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Breve esboço biográfico (por Renato Pacheco) Reminiscências de São Mateus  - Jones dos Santos Neves [In  Cartas selecionadas - J...



Breve esboço biográfico (por Renato Pacheco)

Reminiscências de São Mateus - Jones dos Santos Neves [In Cartas selecionadas - Jones dos Santos Neves. Vitória: Cultural-ES, 1988.]

Discursos

Diretriz suprema de governo: serena e inflexível exação do cumprimento do dever (26/01/1943) [In Discursos, de Jones dos Santos Neves, Imprensa Nacional, 1945.]
A luta pelo direito (4/12/1943) [In Discursos, de Jones dos Santos Neves, Imprensa Nacional, 1945.]
Síntese das atividades administrativas no primeiro ano de governo (26/01/1944) [In Discursos, de Jones dos Santos Neves, Imprensa Nacional, 1945.]
Da medicina curativa do passado à medicina preventiva do futuro (30/11/1944) [In Discursos, de Jones dos Santos Neves, Imprensa Nacional, 1945.]
Síntese das atividades administrativas do segundo ano de governo (26/01/1945) [In Discursos, de Jones dos Santos Neves, Imprensa Nacional, 1945.]
Discurso proferido no Senado Federal, em julho de 1947 [In A serviço do Espírito Santo, discursos, de Jones dos Santos Neves, Vitória, 1954.]
Discurso proferido no Senado Federal, a 23 de maio de 1948, sobre a questão de limites entre Minas e Espírito Santo [In A serviço do Espírito Santo, discursos, de Jones dos Santos Neves, Vitória, 1954.]
Discurso de posse no cargo de governador do Estado, a 31 de janeiro de 1951 [In O Espírito Santo trabalha e confia, 1952-1955. O Estado do Espírito Santo no governo Jones dos Santos Neves. Vitória, 1958.]

Relatório geral do quatriênio – 1951-1955. In O Espírito Santo trabalha e confia: 1951-1955. Vitória, 1958.         


O Espírito Santo trabalha e confia: 1951-1955. Vitória, 1958. [Álbum elaborado em 1958 em homenagem aos ex-governador Jones dos Santos Neves.]


SANTOS NEVES, Jones. Orações do IV Centenário. Vitória: Governo do Estado do Espírito Santo, 1951. [Obra publicada integralmente.]


SANTOS NEVES, Jones dos. Cartas selecionadas. Vitória: Cultural-ES, 1988. [Obra publicada integralmente.]


Poesia in Roda de perfis, Rio de Janeiro: Pongetti, 1935. [Publicamos aqui apenas os poemas de autoria de Jones dos Santos Neves,identificado, na época, sob o pseudônimo Jota-Esse]

Dan Tikhomiroff
Heliomar Carneiro da Cunha
Marcondes Alves Souza Júnior
Robert Langen
Um almoço no Rotary
Wolmar Carneiro da Cunha
Anselmo Cruz
José Meira Quadros
Francisco Fundão
Manoel Vivacqua

Depoimentos

GATTI, Gatti. Um homem antes de seu tempo. In A tribuna, 21/12/1973.
MASSENA, Homero. Adeus.
CARDOSO, Dirceu. Homem de pensamento e de ação. [Trechos de pronunciamento na sessão de 22 de março de 1974, na Câmara dos Deputados.]
SANTOS NEVES, Luiz Guilherme. O pai. In A Tribuna, 29/09/1974.
LOPES Filho, Christiano Dias.Jones: Alguns registros para a história.  Trechos extraídos de depoimentos publicados no jornal A Gazeta, edições de 21, 27 e 31 de dezembro de 1974.]

Imagens de vida privada
Imagens da vida pública
Imagens de obras públicas

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© 2001 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Jones dos Santos Neves graduou-se em Farmácia no Rio de Janeiro e, de volta a Vitória, casou-se, em 1925, com Alda Hithchings Magalhães, tornando-se sócio da firma G. Roubach & Cia, juntamente com Arnaldo Magalhães, seu sogro, e Gastão Roubach. A convite de interventor João Punaro Bley, em 1938 funda e dirige, juntamente com Mário Aristides Freire, o Banco de Crédito Agrícola (depois Banestes), tendo depois disso seu nome indicado juntamente com o de outros dois, para a sucessão na interventoria. Foi então escolhido por Getúlio Vargas como novo interventor, cargo em que permaneceu de 1943 a 1945. Em 1954 retomou seu trabalho no banco, chegando à presidência, sendo, em 1950, eleito  governador do estado. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Vitória, 1860. Foto de Jean Victor Frond. Autor: Inácio Acióli de Vasconcelos Edição de Texto, Estudo e Notas: Fernando Achiamé...


Vitória, 1860. Foto de Jean Victor Frond.
Vitória, 1860. Foto de Jean Victor Frond.


Autor: Inácio Acióli de Vasconcelos
Edição de Texto, Estudo e Notas: Fernando Achiamé


Les meprises d'un impartial excitent une
discussion d'où sortira la lumière de la vérité


PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO


1. Limites

A província do Espírito Santo, compreendida entre os rios Itabapoana e São Mateus nas latitudes austrais 21° 23' e 18° 45', contém, com pouca diferença, cinqüenta léguas[ 1 ] de costa de mar, que a limita pelo leste; é separada da província de Minas Gerais por uma linha de norte a sul entre os rios Guandu e Manhuaçu, uns dos que engrandecem o rio Doce. A primeira divisão e demarcação da província principiou na ponta austral do rio Mucuri até Santa Catarina das Mós, meia légua ao sul do rio Itabapoana, compreensão da carta de doação do Senhor D. João III a Vasco Fernandes Coutinho em 1525 pelos seus serviços feitos na Índia. Foi possuída pelos seus descendentes até que o Senhor D. João V a comprou a Cosme de Moura Rolim por escritura de 6 de abril de 1718, a quem pertenceu por sentença da Relação[ 2 ] da Bahia pelo falecimento do donatário Manuel Garcia Pimentel.

Por auto, celebrado em 8 de outubro de 1800, de acordo entre os governadores de Minas e desta província se regulou os limites dela pelo rio Doce e pela dita linha de norte a sul que passa pelo sertão entre ambas as províncias, o que foi aprovado por carta régia de 4 de dezembro de 1816; ignora-se, porém, a longitude desta dita linha.

Por portaria de 10 de abril de 1823 da Secretaria dos Negócios do Império ficou pertencendo São Mateus a esta província até a decisão da Assembléia, estando desligada [da província da Bahia] pela dita carta régia.

2. Atmosfera

A sua atmosfera podia passar por saudável se não aparecessem na primavera e outono febres de diferentes caracteres[ 3 ] , cuja causa se pode atribuir aos muitos lagos, ao alimento salgado, e às matas vizinhas que contornam as povoações, o que em parte se podia corrigir com esgoto daqueles e decote destas. O máximo de calor e frio nos quatro anos mais próximos não tem excedido a 88° e 63° do termômetro de Fahrenheit na cidade da Vitória, capital da província. Os ventos dominantes desde março até setembro são sul, sueste e su-sueste, e desde setembro até março são norte, nordeste e leste com algumas variações para outros quadrantes, sendo os mais prejudiciais em toda a costa [os ventos] sueste, leste e su-sueste chamados travessia[ 4 ] pelos marítimos, sendo os do mar úmidos e frios e os outros pelo contrário. As marés têm o seu máximo e mínimo nos meses de março e agosto, e a sua elevação seis para sete palmos. As geadas e neblinas são raríssimas, e de mui poucas horas, e só aparecem nas vizinhanças das montanhas com os ventos sul e leste nos meses de junho e julho. A seis para sete anos a esta parte rara é a trovoada, tendo sido, aliás, mui freqüentes. As chuvas quase têm faltado nos anos desde 1820 até 1826, o que fez tornar em pastagens o que antes eram terrenos impraticáveis, e secou regatos, aliás, em outros tempos perenes; ignoram-se as causas, sendo certo ser uma delas as contínuas derribadas de matos virgens, deixando os montes escalvados.[ 5 ] Os tempos das chuvas eram desde setembro até dezembro, mas em 1827 parece ter passado de outubro para janeiro.

3. Aspecto do país

É montanhoso, desigual, alto, cortado de rios, o terreno em geral é argiloso e areento sobre pedra quartzosa[ 6 ] e micácea,[ 7 ] oca e cascalho; [os solos são] úmidos e leves enquanto novos, mas compactos e secos depois de trabalhados e estragados pelos fogos, do qual método se não afastam. A grossura média da terra vegetal é quatro palmos.

4. Serras e montes

A costa toda da província é acompanhada por uma cordilheira de montanhas, de que como espinha dorsal fazem de vértebras todas as mais, havendo, contudo, isoladas como a serra do Mestre Álvaro, utilíssima aos navegantes por ter a propriedade de apresentar por todos os lados o mesmo aspecto, o monte Moreno, a Penha e outros muitos. Esta cordilheira se aproxima mais a Guarapari que a outro ponto da costa, e dela distará talvez oito léguas. Não consta que curioso algum investigasse a altura de algum deles, à exceção do da Penha que está acima do nível do mar 100 varas.[ 8 ] São raras as montanhas descobertas, suposto que todas em geral são riquíssimas de pedras, e talvez bem preciosas, como a serra das Esmeraldas, de que ninguém do país[ 9 ] dá notícia, mas que de fato existem. As que são cobertas e ainda incultas possuem excelentes madeiras de construção.

5. Fontes

A pouca cultura da província por pessoas de instrução tem, sem dúvida, obstado ao conhecimento das fontes e da natureza de suas águas. De maneira que apenas consta por tradição que em uma fazenda denominada Santana, pouco mais de légua distante da Cidade,[ 10 ] há um pequeno regato de águas férreas, tais asseveradas pelo ex-governador, o ilustríssimo Antônio Pires da Silva Pontes, sendo comuns as de que se servem os habitantes. A cidade da Vitória contém três: a da Capixaba, a Fonte Grande e a da Lapa, pequenos regatos que vertem entre morros contíguos, aproveitados por canos que rematam em chafarizes, mas tão pobres em tempo seco que têm chegado os moradores a mandá-las buscar em canoas no rio Marinho, quarto de légua distante da Cidade. Os mais habitantes das vilas e povoações ou se servem dos rios e regatos contíguos ou de fontes denominadas cacimbas. As águas da cidade passam por boas, não obstante principiarem ao terceiro dia de guardadas a alterarem-se, adquirindo um gosto aluminoso[ 11 ] ou nitroso.

6. Rios

A província é toda cortada de rios, em geral piscosos em abundância, tendo as suas vertentes pelos sertões de Minas e desaguando ao mar, onde tomam os nomes seguintes principiando da parte do sul.

Itapaboana – vindo da serra do Pico ou dos Guarulhos perto de Muriaé, é na sua barra de três a nove palmos[ 12 ] no máximo baixa-mar e preamar; seu fundo e margens areentas e variáveis e de largura na barra de 24 braças;[ 13 ] para cima tem mais largura e fundo, e corre de oeste a leste.

