de folclore Dalmácia Ferreira Nunes, que trabalhou como doméstica em sua casa durante mais de vinte anos. Esse material, cuja divulgação em folheto à parte o folclorista chegou a cogitar, foi publicado no boletim Folclore, 92, de 1979.

A edição do texto seguiu uma metodologia específica. Em termos gerais, os textos originais foram respeitados o mais fielmente possível, exceto na ortografia, que foi atualizada, e em eventuais interferências como cortes na adjetivação puramente laudatória e introdução, entre colchetes, de esclarecimentos julgados necessários. Alguns dos itens, de que foram encontradas mais de uma versão, não só impressas como, por vezes, em forma de textos datilografados, levaram à decisão de compor um texto único, respeitando o mais possível o discurso do autor e aproveitando informações presentes numa versão e ausentes em outra ou outras. Por outro lado, evitei essa atitude no caso de certos estudos em que, embora tratando de um mesmo tema e até repetindo certos conceitos e informações, o autor o fazia por outro ângulo ou com base em novos subsídios.

Uma palavra sobre a expressão banda de congos. Nos textos a expressão aparece sob duas formas, banda de congo e banda de congos. Ao proceder à devida padronização, entendi que, sendo congo o termo que designa o tambor cujo número predomina na instrumentação do conjunto, o mais acertado seria usar o termo no plural, a exemplo de banda de metais, banda de palhetas, orquestras de violinos, etc. Mantivemos o termo no singular quando designativo da banda propriamente dita e não do instrumento de percussão a ela pertencente.

A elaboração da bibliografia apresentou alguns problemas. Embora nunca deixasse de citar a fonte de suas citações, Mestre Guilherme por vezes o fazia de modo incompleto, omitindo ora editora, ora local, ora data das publicações, ora até mesmo, no caso de alguns textos publicados em periódicos, o próprio título do artigo citado, substituindo-o por uma alusão ao assunto. Uma parte das referências pôde ser recuperada mediante consulta às centenas de itens do acervo particular do folclorista que, por doação da família, hoje pertencem à Biblioteca Central da Ufes; outra parte, sobretudo no caso de itens que se perderam, mediante consulta na internet (mas não necessariamente a edição consultada pelo folclorista). Ainda assim, os leitores verão que persistem lacunas de informação em alguns títulos incluídos na bibliografia ao final do livro.

Coube-me também a seleção das fotografias a serem inseridas não só no livro mas também no Banco de Fotos do Folclore Capixaba, cuja criação e divulgação no site Estação Capixaba [www.estacaocapixaba.com.br] estavam previstas já no projeto apresentado à Petrobras. Sendo as fotografias destinadas à obra impressa em menor número que as destinadas ao Banco de Fotos, demos prioridade, para inclusão naquela, a fotos que tivessem uma ligação direta com os textos. Já o Banco de Fotos, além de incluir todas as fotografias constantes do livro e outras tantas sobre os assuntos ali abordados, abriga também algumas imagens que ilustram assuntos que o folclorista não chegou a desenvolver por escrito.

Não sendo um especialista em música, embora grande apreciador dela, Guilherme Santos Neves sempre dependeu de profissionais da área para estabelecer as anotações musicais do grande número de peças de música folclórica por ele gravadas. João Ribas da Costa e Maria Penedo foram seus principais colaboradores nessa tarefa, além de Therezinha de Jesus Freitas, que viria a ser sua nora, e, mais tarde, Terezinha Dora Abreu de Carvalho.

Uma parte das gravações feitas pelo folclorista se perdeu, e outro tanto se acha ainda à espera de oportunidade para transposição da mídia da época para a de hoje. Uma pequena parte já transposta inclui algumas peças de que não se achou a respectiva partitura. Isso levou à contratação da musicista Kéllen Sena Mendes Lyra, a quem pedi não só que fizesse a transcrição musical dessas peças como também, talvez com excesso de zelo, que revisse aquelas que tinham sido feitas décadas atrás, cotejando-as com as gravações, quando disponíveis. Pedi também que, para fins de padronização geral, reproduzisse as velhas partituras com base na mais avançada tecnologia para esse efeito permitida pela informática.