Itapemirim – formado dos rios do Castelo e Muqui, é na sua barra de 4 a 11 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar; seu fundo e margem esquerda de areia e a direita de pedra, de largura na barra de seis a sete braças, tem para cima mais largura e fundo.

Piúma – formado pelo Piúma propriamente e rio Iconha; é na sua barra de natureza do Itabapoana, é célebre pelas ilhas que tem fora da barra, que abrigam com todos os ventos todos os navios de porte; as suas matas contêm excelentes madeiras de construção e sem moradores, e por isso próprias para uma colônia.

Benevente – é na sua barra de 5 a 10 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar; sua margem direita de pedra, a esquerda de areia dura e seu fundo de lama e areia solta, a sua largura dezoito braças; corre de oeste a leste e é formado dos rios Três Barras, Pongal e Quatinga.

Guarapari – é na sua barra de 34 a 40 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar; margem de pedras e fundo de areia, de largura de trinta e cinco braças, corre de nordeste a sudoeste.

Perocão – de 3 a 9 palmos na sua barra no seu máximo baixa-mar e preamar, de largura de quatro braças, fundo e margem de areia, quinhentas braças acima tem uma ponte de madeira sobre pegões[ 14 ] de pedra e cal.

Jucu – tem a sua barra de 3 a 10 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar, de largura de quatro braças, fundo e margens de pedra, e cinqüenta braças acima tem muito maior largura e fundo; sempre tem tido ponte de madeira, mas atualmente está desconsertada.

Espírito Santo[ 15 ] – braço de mar, é um dardanelo[ 16 ] até a cidade da Vitória distante uma légua da sua barra, que tem de fundo 17 a 24 palmos no seu baixa-mar e preamar; recebe as águas do rio Santa Maria que é formado dos rios Mangaraí, Caioaba, Curubixá Mirim e Açu, São Miguel, Tauá e Jaculû, e as águas do Cariacica, e um braço do rio Jucu que é formado dos rios Tanque, Santo Agostinho, Pimentas, Manducongo e Araçatiba.

Rio da Passagem – braço de mar com ponte de pegões de pedra e cal e madeira sobreposta, de largura de vinte braças que com o rio Espírito Santo forma a ilha onde está a capital da província.

Jacaraípe – pequeno rio cuja barra se seca todas as vezes que há falta d'águas, ou ventos do mar que a entulhem d'areias, mas navegável para o sertão por espaço de cinco léguas.

Nova Almeida – recebe o rio Sauanha, é de 10 a 16 palmos de fundo na sua barra no máximo baixa-mar e preamar, margem e fundo d'areia, de largura de 25 braças, corre de sudoeste a nordeste, acima tem mais largura e fundo.

Aldeia Velha – de largura de 90 braças, de 10 a 16 palmos de fundo na sua barra no máximo baixa-mar e preamar, fundo e margem de areia, e corre de oeste a leste, e é formado do Piraquê-açu e Piraquê-mirim, da esquerda e margem direita.

Riacho – formado do pequeno rio Comboios e das lagoas seguidas e continuadas do Campo do Riacho, de Aguiar e de Anadia, tem a sua barra de 3 a 8 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar, margens e fundo de areias e pedras, de largura de quatro braças, corre de oeste a leste.

Rio Doce – de largura de um quarto de légua pouco mais ou menos na sua barra, e de 16 a 20 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar, de muita velocidade, de margens de areia e fundo de areia e lama, cheio de baixios e ilhas acima da barra, corre de oeste a leste, recebendo da parte direita as águas dos rios Preto, Anadia, Santa Joana, rio d'Alva, e da parte esquerda dos rios Juparanã, Juparanã-mirim, Pancas, Santo Antônio, São João e Mutum, ficando todos do Porto de Souza para baixo, [local situado a] vinte léguas da barra e daí para cima recebe as águas de outros rios como Manhuaçu, Guandu no território desta província, o ribeirão do Carmo, etc. da província de Minas.

Barra Seca – pequeno rio que nasce no rio Mariricu, um dos que deságuam em São Mateus, e da mesma natureza do Jacaraípe respeito à barra.

São Mateus – formado do rio Mariricu, que vem da lagoa Juparanã, e dos rios Itaúnas, São Domingos e Santana, sendo o primeiro da parte direita; tem na sua barra 6 a 12 palmos d'água no máximo baixa-mar e preamar, margens e fundo de areia, e mudável o seu canal de largura de seis braças; a largura do rio é de 25 braças, e corre do oeste a leste.

Cada um destes rios, nos quais nada tem a arte feito em benefício seu, serão talvez formados por muitos outros, cujo número, situação e nomes se ignoram, bem como os seus produtos pouco ou nada explorados até esta época.

7. Portos e enseadas

Todos os rios acima oferecem portos de desembarque mais ou menos consideráveis em razão do fundo das suas barras, havendo nalgumas delas enseadas, bem como a enseada de Itapemirim cheia de baixios e pedras; de Piúma excelente abrigo para todas as embarcações e com todos os ventos; a de Benevente de pouco fundo; a de Guarapari não abrigada, mas de bom fundo para entrar a barra, excetuando de noite, pelo que se verá no número oito; a de Perocão inabrigável[ 17 ] pelas pedras ocultas e baixios; a de Nova Almeida de baixios e pouco fundo; a de Aldeia Velha de bom fundo, mas de pedras e baixios; a do rio Doce, de nome Concha, boa para fundear toda a qualidade de barcos, mas com bonança ou nordeste; a de São Mateus de bom fundo, onde se espera para entrar ventos ou enchentes.[ 18 ]

Há além destas as seguintes enseadas: a de Itabapoana, três léguas ao norte da barra deste rio, espaçosa, mas de baixios e pedras, podendo fundear quaisquer barcos na distância de duas léguas da praia; a de Ubu, duas léguas ao norte de Benevente, insignificante e de pouco fundo; a de Meaípe duas léguas ao sul de Guarapari, mas de pouco fundo e inabrigável com vento sul; a de Una duas léguas ao norte de Guarapari e a da Ponta da Fruta quatro léguas; a da Costa meia légua ao sul do Espírito Santo; a de Piraém uma légua ao norte do Espírito Santo; a de Carapebus duas léguas; a de Jacaraípe cinco; a de Capuba seis léguas ao norte do Espírito Santo; a de Flecheiras uma légua ao norte de Nova Almeida — são todas insignificantes por cheias de baixios e pedras. Em geral, todas as enseadas acima se não podem demandar sem risco, sem prático[ 19 ] delas.

Tábua das Latitudes e Longitudes dos Lugares mais Notáveis da Costa da 
Província do Espírito Santo referidas ao Meridiano da Capital do Império do Brasil

Lugares Latitude Sul Longitude a Leste
Barra de Campos 21° 35' 40" 2° 26' 55"
Riacho Guaxindiba 21° 35' 00"
Santa Catarina das Mós 21° 24'
Barra de Itabapoana 21° 23'
Barra do Siri 21° 13'
Barra de Itapemirim 21° 10' 30" 2° 31' 45"
Ilha do Francês 21° 07' 30" 2° 31' 45"
Barra de Piúma 21° 00' 00"
Barra de Benevente 20° 56" 00" 2° 35' 25"
Barra de Guarapari 20° 45' 2° 39' 25"
Barra de Perocão 20° 50' 00" 2° 39' 55"
Ponta da Fruta 20° 28' 00" 2° 43' 55"
Barra do Espírito Santo 20° 10' 00" 2° 42' 25"
Colégio da Cidade da Vitória 20° 17' 2° 42' 25"
Ponta do Tagano 19° 52' 2° 44' 25"
Barra de Almeida 19° 49' 30" 2° 41' 45"
Barra de Aldeia Velha 19° 43' 2° 42' 05"
Rio Doce 19° 30' 2° 40' 45"
Barra Seca 19° 09' 30" 2° 40' 45"
São Mateus 18° 45' 2° 40' 45"

8. Ilhas

Em Itapemirim há duas ilhas fora da barra, uma denominada dos Ovos fronteira a ela, e outra denominada Escalvada ao norte dela. Três léguas ao norte do rio Itabapoana, meia légua distante da praia, há a ilha das Andorinhas, pequena, mas agricultada pelo destacamento das Barreiras, que está defronte aquartelado. Neste lugar constantemente aparecia gentio e fazia estrago nos passageiros, o que se corrigiu com este destacamento, do qual saem dois soldados armados a encontrar com quem avistam, tanto de uma parte como de outra, e o acompanham até ficar livre de perigo.

Piúma tem duas ilhas defronte da barra, e a ilha do Francês ao sul dela. Esta ilha continha um poço natural e de mui boa água, e foi mandada atulhar em 1827 pelo Comandante de Itapemirim por se terem dela servido os piratas que infestaram a costa este ano. Guarapari tem a Rasa, Escalvada, outra à terra dela de nome Raposa, e duas pedras alagadas que se descobrem com a maré ao nordeste da Escalvada denominadas Feiticeiras, por causa das quais se não pode à noite demandar este porto. Perocão, ao norte, tem três ilhas e muitas pedras descobertas. Jucu tem uma ilha a leste da barra e entre esta e a barra do Espírito Santo existem as seguintes: Tanguetá, Itatiaia, Pitauã, Jorge Fernandes e Pacotes. O Espírito Santo tem as ilhas do Boi e dos Frades e pelo rio acima se encontram várias; a dos Frades é agricultada. Nova Almeida tem quatro ilhas defronte da barra; a que está à terra se denomina Raposa e as outras mais ao mar, Três Irmãos. Todas estas ilhas são inabitadas[ 20 ] e de pouca consideração pela sua grandeza e produtos, sendo a maior parte de pedras e não produzindo mais que pequenas matas, cardos e musgos.

9. Lagos e pântanos

Sendo os lugares cultos[ 21 ] da província a costa do mar, de que talvez se não tenham apartado os moradores três léguas, e pelas margens do rio acima quando muito em alguns lugares dez léguas, só se conhecem os lagos que nestes sítios estão, e são os seguintes. Lagoa Salgada ao sul de Itabapoana, junto ao mesmo rio. Morobá, duas léguas ao norte de Itabapoana, junto ao mar. Tabua, meia légua ao norte de Morobá. Tiririca, meia légua ao norte de Tabua. Cocolocage, quarto de légua ao norte de Tiririca. Campinho, quarto de légua distante da Cocolocage ao norte. Siri, quarto de légua distante do Campinho ao norte. Lagoa d'Anta, perto de meia légua do Siri para o norte. Lagoa Funda, quarto de légua distante da antecedente da parte do norte. Piabanha, meia légua ao norte de Itapemirim. Iriri, meia légua ao norte de Piúma. Maimbá, duas léguas ao norte de Benevente. Abaí, meia légua ao norte de Maimbá. Lagoa de Meaípe, quarto de légua ao norte de Abaí. Graçaí, meia légua ao norte de Meaípe. Lagoa do Campo do Riacho, quatro léguas ao norte de Aldeia Velha, e duas distante do mar; esta se comunica com a lagoa de Aguiar, meia légua para o oeste. Juparanã, sete léguas distante do mar e uma do rio Doce da parte do norte é a mais célebre pela sua grandeza, que tem pelo menos uma légua e meia de diâmetro. Juparanã-mirim, distante desta três léguas [para o lado contrário] do mar e contígua ao rio Doce. Lagoa de Aviz, meia légua ao norte do rio Doce, e oito distante da barra. Lagoa dos Patos, na mesma margem e para o mar distante da antecedente um quarto de légua. Juparanã da Praia, contígua ao mar e duas léguas ao norte do rio Doce.

Todos estes lagos abundam de peixe e nunca secam; é bem provável que pelo interior não haja poucos, os quais inda são desconhecidos, sendo todos acima de água comum, à exceção de Juparanã, que se diz conter muito antimônio.

Não há pântanos memoráveis mais que algumas pequenas margens destas lagoas; há porém alguns lugares paludosos em terrenos tão balofos que qualquer corpo, entrando neles de súbito, quase desaparece; tais são as vertentes do rio Mariricu e rio Preto, e a margem do meio-dia[ 22 ] da lagoa Juparanã. Em geral, há imensos brejos pelas margens dos rios e lagoas e entre montes, que produzem juncos, tabuas, lírios e tiriricas, em algumas das margens, dos quais se fazem belas plantações de arroz. Nas margens do mar tais brejos estão cheios de mangues de diferentes qualidades.

Com bem pouco trabalho se podiam tornar estes terrenos excelentes para as lavouras e criação, o que se não faz ou por indolência, ou pela abundância de terras.

10. Planícies baldios e matas

Bem como as montanhas, possui também a província muitas planícies, sendo em geral as margens dos rios tão próprias para a agricultura como para a criação, mas as mais notáveis pela sua extensão são as seguintes. A Muribeca, de nove léguas de costa de mar e seis de largo mais ou menos, pertencente à fazenda do mesmo nome junto ao rio Itabapoana. Campo da vila do Espírito Santo,[ 23 ] baldio de duas léguas de extensão em comprimento e uma de largura, de que se servem os moradores vizinhos para a criação. Carapina, distrito da Cidade, tem um baldio de três léguas de extensão e uma de largura, de que se servem os moradores contíguos para criação. Desde o rio Doce até São Mateus há um baldio de vinte léguas, de imenso gado montado,[ 24 ] nenhuma parte dele é empregada em cultura nem criação; o Marquês de Baependi aqui possui uma sesmaria de três léguas que as houve por compra. O Campo do Riacho possui um baldio de duas léguas em quadra, de que se servem os índios tanto para plantações como criação.

À exceção do que está descrito, quase tudo o mais são matas virgens, e riquíssimas em madeiras de toda a qualidade e de outros mil produtos incógnitos até esta época, e só habitadas por feras e selvagens. [Como] muitos anos de esforço por hábeis naturalistas não seriam suficientes para a completa descrição dos produtos vegetais, referirei das madeiras indígenas as mais triviais, e geralmente conhecidas no país. Madeiras de construção da ribeira: sucupira, maraçanatiba, grapiapunha, jataí-peba, caubi, pequi, guaiti, sapucaia-mirim, guanandi-carvalho, sobro, peroba, amarelo, tapinhoã, canela, araribá, angelim, cerejeira, sapucaia-açu e camará. Madeiras de construção de edifícios civis: inhuíba de rego, dito[ 25 ] pimenta, dito cheirosa, dito funcho, dito canela, dito tapinhoã, cedro, guaticica, guarabu-roxo, dito mirim, imbiriba, ubatinga, caingá, bicuíba, paraju, maçaranduba, arariba, caixeta, jequitibá, ouri, taicica-roxa, ubapeba, pequiá de duas qualidades, ipê, paratudo, ingá, óleo, cubixá, aderno, faia, guaraná, pimentinha, brasil, tatagiba, vinhático, roxinho, jacarandás de diferentes qualidades, jiriquitim, louro, guarabu-açu semelhante ao sebastião-arruda, [mas que] em lugar de vermelho tem as ondas sobre-escuras.

11. Sesmarias

O governo, por carta régia de 17 de janeiro de 1814, é autorizado para conceder sesmarias[ 26 ] e, com efeito, as tem concedido [em número de] cento e setenta e quatro, sendo cada uma de meia légua quadrada[ 27 ] (excetuando algumas) das quais a maior parte não está nem cultivada, nem confirmada,[ 28 ] pertencendo todas a súditos brasileiros.

No rio Doce e margens de Juparanã estão concedidas oitenta e duas, das quais apenas são cultivadas duas, e nenhuma confirmada. Em Monsarás há duas não confirmadas. Em Aldeia Velha, compreendendo a povoação do Riacho e Nova Almeida, há uma toda cultivada de doze léguas [de comprimento] e seis de fundo pelo sertão, concedida a 6 de novembro de 1610 pelo donatário Manuel Garcia Pimentel aos índios destas aldeias, confirmada pelo alvará de 2 de janeiro de 1759; há dentro desta uma de meia légua concedida pelo governo em razão de não estar por eles cultivada, a qual inda não está nem cultivada, nem confirmada. Na freguesia da Serra há sete cultivadas, mas uma só confirmada. No termo da Cidade há quatorze cultivadas, mas só quatro confirmadas.

Na povoação de Viana, à esquerda do rio Santo Agostinho, há cinqüenta [sesmarias] de 112 braças de testada e 500 de fundo cada uma concedida pelo governo em 1812 aos colonos vindos das ilhas dos Açores por ordem da polícia de 17 de novembro daquele ano, as quais são cultivadas e confirmadas; há mais seis não confirmadas, porém cultivadas, pertencentes aos descendentes dos mesmos.

Em Guarapari há uma só cultivada, mas não confirmada. Em Benevente[ 29 ] há dez cultivadas, e destas só duas confirmadas. Em Itapemirim há seis cultivadas, e destas só três confirmadas. Na Estrada de Minas há uma só, de quarto de légua, cultivada e não confirmada.

O cumprimento exato das leis relativas a sesmarias talvez pusesse a maior parte delas em mãos de quem as trabalhasse e cultivasse.

Há na província porções de território denominados indivisos,[ 30 ] isto é, terrenos em que muitos têm posse sem saberem o quantum nem o ubi,[ 31 ] mas as porções lavradas deles lhes pertencem particularmente, e só as perdem passando 10 anos sem as cultivar. Desta sorte cada um dos possuidores procura lavrar muitas terras para lhes chamar suas, e com elas crescendo a ambição, e não podendo cultivar tantas, se tornam capoeiras; outro as roça com o mesmo intento — eis a origem das demandas em que se despedaçam, puxando cada um todas as pontas, que lhe subministra[ 32 ] a sua ambição e a chicana[ 33 ] ordinária. O meio de evitar tais pleitos era demarcar e dividir o indiviso na proporção do que cada um tem nele. Esta divisão não pode ser feita por juízes leigos, e só o poderia ser sendo geômetra, e por isso seria bom haver para este fim um juízo privativo, para que tais divisões se fizessem de modo que cada um tivesse igual parte nas vantagens, inconvenientes e desigualdade das terras, e no bem ou mal que produzem, sendo preciso que em terras variáveis e sujeitas a inundações as porções desiguais em quantidade difiram em qualidade: uma braça de terra, por exemplo, que produz 100 por 1 equivale a duas que produzam 50 por 1. Por tal juízo se devem fazer as medições, e não se confiar em simples pilotos[ 34 ] e infiéis bússolas e cordas.[ 35 ] Seria também muito bom que ninguém chamasse sua certa porção de terras sem ter a planta delas, registrada no mesmo juízo onde se notariam as vendas e compras; e da reunião destas cópias se formaria exata e insensivelmente a topografia do país. Para se fazer alguma idéia basta dizer que o indiviso que pertence a vários, fuão[ 36 ] tem 1$000 réis[ 37 ] e fuão tem 16$000 réis, e outro tem igual, maior ou menor parte, e com igual direito; ignora-se se em outras províncias do Império acontece o mesmo. Os indivisos mais notáveis são os seguintes: Campo Grande de 4 léguas quadradas com pouca diferença, Carapina e Laranjeiras 3 quadradas, Costa da Praia 2 léguas quadradas, Curipé e Mulundu duas quadradas, e quase todo o terreno da ilha da Vitória que contém ¾ de légua quadrada.

Além das terras ditas há as fazendas do Conde de Vila Nova de São José junto ao rio de Guarapari de 4 léguas de costa de mar; a Muribeca de 9 léguas de costa de mar e 8 de fundo; a fazenda dos Falcões denominada Araçatiba, de 2 léguas quadradas à margem do Jucu e a fazenda Jacaruaba de 2 e ½ léguas de comprimento e 2 de largura, que foram dos extintos jesuítas, e provavelmente concedidas pelos donatários, como sempre o fizeram, dando, aforando e vendendo como lhes convinha qualquer parte do território e marinhas.

As câmaras se arrogaram o direito de conceder foros sem princípio ou motivo, mas este procedimento foi mandado obstar pelo governo.

12. Agricultura

É a agricultura em que se emprega a mor parte dos habitantes da província, onde com preferência se cultiva a cana-de-açúcar, mandioca, algodão, milho, café, feijão e arroz; o único meio de preparar as terras para este fim é roçar, derribar, queimar, depois de secas suficientemente, e plantar.

Preferem-se as terras baixas e alagadiças para arroz, e matos virgens para mandioca, porque nestes são mais volumosas as raízes e se conservam mais tempo incorruptíveis quando a falta de tempo não lhes permite colher no próprio, além de que em matos virgens se faz até três plantações sem incômodo das formigas, que em terra velha não deixa vicejar a planta; quanto para as mais plantações todo o terreno é bom, com pouca diferença.

O valor das terras é mui variável e dependente do seu estado, da sua posição e do seu benefício, podendo-se computar em 500$000 réis uma sesmaria de meia légua quadrada. As primeiras plantações se fazem de março até abril, e as segundas de setembro até outubro, não esquecendo a lua nova que muitos querem que influa nelas. A sua colheita se faz sem a menor arte.

Os transportes se fazem em carros com bois, em cargas com animais cavalares e a maior parte se transporta em canoas símplices.[ 38 ]

Os instrumentos de que se servem para as plantações são enxadas, foices, facões e machados.

Os agrícolas pouco ou nada se empregam em plantas alimentárias; sem embargo fazem alguns mais curiosos suas plantações de abóboras, alfaces, batatas, couves, ervilhas, favas, mostardas, inhames, repolhos, pepinos, melões, melancias, ananases, mandubis,[ 39 ] gergelins, bananeiras de árvores frutíferas, laranjeiras, limeiras, limoeiros, cidreiras e figueiras, mangueiras, jaqueiras, romeiras, tamarindos, coqueiros de diferentes qualidades, sendo espontâneas as goiabeiras e cajueiros, agriões, beldroegas, bredos, serralhas e erva-moura.