Perdoem se registro aqui o fato de que duas das toadas de que não se encontrou partitura nem tampouco gravação – uma modinha sobre a cachaça e a canção “Soldado de Minas” – puderam ser recuperadas porque guardei na memória a melodia, graças à freqüência com que ouvia Mestre Guilherme cantá-las em casa.

Creio que essas são as informações que me cabia dar aqui nesta nota sobre a seleção de material e a organização da obra como um todo, tarefa que me coube neste projeto e que procurei realizar conciliando a preocupação técnica e o sentimento de amor e respeito filiais.

Vila Velha, março de 2008.

Reinaldo Santos Neves


Nota

[ 1 ] Esses livrinhos serviram de base para a produção, em 2007, com recursos obtidos via Lei Rubem Braga (lei de incentivo à cultura do município de Vitória), do cd Cantigas de roda: Versões capixabas para coral infantil e orquestra de câmera (produção de Rogério Coimbra; arranjos de Modesto Flávio Chagas Fonseca; regência de Hélder Trefzger; regência do coral de Ronaldo Sielemann).

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[SANTOS NEVES, Guilherme. Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba. Org. e ed. Reinaldo Santos Neves. Vitória: Cultural-ES, 2008. Patrocínio: MINC / Lei Rouanet - Patrocínio: Petrobras.]

[Publicado originalmente neste site em 2008]


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© 2008 Estação Capixaba - Todos os direitos de reprodução a partir das imagens digitalizadas e tratadas pela equipe do site, assim como estudos e demais textos produzidos especialmente para esta publicação online estão reservados exclusivamente para o site ESTAÇÃO CAPIXABA (www.estacaocapixaba.com.br) e à família do autor. A reprodução de qualquer item sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais, desrespeito à propriedade dos acervos e aos serviços de preparação para publicação.
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Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Sumário Penedo vai... Barca nova Periquito Maracanã Carneirinho, carneirão... A canoa virou... Tenho uma linda laranja Eu sou p...


Sumário


Penedo vai...
Barca nova
Periquito Maracanã
Carneirinho, carneirão...
A canoa virou...
Tenho uma linda laranja
Eu sou pobre, pobre, pobre...
É de Valentim
Terezinha de Jesus
Bela condessa
Meu amor é marinheiro
Gata espichada
Ao passar da barca
Ó bela Lilia
Quebra, quebra, Gabiroba
Onde está a Margarida?
Sinhá Marreca
Pobre viúva
Os olhos de Marianita
Sereno

Bibliografia



[SANTOS NEVES, Guilherme (pesquisa e texto), COSTA, João Ribas da (notação musical).  Cantigas de roda. Vitória:Vida Capichaba, 1948 e 1950. (v. 1 e 2).]

Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
João Ribas da Costa foi professor no interior do Estado do Espírito Santo.


Professor Guilherme Santos Neves entre suas alunas do Colégio do Carmo durante trabalho de pesquisa folclórica. Anos 1950. Projeto ap...

Preservação e divulgação de registros do Folclore capixaba


Professor Guilherme Santos Neves entre suas alunas do Colégio do Carmo durante trabalho de pesquisa folclórica. Anos 1950.
Professor Guilherme Santos Neves entre suas alunas do Colégio do Carmo durante trabalho de pesquisa folclórica. Anos 1950.
Projeto aprovado na Lei Rubem Braga no ano de 2014, foi realizado com a participação do INSTITUTO PHOENIX CULTURA, recursos da PREFEITURA DE VITÓRIA / LEI RUBEM BRAGA e apoio da SPASSU TECNOLOGIA, e apresenta ao público parte do acervo da família Santos Neves, composto de apontamentos que iniciam no ano de 1943 e vão até 1959 feitos por alunas que cursavam o Ginásio e o Normal (formação para professoras) do antigo Colégio do Carmo, de Vitória, ES.

Esses apontamentos integraram as atividades da disciplina de Português, ministradas pelo professor e também folclorista Guilherme Santos Neves, o mesmo que a 23 de agosto de 1952 criaria o Centro de Pesquisas Folclóricas do Colégio do Carmo[ 1 ] inspirado por Renato de Almeida, outro grande folclorista brasileiro ao qual o professor Guilherme esteve ligado pelo interesse comum.

O trabalho consistiu de várias etapas. A primeira delas foi o inventário detalhado, com indicações de assuntos, autorias, locais de ocorrência e data. Passou-se então à etapa seguinte, de preparação dos documentos, amenizando-se vincos de dobras e realizando-se pequenos reparos com utilização de Document Repair Tape.Carmo[ 2 ]  Em seguida procedeu-se à digitalização completa de todos os documentos (1.650 itens), perfazendo o total de 3.934 páginas / arquivos JPG coloridos e em alta resolução (300ppi), matrizes para preservação. Posteriormente os arquivos foram tratados para publicação na internet com acertos de bordas, redução de tamanho e resolução, incorporação de contraste e nitidez, salvando-se separadamente em JPG de 100ppi. O trabalho com as imagens foi finalizado pela integração das páginas de cada documento e criação de arquivos PDF para publicação no site. Após todas estas etapas foram então criadas as páginas de internet e publicadas em nosso site.

Equipe técnica:


Concepção do Projeto
Maria Clara Medeiros Santos Neves

Inventário, digitalização, tratamento de imagens 
e preparação de páginas para internet
Maria Clara Medeiros Santos Neves

Estudo Introdutório

Preparação dos documentos para digitalização


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NOTAS


[ 1 ] Ver Revista Excelsior, dez. 1952.
[ 2 ] Fita apropriada para preservação de documentos.

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SUMÁRIO


Introdução

Um filão farto de folclore capixaba: o Colégio do Carmo (Luiz Guilherme Santos Neves)

Inventário do acervo

Arquivos PDF dos documentos

Imagens da pesquisa de campo

Revista Excelsior, dez. 1952

A Gazeta, Caderno Pensar, 23/01/2016

Um inventário de registros folclóricos [Texto de Luiz Guilherme Santos Neves lido no evento de lançamento do Projeto PRESERVAÇÃO E DIVULGAÇÃO DE REGISTROS DO FOLCLORE CAPIXABA, ocorrido no dia 28 de janeiro de 2016, no auditório da Biblioteca Pública do Espírito Santo]

[Publicado originalmente no site Estação Capixaba em 28/01/2016]


© 2016 Estação Capixaba - Todos os direitos de reprodução a partir das imagens digitalizadas e tratadas, assim como estudos e demais textos produzidos especialmente para esta publicação online estão reservados exclusivamente para o site ESTAÇÃO CAPIXABA (www.estacaocapixaba.com.br).




Durante os seus longos e bem ou mal vividos 425 anos, o Espírito Santo, modificando-se, através dos tempos, na sua feição sócio-econômica...


Durante os seus longos e bem ou mal vividos 425 anos, o Espírito Santo, modificando-se, através dos tempos, na sua feição sócio-econômica, também sofreu mudanças na sua fisionomia folclórica. Nesta, porém, muito menos acentuadamente que naquela. O caminhar, precipitado ou lento, rumo ao progresso atual, não deformou de todo a alma de nossa gente. E se é verdade que a civilização foi talando os singelos e bárbaros costumes, criando novos hábitos de trabalho e de vida, não conseguiu, todavia, apagar ou delir, em certas manifestações do nosso povo, as primitivas marcas de origem.

O artesanato popular nos vem dos tempos aurorais da colonização, ou de antes. As rendas, as redes de pescar, o trançar dos vimes, o tecer dos fios, a cerâmica utilitária, o embarreio das casas de taipa e sapé, o fabrico de esteiras nos teares de bilros... tudo ainda se faz, entre nós, repetindo técnicas primitivas de trabalho. Pesca-se nos mares, rios e lagoas do Espírito Santo pelos mesmos remotos e rústicos processos doutros tempos: o arrastão, a rede de espera, os covos, as camboas, os juquiás ou jiquiás, o fachear para pegar lagostas... A caça ainda utiliza hoje fojos, armadilhas e pios que nos vêm de longes eras. Em vários, em muitos recantos da terra capixaba, não é raro ouvir o chô-o-pám! Do monjolo ou pilão d'água, ou do pilão de mão, socando, triturando, pilando café, arroz ou milho. E nas estradas, nos caminhos, nos atalhos, levantando poeira, passam ainda as tropas de burros, com a "madrinha" retinindo à frente e gemendo, chiando, cantando nos eixos — o carro de bois, "o primeiro veículo que rodou em terras do Brasil..." (Bernardino José de Sousa, Ciclo do carro de bois no Brasil, São Paulo, 1958, p.103).