Acham-se também muitas plantas medicinais como artemísia, alecrim, arruda, malvas, avenca, babosa, alfazema, mechoacão ou batata-de-purga, boas-noites, salsaparrilha, cardo-santo, cocleária, mastruço, chicória, dormideira, endro, saião, feto-macho, grama, erva-de-bicho ou cataia, erva-capitão, lírio-de-florença, quina, labaça-aguda, língua-de-vaca, orjevão, parietária, sabugueiro, salsa-da-praia, tanchagem, trevo-azedo, balsameira, almecegueira, fedegoso, pau-de-óleo, pariparoba ou capeba, poaia, joanésia, copaibeira, bicuíba, pinhão-purgante, jandiroba-oleoso, fumo-bravo ou saçoaiá ou erva-colégio, mentrasto, maririçó, cordão-de-frade, bucha-dos-paulistas; especiarias como a alfavaca, alhos, manjeronas, baunilha, salsa, cebolas, coentro, erva-doce, gengibre, hortelã, pimentas de todas as qualidades, pau-cravo, cuja casca tem o próprio aroma de cravo-da-índia.

Também se acham em algumas hortas as flores boninas, bem-me-queres, malmequeres, saudades, cravos, cravelins, cravos-de-defunto, esporas, jasmins, girassol, melindres, perpétuas, rosas cheirosas e da índia, suspiros, angélica, sensitivas, açucenas e alecrim.

Também se acham tinturarias como açafrão e casca de arariba que produzem escarlate com pedra-ume; urucum e a casca de aroeira, que produzem vermelho; tatagiba que produz amarelo; guaraúna, cujo cozimento é preto; pacoba que produz roxo; pau-brasil e casca do ingá que produzem vermelho; casca de sapucaia-mirim que faz roxo, e com lama faz preto; fruta do pau-ferro que é talvez a verdadeira noz-de-galha; o anil, que já aqui se fabricou muito e se desusou este ramo de comércio porque houve anos em que as folhas foram todas estragadas por nova espécie de insetos, que talvez agora não apareçam; um arbusto no Porto de Souza cuja maceração das folhas produz lindíssimo roxo, não se lhe sabe o nome e nem se descreve por falta de tempo, e não se achar com prontidão que se deseja.

Também se encontram plantas venenosas como o tingui, tipi, oficial-de-sala, esponja, aqui chamada coronha-triste[ 40 ] e outras muitas.

As de fiação são as seguintes: algodão, tucum, gravatá e piteira. O tempo de florescência é em setembro e da maturação, abril e maio. Viveiros de plantas unicamente se faz para café, que desta província não é o melhor, e de fumo, que também se cultiva no país, sendo tão pouco que é gênero que inda se importa. São nocivas às plantações a paca, o caititu, a cotia, os porcos-do-mato, os guaxinins, a maitaca, a nandaia, o papa-juá, que comem as espigas de milho e algodão antes de sazonado,[ 41 ] o grumará e a rola que arrancam o grão do milho e do arroz quando começa a nascer, o papa-arroz que o come desde que começa a granizar,[ 42 ] as lagartas de diferentes cores, a formiga, que é imensa, o grilo, o tortulho, que debaixo da terra se transforma em inseto e come a raiz das plantas, o gorgulho, de nome provisório, de figura de um percevejo preto que se cria no feijão e o arrasa, e finalmente a broca que fura todo o pau. Ora, estes inimigos, o sistema de queimar as terras depois de escalvadas, a nenhuma arte de adubá-las faz que seja módico o rendimento da lavoura que já seria nulo se não houvesse ainda muitas matas a derribar e queimar, isto é, para estragá-las.

Não há estabelecimento algum de agricultura e coudelaria.[ 43 ]

O milho produz 50 por um alqueire[ 44 ] e custa em termo médio 440. O arroz 100 por um alqueire que custa a 320. O feijão 40 por um alqueire que custa 1$200, e o algodão 25 por uma arroba[ 45 ] que custa 960 réis. O arroz se planta com palmo e meio de intervalo, o feijão com três palmos, o milho com cinco e o algodão com seis; donde se vê que há desvantagem em plantar algodão, mas é compensada porque quando se planta o milho ou feijão, se planta o algodão, e este fica quando algum daqueles se colhe. A braça quadrada dá nove covas de mandioca; dezesseis covas dão um alqueire. Um carro de cana caiana plantada dá vinte e cinco carros; cada carro de cana dá duas arrobas de açúcar. Um carro de milho descascado dá vinte alqueires. O feijão, arroz e milho dão de três meses; o algodão e mandioca de ano, e a cana de ano e meio.

Tal ou qual particular tem em sua casa dois ou três cortiços,[ 46 ] talvez só por ter. Pela Tabela da Exportação ao fim se vê que os gêneros produzidos excedem às necessidades do país.

13. Animais

Uma parte dos lavradores se emprega também na criação do gado de diferentes espécies, de maneira que há na província, com pouca diferença, oito mil cabeças de gado vacum, dos quais se mata semanalmente nos açougues 10. Nenhuns são empregados na lavoura, mas do gênero masculino, que serão três mil e quinhentos, se empregaram mil e quinhentos em fábricas de açúcar e algumas conduções em carros. O seu alimento ordinário é o capim, que nasce naturalmente nos baldios ou em prados artificiais, nos quais se têm sem separação alguma, nem de sexo, nem de idade. O preço médio de um boi é 14$000 réis e o seu peso oito arrobas; o preço de uma vaca é 12$000 e seu peso seis arrobas. As suas moléstias são a bicheira, procedente de qualquer arranhadura, onde as moscas depositam os seus ovos, donde saem as varejas[ 47 ] que, estimulando e correndo as carnes, chegam a aumentar a chaga, emagrecer e matar o animal — a sua cura ordinária é o mercúrio doce que as mata; a papeira, que é uma inflamação na mandíbula inferior que cresce e faz emagrecer o gado até morrer — a sua cura é queimar com ferro em brasa e curar a chaga resultante com algum dessecante, ou folha, ou casca adstringente como a de aroeira ou outra qualquer; o carbúnculo, que faz inchar o gado e morrer ficando com as unhas abertas — ignora-se remédio para este mal; a falta de pastos faz também que o gado sôfrego não escolha pasto e assim come com ele ervas venenosas que o matam. O gado cavalar em ambos os sexos monta a 1.060, sendo do gênero feminino 430, e o preço médio destes é a 20$000 réis e daqueles 32$000; as suas espécies são guinilhas,[ 48 ] mestiços e sendeiros;[ 49 ] o seu sustento é igual ao do gado vacum, nenhum é empregado em fábricas, tais e quais se empregam em cargas, e tal ou qual é ferrado e de estrebaria.

O gado muar em ambos os sexos não excede a 100, o seu preço médio 32$000 réis, metade se emprega em fábricas e metade em transportes. O gado caprino há 200 de ambas as espécies, nenhum se mata nos açougues e o seu preço é 1$280 [réis]. Gado ovelhum há dois mil, nenhum vai ao açougue e o seu preço é 1$000 réis. Porcos há 800, é raro o que vem ao açougue, seu preço 8$000 réis e a libra[ 50 ] a 60 réis.

As galinhas de ambos os sexos custam a 480 réis e há 4.000 cabeças, e poucas as chamadas da índia. Patos custam a 320 e há 1.000. Perus custam a 880 réis e há 200. Marrecos custam a 320 e há 1.000. Capões custam a 560 e há 100. Frangos custam a 120 e há 6.000. Pombos custam a 120 e há 300.

Há na província muitos animais de caça, sendo os mais triviais macacos de diferentes espécies, raposas, onças, quatis, lontras, ouriços, lebres, coelhos, veados, porcos-do-mato, tamanduás, preguiças, antas, tatus, cotias; araras, papagaios, garças, mergulhões, pombas; tartarugas, cágados, lagartos. Também há muitos [animais] de pesca como são a arraia, peixe-prego, lixa, tubarão, cação, moréia, peixe-rei, peixe-espada, pescadas, galos, gudião, sarda, cavala, carapiá, salmonete, cabrinha, cornuda, tainhas, sardinhas. Insetos: besouros de diferentes qualidades, carochas, baratas, gafanhotos, grilos, louva-a-deus, percevejos, borboletas de todas as qualidades, traças, vespas de diferentes qualidades, abelhas, formigas, moscas, mosquitos, piolhos, pulgas, escorpião, lagostas, camarões. Vermes: minhocas, sanguessugas, lesmas, polvos, estrelas-do-mar e ouriço-do-mar, berbigão, mexilhão, búzios, caracóis, conchas, esponjas. Répteis: sapos, rãs, cobras de diferentes qualidades. Além dos acima mencionados existem muitos cuja zoologia ocuparia muitos anos e, talvez, muitos volumes.

14. Minas e pedreiras

Ao ex-capitão-mor desta província João de Velásquez Molina em 1693 foi anunciada a existência de ouro nas margens do rio Doce, junto ao córrego do Ouro Preto, e lhe foram apresentadas três oitavas dele que, recebendo a câmara, mandou fazer duas memórias:[ 51 ] uma para o capitão-mor e outra para o anunciante Antônio Dias Arzão, natural de Taubaté, homem empreendedor, que se recolhia[ 52 ] desse sítio com cinqüenta homens de sua comitiva; nesta ocasião se lhes prestaram o que lhes era necessário para nova entrada dos sertões. Esta foi a primeira descoberta de ouro nesta província.

Pedro Bueno Cacunda descobriu as Minas do Castelo em 1732 às margens do rio Itapemirim, doze léguas da barra, e participando ao capitão-mor desta vila, este lhe mandou ali estabelecer um arraial, nomeando provedor, tesoureiro e escrivão para melhor arrecadação dos direitos, e como trabalhavam sem arte alguma, dificultando-se a extração deste metal, e sendo incomodados do gentio, se foram retirando, de sorte que atualmente nenhum morador tem. É de fato ter recebido a extinta Provedoria em 1738 cento e vinte e uma oitavas. Consta que chegaram a ter cinco povoações, cuja maior parte formaram a vila de Itapemirim.

Em 1614 Marcos de Azeredo Coutinho foi encarregado por Sua Majestade (que então governava Portugal) com promessas de mercês de descobrir as Minas das Esmeraldas de que lhe tinha pessoalmente mostrado as amostras; e em 1644 ordenou Sua Majestade Fidelíssima a Francisco do Souto Maior auxiliasse o descobrimento e entabulamento[ 53 ] das ditas minas, de cuja existência estava informado, podendo levar os dois filhos de Marcos de Azeredo, os padres Inácio de Siqueira e Francisco de Moraes, e os índios que precisassem com licença dos padres; ignora-se porém o resultado de tais comissões, e só se sabe que o dito Marcos faleceu em 1618. São estas as únicas notícias que há de minas na província, sendo certo haver muitos e muitos lugares mais ou menos ricos de ouro, especialmente nas vertentes dos rios que deságuam no Jucu, no Juparanã, nas cabeceiras de Itapemirim, nas vertentes de Santa Maria, rio Castelo, etc. e ouro muito, e muito puro.

Não consta de minas de ferro, pois alguma pedra que contém algum óxido é em tão pequena quantidade, que não faz supor existência deste metal; nem tão pouco consta de outro algum mineral. É muito provável haverem muitos produtos, e talvez abundantes, o que se não tem explorado, sendo muito triviais cristais de rocha, com algumas variedades como ametistas.

15. Curiosidades naturais

No rio Doce foi achada uma figura petrificada de homem com mãos na cintura por João Felipe de Almeida Calmon, ignora-se a sua perfeição, e o gênero de pedra, e se existe.

Em 1815 foi achado um hipopótamo da grandeza de um cavalo, e com cauda de sete varas no rio da vila nova de Almeida, encalhado com a vazante.

Em muitos lugares da província há grutas, que não têm aqui lugar por nada conterem de notável nem pela sua regularidade e forma, nem pela matéria de que são formadas, servindo até aqui de asilo de alguns escravos fugidos, bem como a conhecida no morro da Lapa denominada de Pai Inácio. Quantos destes objetos terão sido desprezados pela ignorância!

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NOTAS

[ 1 ] Antiga unidade brasileira de medida itinerária, equivalente a 3.000 braças, ou seja, 6.600m.
[ 2 ] Antiga denominação comum aos tribunais de justiça de segunda instância.
[ 3 ] Qualidades.
[ 4 ] Vento que sopra em direção normal à costa, ou em direção normal ao rumo seguido pela embarcação.
[ 5 ] Faltos de vegetação; áridos, estéreis, calvos, descalvados.
[ 6 ] Relativa ao quartzo, ou que tem a natureza dele.
[ 7 ] Que contém mica ou é da natureza dela.
[ 8 ] Antiga unidade de medida de comprimento, equivalente a cinco palmos, ou seja, 1,10m.
[ 9 ] Região, terra, território.
[ 10 ] Quando o autor escreve a palavra Cidade com inicial maiúscula refere-se a Vitória, única localidade espírito-santense possuidora deste atributo na época em que o texto foi produzido, o que recomenda manter esta grafia.
[ 11 ] Que contém alúmen.
[ 12 ] Antiga unidade de medida de comprimento, equivalente a oito polegadas , ou seja, 22cm.
[ 13 ] Antiga unidade de medida de comprimento equivalente a dez palmos, ou seja, 2,2m.
[ 14 ] Grandes pilares de alvenaria.
[ 15 ] Atual baía de Vitória.
[ 16 ] Estreito.
[ 17 ] Que não oferece abrigo para embarcações.
[ 18 ] Fase da maré entre a baixa-mar e a preamar seguinte.
[ 19 ] Homem que conhece minuciosamente os acidentes hidrográficos de áreas restritas, e que com esses conhecimentos conduz embarcação através dessas áreas.
[ 20 ]&nbspDesabitadas.
[ 21 ] Cultivados, habitados.
[ 22 ] O ponto cardeal Sul.
[ 23 ] Atual município de Vila Velha.
[ 24 ] Com muitos animais a esmo?
[ 25 ] Mencionado, referido.
[ 26 ] Lote de terra inculto ou abandonado, que os reis de Portugal cediam a sesmeiros que se dispusessem a cultivá-lo.
[ 27 ] Légua de sesmaria – antiga unidade de medida de superfície agrária, equivalente a um quadrado de 3.000 braças de lado, ou seja, 4.356ha.
[ 28 ] Os sesmeiros só recebiam do governo a confirmação de suas terras após ocupá-las e cultivá-las.
[ 29 ] Atual município de Anchieta.
[ 30 ] Não dividido; que pertence cumulativamente a vários indivíduos.
[ 31 ] Sem saberem o tamanho e a localização exata.
[ 32 ] Fornece, ministra.
[ 33 ] Sutileza capciosa, em questões judiciais.
[ 34 ] Agrimensores, medidores de terras.
[ 35 ] Antiga unidade de medida de comprimento equivalente a 15 palmos, ou seja, 3,3m. Por extensão, instrumento de medição que tinha esta medida ou múltiplos dela.
[ 36 ] Forma sincopada de fulano.
[ 37 ] O sistema monetário da época pode ser assim exemplificado: 1 real, 10 réis, 100 réis (ou um tostão), 1$000 (mil-réis), 100$000 (cem mil réis), 1:000$000 (um conto de réis).
[ 38 ] Simples.
[ 39 ] Amendoins.
[ 40 ] Existe dicionarizada a palavra coroa-crísti.
[ 41 ] Pronto para se colher (fruto); maduro, amadurecido.
[ 42 ] Dar forma de grãos a.
[ 43 ] Haras – campo ou fazenda de criação de cavalos de corrida; caudelaria.
[ 44 ] Antiga unidade de medida de capacidade para secos, equivalente a quatro quartas, ou seja, 36,27 litros.
[ 45 ] Antiga unidade de medida de peso, equivalente a 32 arráteis, ou seja, 14,7kg, aproximadamente.
[ 46 ] Caixas cilíndricas, de cortiça, nas quais as abelhas se criam e fabricam o mel e a cera; colméias.
[ 47 ] Designação vulgar dos ovos da mosca-varejeira, antes de atingirem a fase de larva.
[ 48 ] Cavalos de andadura pesada, ou que andam pouco.
[ 49 ] Diz-se de, ou os cavalos de carga, robustos, mas de corpulência escassa.
[ 50 ] Unidade de medida de massa, igual a 0,45359237kg, utilizada no sistema inglês de pesos e medidas.
[ 51 ] Anéis comemorativos.
[ 52 ] Que voltava para casa.
[ 53 ] Início de exploração.


[Reprodução autorizada por Fernando Achiamé.]

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© 1978 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Inácio Acióli de Vasconcelos foi o primeiro presidente da província do Espírito Santo e governou de 1824 a 1829, período em que a província atravessava grande dificuldade econômica e decadência geral das instituições. A partir de 1858, como primeiro tenente, foi comandante do navio de guerra Ibicuí, da Marinha do Brasil.
Fernando Achiamé nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Autor: Padre Francisco Antunes de Siqueira  Edição de texto, estudo e notas: Fernando Achiamé   Introdução O culpado pela...




Autor: Padre Francisco Antunes de Siqueira 
Edição de texto, estudo e notas: Fernando Achiamé  

Introdução


O culpado pela elaboração deste trabalho é Reinaldo Santos Neves. Há mais de dez anos me entregou uma transcrição de artigos publicados de forma anônima no jornal A Província do Espírito Santo em 1885. Pediu que fizesse um breve estudo sobre eles, adiantando que faltavam algumas partes que não pudera obter. O estudo e a transcrição seriam publicados pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida, em cuja editora Reinaldo trabalhava na época. Fui logo lendo a transcrição. Achei a obra muito interessante e interessado fiquei em localizar as partes faltantes (cinco artigos ao todo) e preencher as poucas lacunas da transcrição. E, é claro, descobrir o autor do escrito.

Os artigos que faltavam (de números 14, 15, 16, 24 e 26) foram facilmente obtidos, bem como preencheram-se as lacunas da transcrição, no acervo de microfilmes do Arquivo Público Estadual que por essa época já tinha microfilmado (em conjunto com a Biblioteca Nacional) os jornais mais antigos da nossa terra. Aproveitei para corrigir alguns trechos incorretos da transcrição. Já estava completamente tomado pela obra e comecei a conversar com ela procurando resposta para minha pergunta fundamental: “Quem te escreveu?” Não demorei muito a descobrir o autor da façanha entre os escritores capixabas do século passado. Acredito mesmo que o padre Francisco Antunes de Siqueira (filho) queria encobrir-se, ma non troppo. Levantei passagens significativas da vida do ilustre capixaba em jornais da época e em livros de história espírito-santense. Cotejei a obra em causa com outra do mesmo autor para comprovar a atribuição, esbocei as partes da presente crítica e… larguei o trabalho de lado, embora pensando nele de vez em quando.

Tencionava pesquisar no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro os processos de habilitação de genere e vita et moribus, já que a figura em causa era padre secular. Aliás cheguei a ter em mãos os referidos processos em 1995 em rápida estada naquela cidade, fiquei de voltar no dia seguinte para fazer uma transcrição das suas peças principais, mas encontrei o arquivo fechado, helas. Este negócio de a gente querer sempre fazer um trabalho muito perfeito e completo resulta em que não se faz trabalho algum. Usava a consulta aos citados documentos como uma desculpa para ir adiando a elaboração desta crítica de atribuição.

Ano passado tive oportunidade de consultar os referidos processos e perante mim mesmo a desculpa não mais existia. Também ano passado, num lançamento literário, o Reinaldo, após mais de dez anos de cobrança (com a média de duas tentativas anuais para me arrancar o trabalho), lança o repto: “Termine o estudo sobre o texto do padre. Você é um homem ou um pé de alface?” E isto na presença de outras pessoas. Uma conhecida até brincou: “Mais de dez anos? Reinaldo, você é muito paciente!” Gosto de alface, mas não a ponto de querer ser um pé de.

Assim, aqui vai o que foi possível fazer. Pela demora e pelos eventuais erros o culpado sou eu, exclusivamente.

Fernando Achiamé.

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Pe. Francisco Antunes de Siqueira nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: A Província do Espírito Santo (Poemeto), Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense,  Memórias do passado: A Vitória através de meio século. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Fernando (Antônio de Moraes) Achiamé nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)



Vista geral de Rio Novo, 1912. Associação Colonial do Rio Novo O texto desta publicação é a propaganda oficial que atraiu os suíços p...

Vista geral de Rio Novo, 1912.
Vista geral de Rio Novo, 1912.

Associação Colonial do Rio Novo

O texto desta publicação é a propaganda oficial que atraiu os suíços para Rio Novo. Foi publicado em português, francês e alemão, datado de 14 de fevereiro de 1854. O original ficou guardado com a família Rohr. Com a movimentação dos descendentes dos suíços, Valdenir Rohr o descobriu no fundo de um velho baú.

Este trabalho é uma contribuição ao resgate histórico da saga e da luta que 46 suíças e 44 suíços que deixaram sua Pátria e chegaram a Itapemirim no dia 21 de dezembro de 1856, depois seguiram para Rio Novo. Hoje os 90 são milhares, suíços/suíças brasileiros/brasileiras ou brasileiros/brasileiras suíços/suíças. Homenagem aos 90 pioneiros e pioneiras, aos milhares de descendentes e em especial aos que valorizam os antepassados e mergulham na sua História.

A ação é em nome de minha esposa Eliane e nossa família que tem o sangue dos Stauffer, Kobi, Laiber, Scheidegger e Scherrer.

Ronald Mansur
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Breves reflexões a respeito das vantagens que oferece a Colônia Rio Novo pela fertilidade do seu terreno e sua posição topográfica, e das favoráveis condições para os colonos que nela quiserem estabelecer-se, seguida de um cálculo aproximado da renda presumível de uma família anualmente

Se examinarmos com atenção quanto se há escrito sobre a verdadeira fonte da riqueza pública em todo o mundo conhecido, veremos claramente que ela provém da agricultura; e se procurarmos indicar onde o trabalho agrícola é melhor compensado, pela abundancia de produtos, conheceremos logo que o solo brasileiro é um dos do Globo que oferece ao homem laborioso o maior premio de seu trabalho.