***

Quantas tradições populares continuam, teimosamente algumas, perenes e vivas em terras do Espírito Santo! As simpatias, superstições e crendices aninhadas no coração crédulo da gente simples: os romances versificados (Nau Catarineta; O conde Flores; A donzela guerreira; O bernal francês; O cego andante; Juliana e Dom Jorge...) — romances velhos esmorecendo, pouco a pouco, na memória cansada das velhinhas contadeiras de histórias; as cantigas de roda (Barca nova; Constância; Pobre viúva; Giroflê; Gata espichada; Penedo vai; Senhora Condessa; Valentim; Periquito maracanã... centenas delas) transmitidas através do vozelo alegre das meninas; jogos e folguedos infantis (raia, pião, gude, barra-manteiga, picolê, carniça, chicote-queimado, berlinda, seu lobo, Bento-que-bento... uma porção deles) — repetidos, em rodopios, pulos, saltos e carreiras, nos buliçosos brincos dos meninos; a arte rústica do povo, suas técnicas de trabalho (rendas, redes, cestos, gaiolas, cerâmica utilitária e figurativa, aparelhos de caça e pesca...) — resistindo, aqui e ali, ao incoercível ímpeto da máquina, os acalantos, singelos e dolentes cantarolados ainda (graças a Deus!) pelas vovós e mamães capixabas, que também não esqueceram felizmente — para deleite e gosto nosso — como se preparam os nossos pratos saborosos; as moquecas de papa-terra, de judeu, de robalo; as paneladas de caranguejo e de siri; a tradicional torta da Semana Santa e a doçaria gostosa: os manuês, os quindins, as brevidades, a canjica, a papa de milho verde , melado, ambrosia, baba-de-moça, cocadinhas, beijos, pés-de-moleque, suspiros, sonhos, papos-de-anjo, banana frita...

***

(Fecho) É difícil — bem se percebe — dar, numa só palestra (mesmo alongado como esta nossa) todos os aspectos folclóricos de um povo como o capixaba. Teríamos de focalizá-lo em suas festas padroeiras, principalmente a nossa tradicional Festa da Penha — da qual, desde épocas remotas, sempre participaram, piedosos e contritos, romeiros daqui de Campos. Teríamos de observá-lo nas cerimônias da Semana Santa e de Finados, nas festas de Natal e Ano Bom, nos festejos juninos, na esfuziante folia carnavalesca. Teríamos de registrar a poesia do povo: os cantos de trabalho e de velório, as toadas de congo e de folias, as cantigas de roda (com a profusão multicolor das quadrinhas ou trovas), os pontos de jongo e caxambu, as embaixadas e marchas das dramatizações. Teríamos de contar aqui os nossos contos e "estórias", as nossas lendas bonitas, desfiando, para vós, todo o lendário da Penha, por exemplo. Teríamos que perscrutar os mil redutos de trabalho: como os lavradores, os tropeiros, as lavadeiras, as oleiras, os pescadores, as rendeiras, estivadores, doqueiros... ouvindo como aí se fala a pitoresca língua popular, fixando a sua gíria, os seus modismos, seus provérbios, expressões, juras e frases-feitas. Teríamos de percorrer as áreas de colonização estrangeira e de lá trazer, por exemplo, os rituais dos casamentos pomeranos, os quitutes da cozinha italiana, e suas festas, seus costumes, sua língua — mesclados com que é nosso, num constante trabalho de aculturação e simbiose. Teríamos... e seria um nunca terminar — e é preciso pôr fecho a esta longa palestra, mesmo contrariando aquele ditado típico, segundo o qual — o capixaba começa, mas não acaba... e o auditório pacientíssimo não diz, mas sente que é preciso acabar...