A quase constante primavera deste país em quase todo o seu litoral e centro, a sua suave temperatura atmosférica, a sua fertilidade e constante vegetação enfim, são condições bastante para o viver indolente de uma grande parte de sua população que não aspira riquezas; assim como o meio mais fácil para a formação de crescidas fortunas.

Por toda parte do Brasil vemos casas opulentíssimas, criadas pelo fruto do trabalho pessoal de seus fundadores, ao passo que se encontra em algumas povoações muitos habitantes que mais ou menos aspirando só ao pão de cada dia, e o humilde vestuário, desafiados pela decência que a seu modo guardam, do que pelas intempéries, vivem muito satisfeitos, e como que felizes porque tudo logram da fertilidade da terra com pouco trabalho.

Vemos, entretanto, a par destes indolentes habitantes, alguns indivíduos laboriosos que apenas com o recurso de sua própria força e vontade sustentam as famílias de que são chefes, com o produto de sua lavoura, e todos se julgam felizes, porque tem o necessário para viverem, e ainda lhes sobra! E em que lugar da Europa pode conseguir-se semelhante vantagem? De certo em nenhuma parte se encontram condições, e uma fertilidade tal, que permita a um individuo, muito embora laborioso trabalhador, o viver com sua família em abundancia, com a decência inerente a sua posição social, e segundo os usos das localidades em que residem, entretanto, vemos dar-se isto no Brasil para com todos os indivíduos honestos e amantes do trabalho.

Se visitarmos as fazendas onde se faz o plantio da cana para o fabrico de açúcar, encontraremos pais de famílias agregados a essas fazendas, que por consentimento dos seus proprietários das mesmas, só com os seus braços e de suas famílias, cultivam terra para milho, feijão, arroz e mandioca: e lhe resulta deste trabalho as quatro espécies de mantimentos mais preciosos ao sustento de uma casa em todo o ano; e ainda vendem sobras. A mesma família cultiva também terra para cana, e deste trabalho resulta o açúcar para o seu gasto anual, e para vender, a fim de remediar suas precisões. Trata de uma maior ou menor porção de cafeeiros, dos quais colhe certo numero de arrobas de café, do que podem obter dois ou três mil cruzados; e além dessas vantagens, pode essa família criar galinhas, perus e outras aves, assim como pode criar boi, o cavalo, porcos, carneiros, etc.

Se visitarmos as fazendas propriamente de café, aí veremos destes agregados, com suas casas abundando de todos os mantimentos, com criações domésticas de toda espécie e bem boa renda proveniente do café que cultivam e do que colhem a meia dos cafezeiros do fazendeiro.

Se visitarmos outras localidades, onde não há agregados, e sim pequenos lavradores proprietários, ai os encontraremos com bem lindas e produtivas situações das quais podem tirar amplíssimos meios de subsistência, tendo mais que os agregados da fazenda, o valor destas situações na porção de alguns mil cruzados. Dito isto, em geral, consideremos o que há quanto a outras condições que concorrem na Colônia Rio Novo; e quanto à fertilidade do seu terreno.

A Vila de Itapemirim fundada na margem Sul do rio do mesmo nome, abrangem seu Município muitos terrenos e importantes estabelecimentos agrícolas situados nas margens do mesmo rio, e os produtos agrícolas daquele importante e populoso Município são exportados diretamente para o Rio de Janeiro, nas embarcações que frequentam o Porto da mesma Vila de Itapemirim, do qual Porto vai ao Rio de Janeiro se vai em 36 horas tendo vento regular e favorável.

Ao Sul de Itapemirim, seis léguas, desemboca no mar o rio Itabapoana cuja margem norte pertence ao Município de Itapemirim. As margens deste rio abundam de excelentes terrenos e os seus produtos vão igualmente em direção para o Rio de Janeiro nas embarcações que frequentam o Porto de Itabapoana, nome que tem uma povoação ali fundada, em ambas as margens daquele rio próximo a sua foz.

Ao Norte de Itapemirim. 4 léguas, deságua no mar o rio Piúma pertencente em parte a Itapemirim, e em parte ao Município da Vila de Benevente; e nas margens deste rio e nas de seus confluentes, há excelentes terrenos nas melhores condições para a agricultura: os produtos dessa localidade são igualmente exportadas para o Rio de Janeiro nas embarcações que navegam para o Porto de Piúma, nome que tem a povoação fundada na margem sul daquele rio, muito próximo a sua foz.

Ao Norte do Piúma, duas léguas, está a Vila de Benevente, situada na margem norte do rio do mesmo nome; o qual tem ótimos terrenos em suas margens, e tudo quanto produzem é exportado diretamente para o Rio de Janeiro, nas embarcações que constantemente entram no Porto da dita vila.

Pelo que fica dito conhece-se que no espaço de doze léguas de costa de mar existem quatro Portos exportadores que recebem continuadamente as embarcações empregadas na condução de produtos agrícolas desses Portos para o grande mercado do Rio de Janeiro; e por conseguinte, há sempre não só prontos meios de comunicação por mar e terra, como transporte fácil e pouco dispendioso para os indivíduos que pessoalmente precisam ou precisarem ir desses lugares a Cidade do Rio de Janeiro e vice-versa arranjar seus negócios.

Tantas vantagens ao mesmo tempo, e tantos meios de viver felizmente e de adquirir fortuna, são por certo ignorados da maior parte das populações Europeias; as quais, para viverem ali honestamente e remediar suas necessidades, trabalham sem cessar, sujeitas as privações inauditas; e quantas misérias acometem essas populações quando faltam cerceais e trabalho para do seu fruto se manterem? Causam horror as narrações que a semelhante respeito nos fazem os viajantes que em tais ocasiões se tem achado nas localidades onde se passam essas cenas de dor.

Para suavizar a misera existência de milhares de indivíduos que tanto sofrem nos diferentes pontos da Europa, e mesmo para melhorar a fortuna dos que já possuem algum cabedal, acha-se o Império do Brasil com os braços abertos, e pronto a receber esses indivíduos e sua famílias, as quais com seus chefes, encontrarão a par do melhor acolhimento dos brasileiros, o seu bem estar presente e a sua futura prosperidade, uma vez que ponha do seu lado o amor ao trabalho, perseverança e boa  diligencia.

Com estas condições poderão todos os indivíduos laboriosos lograr muita satisfação domestica, abundancia em suas casas e o crescimento quotidiano da sua fortuna; e na presença de tantas circunstâncias favoráveis, porque, vós habitantes dos diferentes pontos da Europa, que viveis com tanto trabalho sem a menor esperança de melhorar vossa sorte e de vossas famílias: sem um presente e sem um futuro, não vindes gozar do abençoado solo brasileiro de tantas vantagens que ele vos oferece? Falta-vos resolução para deixardes a Pátria? Pois bem, considerais a Pátria impossibilitada de manter tantos filhos, e que vós não podeis viver jamais do gozo necessário; que não tereis jamais a vossa disposição os meios indispensáveis para vencer as muitas dificuldades da vida, que por mil modos vos acometem, e obstam a que vivais, já não digo felizes, mas regularmente; e conhecereis a necessidade de passardes pela dor, que tantos outros têm passado, de separar-vos do lugar que vos viu nascer, a fim de virdes gozar, durante o resto dos vossos dias, das vantagens que a todos oferece este vasto país, onde achareis de pronto a estrada do vosso bom futuro, e de vossas famílias. Após estas considerações estou certo que concordareis na retirada.

Faltam-vos os meios para realizar a empresa da vossa mudança? Pois bem, eu por mim ou por intermédio de outrem, vos fornecereis estes meios para retribuirdes com suavidade pelo fruto de vosso trabalho: eis tudo quanto agora precisais, e depois que chegardes a mim, tereis os meio que vos hão de ser precisos para começardes os vossos estabelecimentos de que tereis certamente uma renda superior a vossa despesa bem regulada; e tereis sobras para satisfazerdes os vossos compromissos, e acrescentardes cada vez mais as vossas nascentes fortunas.

Nas margens dos rios Itapemirim, Novo, Itapoana, Iconha e seus confluentes ribeiros, acha-se fundada uma Colônia sob os auspícios da Associação Colonial do Rio Novo; e tal Colônia esta disposta para receber em seu seio, todos os indivíduos de ambos os sexos que da Europa, indistintamente, Ilhas da Madeira, Canárias e outras, quiserem fazer parte da população da mesma Colônia.
Paisagem às margens do rio Novo. 1912.
Paisagem às margens do rio Novo. 1912.
As vantagens que a Colônia oferece quanto a sua localidade e quanto a fertilidade dos seus terrenos são:

1ª Estarem os terrenos onde se acha fundada a Colônia Rio Novo, distante do Porto da Vila de Itapemirim apenas 3 léguas, e poderem os produtos da mesma Colônia levar-se ao dito Porto; embarcando em canoas ou em pequenas barcas no rio Itapemirim, onde chega a Colônia, ou no Rio Novo que cruza por dentro dela; e, em qualquer dos casos há a grande vantagem de conduzir-se grande números de arrobas com o emprego da força de dois homens: se o produto agrícola for para o Porto de Itapemirim, os seus condutores farão, como fazem, a viagem de ida e volta em um só dia; e se forem para Piúma, em alguns casos, gastarão o mesmo tempo, e n’outros um dia e meio.

2ª Estar o Porto de Piúma a duas léguas do começo da Colônia, e ai, como no de Itapemirim se realizar a importação de gêneros e fazendas necessárias a Colônia, podendo seus habitantes ir aqueles pontos arranjar seus negócios e voltar para suas casas em poucas horas: mais ou menos segundo as distancias a que residem.

3ª Está o Porto da Vila de Benevente, a 3 léguas de distancia e a ele podem concorrer os habitantes da Colônia para seus arranjos, e voltar para as suas casas no mesmo dia. Estas três condições muito concorrerão para o aumento de prosperidade dos habitantes da Colônia Rio Novo, colocada tão vantajosamente no centro dos três Portos de mar que ficam mencionados, e esse aumento de prosperidade é bem palpável, se atendermos a circunstancia de poderem os habitantes laboriosos poupar os muitos dias de trabalho que perderiam se lhes fossem necessário ir a maiores distancias arranjar o que necessitassem em suas casas; assim como se atendermos a grande economia no transporte de seus gêneros que neste caso só basta embarcá-los nas proximidades dos seus estabelecimentos, em pequenas canoas ou barcas, e os conduzirem pelo rio até o Porto de Piúma, para o que terão toda facilidade.

Ainda outra comodidade para todos os habitantes da Colônia se faz muito palpável, e é que todo o individuo que necessitar ir ao Rio de Janeiro, para onde se exportam todos os produtos da Colônia, terão sempre, em qualquer dos Portos mencionados, as embarcações empregadas na condução desses produtos; e deste modo farão sempre a viagem a Corte com pouco dispêndio e sem trabalho; e ainda esta comodidade de se tornará mais saliente, logo que de Piúma para o Rio de Janeiro se estabeleça a navegação a vapor, como se pretende.

4ª Serem os terrenos banhados pelos rios que ficam especificados e seus confluentes ribeiros da maior força produtiva, e oferecem ao lavrador, correndo boa a estação, por um alqueire de milho de semeadura, de cento e vinte a cento e cinqüenta, e as vezes mais, que regularmente se vende de mil e seiscentos a dois mil.

Por um alqueire de feijão de semeadura, de oitenta e cem alqueires, que se vende de dois a três mil réis, e é de notar que estes dois produtos se obtém duas vezes por ano; pois que se semeiam em Março para colher em junho e julho; e em setembro, para colher em dezembro.

Por um alqueire de arroz de semeadura de cento e cinqüenta a duzentos alqueires, que se vende a duzentos a mil seiscentos reis.

5ª Presta-se a mandioca de que se faz a farinha (chamada de pão) ao uso cotidiano, no fim de seis meses depois de plantada. Esta importante e salutar planta, não se colhe toda ao mesmo tempo; mas sim uma certa quantidade cada semana que chegue para o gasto ordinário. Dura ela na terra superficialmente, até 3 anos, e ali esta sempre as ordens do lavrador, que nesse caso bem considera a terra o seu celeiro que abre quando necessita, a qualquer hora. A raiz desta planta vai-se extraindo na porção precisa, e logo plantando-se outra no lugar da extraída; de forma que quando se acaba de extrair a mandioca que primeiro  se plantou, já a da segunda plantação começa a suprir; ela produz em muita abundancia e cultiva-se com grande facilidade. Em terra boa como a da Colônia, vê-se muitas vezes uma raiz de mandioca produzir uma quarta de farinha; e o pé de mandioca que oferece esta raiz, quase sempre tem três ou quatro, outras mais pequenas; e quereis saber o que foi necessário fazer para obter esta fartura? Um golpe na terra bruta com o canto de uma enxada, e um pedacinho do pau da mandioca, de duas polegadas de extensão depositado na cisura que na terra se fez, coberto com a mesma terra levantada pela enxada.

6ª Produzem dez mil cafeeiros, no seu estado florescente que começa no 5º ano de idade, de oitocentos a mil e duzentos arrobas de café, que se está vendendo de três a quatro mil réis cada arroba. Esta porção de café pode ser colhida por cinco pessoas diligentes nos meses de abril, maio, junho e julho.

7ª Produzir regularmente um carro de cana, plantado em boa terra como é o da Colônia, de quarenta a cinqüenta arrobas de açúcar, e quase dois terços de pipa de aguardente; vendendo-se aquele de dois a três mil réis, e esta de quarenta a sessenta mil réis; atualmente vende-se a cento e vinte mil réis.

8ª Dar-se excelentemente o fumo, o anil, o algodão; assim como muitos outros objetos alimentícios, além do milho, feijão, arroz e mandioca; sendo de notar que desta ultima planta se tira além da farinha de que já se tratou, o bom polvilho, e boa tapioca que como a farinha servem para consumo diário e mesmo para vender: a farinha regula de mil e seiscentos a dois mil réis o alqueire, e o polvilho e tapioca de três a três e quinhentos réis.

9ª A vantagem de se colher, além destes frutos do trabalho, os que oferecem as majestosas bananeiras de muitas espécies, as viçosas laranjeiras de muitas qualidades, as limeiras e limoeiros doces, os melões e melancias, as abóboras e muitas espécies de batatas de excelente gosto.

10ª Dar-se com muita rapidez e em grande quantidade a baga de mamona; e isto com muito pouco trabalho, e produzir um alqueire de seus grãos, dezesseis garrafas de óleo para luz, que se vende a duzentos e quarenta réis cada garrafa. Uma mulher cuidadosa, em sua casa, apronta cinco ou seis garrafas diárias; e extraindo-se este óleo por meio de máquinas apropriadas, pode obter-se uma pipa ou mais por dia, que se vende por duzentos mil réis.

Das favoráveis condições para os colonos oferecidas pela Associação

1º Dar-se-á por adiantamento, por intermédio de casas comerciais das cidades marítimas da Europa, o dinheiro necessário para o embarque das famílias e outros indivíduos que quiserem fazer parte da Colônia Rio Novo, sempre que o engajamento for feito por conta imediata ou intervenção de qualquer forma da Associação Colonial de Rio Novo; e o importe das passagens até a mesma Colônia: no caso porém de ser o engajamento contratado em qualquer dos Portos do Brasil, com qualquer importador, adiantar-se-á a importância porque se contratar, e a passagem de qualquer de tais Portos para a Colônia; assim como as mais despesas indispensáveis.

2º Entregar-se-á a cada família que for chegando a Colônia, logo, ou no menor espaço de tempo que for possível uma área de terra que contenha de quarenta a cinqüenta mil braças quadradas, a qual lhe ficará pertencente logo por título de foro perpétuo que se lhe passara.

3º Nesta área de terra achará a família:

1- de dez a vinte mil braças quadradas de mato derrubado, por ser serviço difícil de fazem a quem chega desde logo;

2- uma casa cômoda para habitação da mesma família;

3- os indispensáveis utensílios;

4- as possíveis plantações de cafezeiros, mandioca, milho, feijão, etc.

4º Fornecer-se-lhe-á o preciso milho, feijão e arroz, enquanto não colherem estes mantimentos da primeira sementeira ou plantação que fizerem, que deverá ser na primeira estação apropriada depois que chegarem; e no caso de acharem feitas as plantações regular-se-á o fornecimento até a colheita delas: a farinha de mandioca também se lhe fornecerá nos primeiros quatro meses.

5º Fornecer-se-lhe-ão outros indispensáveis até chegarem os seus primeiros produtos, de que tiram o necessário para pagamento dos débitos que por tais avanços tiverem contraído.

6º Além das vantagens que ficam enumeradas, ficará à disposição das famílias:

1º o preciso terreno junto ao engenho ou engenhos que a Associação há de ter, para que plantem cana de que tirem o açúcar e aguardente que puderem:

2º o moinho, ou moinhos que existirem para que reduzam a farinha, o milho e arroz que quiserem;

3º os engenhos de preparar o café que tiver de transportar, ou vender preparado na Colônia;

4º as conduções que necessitarem para conduzir seus produtos dos seus estabelecimentos para o Porto exportador;

5º o engenho de serrar taboas para que se tenham este gênero sem o comprar, e aproveitem as muitas madeiras que existem nas terras que se lhe destinam;

6º o engenho de fazer óleo de baga de mamona, para que aproveitem este importante produto que com tanta abundancia se dá;

7º a fábrica de farinha de mandioca; e

8º Outras quaisquer oficina da Associação para utilizarem o que delas lhes for preciso.

7º Estabelecidas as primeiras famílias em número suficiente, diligenciar-se-á a existência de um pastor católico para celebrar o Santo Sacrifício da Missa todos os domingos e dias santos.

8º Será garantido o culto religioso seguido pelos colonos que não forem católicos, facilitando-lhes o serem acompanhados por seus respectivos pastores.

9º A todas as famílias que se estabelecem na Colônia, se fornecerão aves e porcos para o começo da criação de tais espécies.

10º De todas estas vantagens poderão gozar as pessoas solteiras que na Colônia se casarem em formarem família.

11º A todas as famílias estabelecidas na Colônia, em torno dos centros coloniais, será permitido o trabalho a meia com a Associação no tratamento de cafezais que tomarão a seu cuidado, e na colheita dos seus frutos; e assim também no plantio de cana para o fabrico do açúcar e da aguardente, enquanto que as terras que tomarem por foro perpétuo não lhes fornecerem produtos com que possam remir suas precisões e pagar seus débitos: desse modo lhes pertencerá metade do café que colherem nos cafezais que se puserem a seu cargo para tratar; e metade do açúcar que se fizer das canas que plantarem e tratarem, devendo no serviço de moagem da cana observar-se o respectivo regulamento da Colônia.

12º As pessoas que não fizerem parte das famílias terão trabalho certo da Associação, para ganhar subsistência, percebendo na atualidade, os adultos capazes de todo o serviço, de oito a doze mil réis por mês útil e dias isolados na mesma proporção: e os menores que poderem trabalhar perceberão de quatro a oito mil réis por mês útil, e dias isolados na mesma proporção; uns e outros deixarão um terço dos seus ganhos para pagamento dos seus débitos; a tais pessoas se concederá a vantagem da condição antecedente logo que possam residir sobre si, em casa própria.

13º Todos os indivíduos da Colônia pertencentes às famílias estabelecidas que se empregarem nos serviços da Associação ganharão o mesmo ordenado ou jornada dos estipulados na condição antecedente.

14º Os indivíduos solteiros, que se mostrem dignos de atenção de bons costumes, que forem trabalhadores diligentes e econômicos; e se acharem com ânimo de cultivar por si, e por meio de engajamentos que façam uma área de terra igual as que se destinam as famílias e de que tratam as concessões 1ª e 3ª, ser-lhe-á ela concedida com os mesmos ônus e vantagens a que ficarem sujeitas as famílias.

Das retribuições dos colonos à Associação Colonial Rio Novo

1ª Pela primeira condição será levada ao débito de cada família ou individuo isoladamente, a importância que se dispuser, a qual começará a vencer juro de seis por cento ao ano, seis meses depois da chegada da mesma família ou indivíduo.

2ª Pela segunda condição ficarão os possuidores de áreas de terra, de que ali se trata, obrigados a um módico foro anual, o qual será perpétuo.

3ª Pela terceira condição serão os possuidores das ditas áreas, obrigados aos módicos valores das benfeitorias que existem feitas por conta e a expensas da Associação para mais facilmente se estabelecerem os mesmos possuidores; tais valores serão embolsados à proporção que se fizerem as colheitas, na porção que se estipular; e nesse ajuste se permite a possível equidade.

4ª Pela quarta condição nada a Associação perceberá até a época da primeira colheita de mantimentos; mas dessa época por diante será debitada a família o indivíduos que viverem sobre si isoladamente o importe dos mantimentos que se lhes fornecer de qualquer espécie.

5ª Pela quinta condição se lhe debitarão os suprimentos que se lhes fizerem desde logo.

6ª Pela sexta condição ficará para a Associação:

1º Um terço do açúcar e aguardente que fizerem no engenho da Associação quando não se der o caso da condição 11ª.

2º Um décimo da farinha que fizerem, de milho ou de outros grãos, nos moinhos da Associação.

3º O preço que regularmente se pagar no país pelo preparo de cada arroba de café nos engenhos da Associação.

4º As conduções que necessitarem para levar seus produtos ao Porto de Piúma serão compensados por um módico dispêndio que se convencionar.

5º A metade do taboado que serrarem nos engenhos da Associação.

6º Um décimo do óleo de mamona que fizerem no engenho da Associação.

7º Um décimo da farinha de mandioca, polvilho e tapioca que fizerem na fábrica da Associação.

8º Os preços que regularmente se pagarem no País por outras quaisquer coisas que necessitarem de quaisquer oficinas que a Associação possuir.

7ª Pela sétima condição nada se exige porque a Associação esta certa de que o Governo do Brasil, como primeiro interessado na mantensa ilesa da Santa religião de Jesus Cristo, concorrerá para que a Colônia Rio Novo não sofra falta por este lado.