Todos esses aspectos — civilizados ou bárbaros, ingênuos ou ardilosos, impregnados de lirismo ou de epopéia, de comicidade ou de dor — se bem coligidos e sabiamente bem dispostos e expostos — por outro que não eu — todos esses aspectos, velhos e novos, talvez que vos pudessem revela, através do nosso opulento e variado folclore, a bela, a forte, a misteriosa alma do povo capixaba.


[Tópicos da palestra pronunciada na cidade de Campos, em 26 de abril, a convite do Centro Cultural Campista e publicados em A Gazeta, Vitória-ES, em 22 de maio de 1960]

Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Ao passar da barca Me disse o barqueiro: Menina bonita Não paga dinheiro. | bis | | bis |     Eu não sou bonita E nem ...


Ao passar da barca
Me disse o barqueiro:
Menina bonita
Não paga dinheiro.
| bis
|
| bis
|
   
Eu não sou bonita
E nem quero ser.
Tenho meu dinheiro
Eu pago a você.
| bis
|
| bis
|
   
Sou a viuvinha
Do conde Loureiro;
Querendo casar-me
Não acho quem queira.
| bis
|
| bis
|
   
Procura na roda,
Torna a procurar.
Só acho fulana
Para ser meu par.
| bis
|
| bis
|

É, sem dúvida, uma das mais bonitas rondas do nosso repertório musical infantil, não apenas pelo sentido da letra, como também pela delicadeza da melodia. Infelizmente, parece-nos, vai-se perdendo entre nós, esta cantiga de roda.

Deve de ter ela origem portuguesa ou ibérica. Júlio Aramburu, folclorista argentino, transcreve, em seu livro El folklore de los niños, alguns versos da cantiga, não porém como ronda. Trata-se de "El caso del barquero"(p. 114):

Al pasar la barca,
me dijo el barquero:
Las niñas bonitas
No pagan dinero.

Segue-se a continuação do "caso", quem nem de leve nos faz lembrar a nossa roda:

Y al volver la barca
me volvió a decir:
las niñas bonitas
no pagan dinero,
se lo dice, niñas,
este caballero.

No livro de J. Aramburu não se registra a música.

Cecília Meireles ("Infância e folclore", A Manhã, 14/3/1943) cita como versão espanhola, sob o título "Passarás, não passarás", quase o mesmo "Caso del barquero" argentino. Também adianta a folclorista patrícia que a música da variante espanhola "é exatamente a mesma que as crianças brasileiras usam, quando cantam 'Sozinha eu não fico, nem hei de ficar', estribilho comum a várias cantigas de roda". Ainda segundo Cecília Meireles, "parece evidente que essa cantiga se inspira na tradição medieval do direito de peagem".

A letra da Segunda parte da nossa cantiga se assemelha à conhecida ronda espanhola "La viudita":

Soy la viudita
Lo manda la ley;
Quiero casarme
Y no hago com quién.

(Versão Rodrigues Marin, cf. Cancioneiro popular de Tucumán, de Juan Alfonso Carrizo, I, p. 377.)

Tal semelhança também se observa com a cantiga de roda venezuelana "Arroz com coco" no seguinte trecho do solo:

Yo soy la viudita,
La hija del rey;
Me quiero casar
Y no hallo con quién.

(Folklore venezolano, de R. Olivares Figueroa, I, p. 165.)

Aliás, há dessa "Viudita" uma carioca registrada pelas professoras Iris Costa Novaes, Diva Diniz Costa e Gedir de Faria Pinto, revista por Afrânio Peixoto (p. 128):

Viuvinha,
Da banda d'além
Quer se casar
E não acha com quem.

Com este, sim,
Com este, não,
Há de ser com aquele
Do meu coração.

É de se notar, entretanto, que a música apresentada nessa coletânea não tem a menor semelhança com a de "Ao passar da barca", lembrando, porém, a melodia com que há dezenas de anos atrás (senão também hoje) se entoavam, no interior de São Paulo, as estrofes da conhecida história da menina enterrada viva pela madrasta, por causa dos figos da figueira. E isso nos leva a novo entrelaçamento de música e letra de cantigas diversas, cuja procedência e evolução muitas vezes é difícil estabelecer.

F. J. de Santa-Anna Nery, em seu livro Folk-lore brésilien, editado em Paris, em 1889, registra à página 23 os versos da "Viuvinha", em forma que diz ter sido recolhida na Bahia.

É curioso observar que, nessa versão baiana, traduzida para o francês há mais de sessenta anos, aparecem quase exatamente os mesmos versos cantados até hoje no Espírito Santo e no Rio de Janeiro:
Je suis la petite veuve
Des parages de là-bas;
Je veux me marier,
Mais ne sais avec qui;
Avec celui-ci, oui,
Avec celui-là, pas,
Avec celui-ci, oui,
Que j'aime bien.

É pena que Santa-Anna Nery não registrasse também a música de "La petite veuve", como o fez com "Senhora dona Sancha" e "Caranguejo não é peixe".

Voltemos, porém, ao nosso "Ao passar da barca". Essa cantiga, também conhecida como "O barqueiro" ou "Viuvinha do conde Loureiro", é corrente em vários recantos do Espírito Santo.

Localizamo-la em Vitória, Vila Velha, Itaquari, Cariacica, Manguinhos, Nova Almeida, Santa Teresa, Itarana, Mimoso do Sul, Fundão, Bom Jesus de Itabapoana, Ibiraçu, Linhares, Santa Leopoldina e São Mateus.

Quase todas as crianças cantam: "Ao pássar da barca", acentuando a 1ª sílaba do verbo "passar". Variantes de Fundão, Nova Almeida, Itarana e Linhares cantam: "Ao passo da barca". Em roda cantada em Vitória, por meninas de várias localidades do interior, ouvimos: "Ao pássar a barca", provavelmente a forma primitiva da canção, idêntica ao "Al pasar la barca" do "Caso del barquero" acima citado.

Outras variantes: "Eu ganho dinheiro / Pra pagar você", "Eu trago dinheiro / Eu pago a você", "Não tenho dinheiro e pago a você", "Não tendo dinheiro...", "Por Ter meu dinheiro...".

Na 2ª parte:

Sou a solteirinha
Que vim de Belém;
Pretendo casar
Mas não acho com quem.

Sou a viuvinha
Quem vim de Belém...

Sou a viuvita
Do conde Loureira;
Quero casar
E não acho quem queira.

Sou a viuvita
Do conde Laurita...

Modo de brincar: Cantiga dialogada. Faz-se a roda e, dentro ou fora dela, fica a "viuvinha". Rodam e cantam a cantiga até "Menina bonita não paga dinheiro". A "viuvinha" responde, cantando, até "Não acho quem queira". Segue-se o coro: "Procura na roda..." e, afinal, a resposta da viúva, escolhendo aquela que deve ser o "seu par". Esta vai, por sua vez, ser a "viuvinha", repetindo-se a roda até cansarem.


[SANTOS NEVES, Guilherme (pesquisa e texto), COSTA, João Ribas da (notação musical). Cantigas de roda. Vitória:Vida Capichaba, 1948 e 1950. (v. 1 e 2).]

Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
João Ribas da Costa foi professor no interior do Estado do Espírito Santo.

AMADEU, Amadeu. Tradições populares . São Paulo, 1948. ANDRADE, Manoel J. Folklore de la Republica Dominicana . Truji1lo, 1948. ANDRADE...


AMADEU, Amadeu.Tradições populares. São Paulo, 1948.

ANDRADE, Manoel J. Folklore de la Republica Dominicana. Truji1lo, 1948.

ANDRADE, Mário de. Namoros com a Medicina. Porto Alegre, 1939.

ASSIS, Machado de. Quincas Borba.Rio de Janeiro: Garnier.

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[Alto está e alto mora — Nótulas de folclore. Vitória: edição do autor, 1954.]

Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)