8ª Pela oitava condição, nada se exige igualmente pelos mesmos princípios inerentes ao Governo Brasileiro, no que toca a respeitar as crenças dos colonos que correrem ao Brasil, para um dia serem os seus súditos de assim desejarem.

9ª Pela nona condição nada se exigirá das famílias e pessoas solteiras, que viverem em economia separada.

10ª Por todas as mais condições, ficam estabelecidos os ônus que nelas se declara; e para que não ajam dúvidas em contas e ajustes de objetos, haverá um livro cuja guarda ficará a cargo de cada família e dos mais habitantes, onde se lançarão todos os débitos e créditos das mesmas famílias, e indivíduos; e neste livro (cada família terá um) se ajustará sempre as contas. Cada família ou seu Chefe, e cada indivíduo com economia separada saldará o seu débito no menor espaço de tempo possível, e em cada ajuste de contas, assinarão documentos em forma, como for mais conveniente dos saldos que ficarem devendo.

Cálculo do rendimento que provavelmente terá uma família anualmente

Postos estes pormenores, vantagens, condições e retribuições, passo a demonstrar a renda que uma família poderá obter anualmente, sempre que uma boa estação, e diligencia do lavrador concorram.

Suponhamos que uma família habitante da Colônia conte com 5 pessoas úteis, e que possuindo uma área de terra das de que se trata nas condições 2ª e 3ª plantam como é possível dois alqueires de milho: por este lado terão segundo a experiência tem mostrado, cento e trinta e cinco alqueires termo médio, por cada um de semeadura, e por ambos duzentos e setenta ditos.

Destes 270 alqueires, suponhamos que guarda para gastos 70 alqueires, e que vende 200 alqueires a 1.600 réis: terá neste caso 320.000 réis

Suponhamos que na mesma terra ocupada pelo milho, semeie 3 alqueires de feijão, e que estes produzem termo médio, 80 alqueires por cada um de semeadura: teremos 240 alqueires por todos. Destes 240 alqueires, tirando 40 para o gasto e vendendo200 a2.000 réis: teremos 400.000 réis.

Suponhamos que na mesma área semeia-se um alqueire de arroz e que colhendo 200 alqueires, tiram 30 para o gasto, e vende 170 ao preço de 1.000 réis: teremos em tal caso 170 000 réis.

Suponhamos que 10.000 cafeeiros colhem seiscentas arrobas (pode colher-se 1.200) e que destas tiram 20 para gasto e vendem 580 arrobas a 3.000 réis (vende-se atualmente de3 a4.500 réis) teremos: 1:740.000 réis.

Como o milho e o feijão se colhem duas vezes por ano, supondo que os produtos acima são plantação de março, teremos pelo milho da plantação de setembro 320.000 réis.

Teremos mais pela plantação do feijão de setembro, que sempre é mais inferior por causa das chuvas 180.000 réis.

Soma tudo, sem falar em outras coisas que se pode acumular, no caso de ocorrer boa estação, e haver boa diligencia do lavrador. 3.130.000 réis.

Por este cálculo, vê-se, que mediante uma boa estação, e atividade do lavrador, poderá lograr-se a importância de 5:130.000 réis: e descontando-se dessa soma a quantia de 530.000 réis para preparo do café e conduções, ainda ficará líquida a quantia de 2:600.000 réis.

A maior parte das despesas ordinárias de uma tal  família será satisfeita com o produto de outros frutos acessórios; como sejam o de alguns alqueires de farinha, polvilho e tapioca, que sobra do gasto ordinário, o de criações que também se vendem, os de algumas garrafas de óleo de mamona que sobra da luz, o de alguma madeira que sempre se aproveita (há muitas árvores que com bem pouco trabalho dão 40, 50 e 60 000 réis), o de algum dia que sempre se ganha da Associação que continuadamente fornecerá trabalho; o de algum algodão que as mulheres podem fiar a noite e nos dias chuvosos, o de algum açúcar e aguardente se poderá obter, e finalmente o de outros objetos que será fastigioso enumerar; mas supondo ainda que a família querendo melhor tratar-se, gasta-se mais de 600 000 réis; vê-se que ainda lhe fica a quantia de 2:000 000 réis para aumento de sua fortuna, além do aumento de valor que sua propriedade terá de ano a ano.

Em quanto os cafezais plantados nas áreas de terras pertencentes às famílias coloniais, não produzirem, poderá suprir os cafezais da Associação onde os colonos poderão colher a meia, e também poderão suprir o fabrico do açúcar em maior escala; mas quando assim não fosse, ainda assim, a renda produzida pelos outros objetos da lavoura será muito superior a despesa, e dará sobra para socorrer a parte dos compromissos dos mesmos colonos: em todo caso ver-se-ão os mesmos colonos no meio da abundancia em todo ano, e salvos das necessidades que os flagelam na Europa. E se alguma família tiver lá alguma fortuna, mas que não tenha meios de fazê-la aumentar terá toda possibilidade de prosperar na Colônia Rio Novo onde poderá obter por aforamento perpétuo os terrenos que necessitar para cultivá-los por si, e por meio dos seus engajados. Por semelhante modo uma família apenas remediada na Europa, tornar-se-á proprietária, mais ou menos importante na Colônia, em muito pouco tempo. O que deste modo avaliamos, poderíamos provar com grande numero de exemplos.

À vista pois de todo expendido, fica demonstrado e é indubitável, que as vantagens especificadas, convidam as populações a procurá-las, e as que quiserem fazer parte da Colônia Rio Novo acharão exato tudo quanto aqui fica exarado.

Rio de Janeiro, 14 de Fevereiro de 1855.
O Diretor da Associação Colonial do Rio Novo.
Caetano Dias da Silva.

Listagem das famílias que acreditaram na propaganda do Major 
Caetano Dias da Silva e vieram para a Colônia de Rio Novo
FISCHER
Carl
-
41
Chefe
FISCHER
Agatha
-
33
Esposa
FISCHER
Johanna
-
7
Filha
FISCHER
Marie
Louise
5
Filha
FISCHER
Rud
Bertrand
6
Filho
FISCHER
Emma
-
3
Filha
BOENI
Bonhi
-
46
Cunhada
BOENI
Francisco
Xavier
16
Sobrinho
BOENI
Frederike
-
14
Sobrinha
BOENI
Friedrich
-
13
Sobrinho
BOENI
Rosa
-
11
Sobrinha
HOFFMANN
Johann
-
44
Chefe
HOFFMANN
Margaretha
-
43
Esposa
HOFFMANN
Anne
-
18
Filha
HOFFMANN
Jacob
-
17
Filho
HOFFMANN
Johann
-
16
Filho
HOFFMANN
Marie
-
14
Filha
HOFFMANN
Bertha
-
11
Filha
HOFFMANN
Heinrich
-
9
Filho
HOFFMANN
Verena
-
7
Filha
JAPPERT
Joseph
-
58
Chefe
JAPPERT
Helene
-
57
Esposa
JAPPERT
Etienne
-
29
Filho
JAPPERT
Catterine
-
26
Filha
JAPPERT
Joseph
-
24
Filho
JAPPERT
Caroline
-
22
Filha
JAPPERT
Ignace
-
31
Filho
JAPPERT
Maddalene
-
35
Nora
OESGER
Rimigius
-
58
Cunhado
KOBI
Christian
-
58
Chefe
KOBI
Marie
-
56
Esposa
KOBI
Benedet
-
20
Filho
KOBI
Jacob
-
17
Filho
KOBI
Nicolau
-
14
Filho
LÄBER
Joseph
-
51
Chefe
MULLER
Johanna
-
39
Esposa
LÄBER
Marie
Verena
19
Filha
LÄBER
Joseph
-
17
Filho
LÄBER
Johann
Baptiste
15
Filho
LÄBER
Anton
-
13
Filho
LÄBER
Johanna
-
9
Filha
LÄBER
Elisabetha
-
6
Filha
LÄBER
Caroline
-
3
Filha
OBRIST
Georg
-
60
Chefe
OBRIST
Anne
Marie
60
Esposa
OBRIST
Johann
-
30
Filho
OBRIST
Crescencia
-
28
Filha
OBRIST
Friedrich
-
27
Filho
OBRIST
Anne
Marie
46
Irmã
SENN
Bernhard
-
17
Sobrinho
SENN
Georg
-
43
Cunhado
ROHR
Daniel
-
52
Chefe
ROHR
Marie
-
48
Esposa
ROHR
Barbara
-
22
Filha
ROHR
Anne
-
21
Filha
ROHR
Marie
-
20
Filha
ROHR
Johann
-
19
Filho
ROHR
Susane
-
18
Filha
ROHR
Conrad
-
13
Filho
ROHR
Elisabetha
-
11
Filha
ROHR
Abrahan
-
8
Filho
ROHR
Daniel
-
6
Filho
SCHEIDEGGER
Johann
-
42
Chefe
SCHEIDEGGER
Anna
Barbara
36
Esposa
SCHEIDEGGER
Johann
-
14
Filho
SCHEIDEGGER
Anna
Barbara
12
Filha
SCHEIDEGGER
Elisabetha
-
11
Filha
SCHEIDEGGER
Friedrich
-
7
Filho
SCHEIDEGGER
Ulrick
-
6
Filho
SCHEIDEGGER
Christian
-
3
Filho
SCHEIDEGGER
Barbara
-
36
Irmã
SCHERRER
Jacob
-
42
Chefe
SCHERRER
Elisabetha
-
47
Esposa
SCHERRER
Elisabetha
-
17
Filha
SCHERRER
Jacob
-
15
Filho
SCHERRER
Amalie
-
14
Filha
SCHERRER
Barbara
-
11
Filha
SCHERRER
Carl
-
9
Filho
SCHERRER
Catharina
-
7
Filha
SCHERRER
Gottlieb
-
6
Filho
STAUFFER
Friedrich
-
22
Chefe
KOBI
Anna
Marie
22
Esposa
WETTLER
Johann
Friedrich
58
Chefe
WETTLER
Margaretha
-
52
Esposa
WETTLER
Auguste
-
17
Filha
WETTLER
Friedrich
-
15
Filho
WETTLER
Albert
-
13
Filho
WETTLER
Mathilde
-
11
Filha
WETTLER
Gottlieb
-
10
Filho
WETTLER
Julie
-
8
Filha
   Fonte: Arquivo Público Estadual.

[Transcrição do original: Ronald Mansur. Reprodução autorizada pelo transcritor.]

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© 2001 Transcrição com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Major Caetano Dias da Silva, cidadão português, era grande fazendeiro em Itapemirim, proprietário da fazenda Limão. Como presidente da Associação Major Caetano obteve concessão sobre terrenos devolutos compreendidos no chamado 1º Território. Fundou a Colônia de Rio Novo, na localidade conhecida como Pau d'Alho, banhada pelo rio Novo e afluentes, levando para lá estrangeiros de diversas nacionalidades: suíços, belgas, holandeses, franceses, italianos, alemães e austríacos. Infelizmente a insalubridade e total falta de assistência levaria à morte muitos desses colonos.