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A delegacia da Chapot Presvot, 272, cerra portas e janelas. A quem interessa a notícia? Creio que apenas às suas personagens. E é em co...


A delegacia da Chapot Presvot, 272, cerra portas e janelas. A quem interessa a notícia?

Creio que apenas às suas personagens.

E é em consideração a elas, que me aturaram muito mais do que eu as aturei, que faço os comentários que se seguem.

Durante vários textos, arrisquei-me a retratar o que seria o cotidiano de uma delegacia de polícia, ficando, por incompetência pessoal, muito aquém de reproduzir o dramático dia-a-dia de um ambiente policial, em sua crua e dura realidade, na ingente luta contra a criminalidade.

Foi - assim o considero -, um longo e persistente trabalho de elaboração ficcional (e aqui faço o grifo), temperado com variadas pitadas de crítica e ironia, gozações e tragédias utilizadas na movimentação das personagens (delegado, escrivães, policiais, faxineira, et caterva) e do plantel de desditosos figurantes que deram o azar de passar pela delegacia (inclusive o autor-narrador que escapou por pouco de lá ficar retido) – e tiveram a honra de merecerem acolhida no site Estação Capixaba graças à bondade de sua criadora Maria Clara Medeiros Santos Neves.

Pessoas reais serviram de base para a montagem dessa fauna humana ficcional; fatos e acontecimentos forneceram miolo para muitos textos; falas, expressões e ditos ouvidos ao acaso e registrados seletivamente foram capturados para contextualizar diálogos e cacoetes verbais de personagens, quer em sua passagem ocasional pela delegacia, quer pela presença constante como “funcionários” da casa onde “trabalhavam”; histórias e casos que me caíram no colo ou bolações nascidas de leituras em geral, inclusive situações envolvendo a Livraria Logos e a confraria de amigos que lá se reúne aos sábados, deram alimento a sortidos episódios.

De fundamental importância para a consistência da delegacia foi minha fraternal amizade com o escritor Pedro J.Nunes que, por ter sido escrivão de polícia (hoje graças a Deus aposentado), prodigalizou-me - consciente ou inconscientemente -, farto material para os textos que escrevi, tendo sido ele mesmo o protótipo humano em que me fixei para criar o escrivão Pedro – porém, nada mais do que Pedro, de anônimo sobrenome – que se fez personagem âncora da Chapot Presvot, 272.

Neste particular, confesso, agradecido, que em nenhum momento o meu fraternal amigo teceu a mais mínima restrição à apropriação de sua imagem para o personagem chave da delegacia. Ao contrário, sempre deu mostra, inclusive verbalmente, e graças à sua visão esclarecida de autor literário, que entendia perfeitamente a distinção entre o escrivão de polícia que na vida real ele foi, e o escrivão fictício, seu factóide, por mim “invencionado”.

E já que pisei o terreno das confissões, apesar de não solicitadas, mencione-se, recuando-se à origem da série da Chapot Presvot, 272, que quando escrevi o primeiro texto, ponto de partida da galeria que veio depois, não pensava em lhe dar desdobramento, nem continuidade.

Era para ser um conto único, e ponto final. Haja vista que qualquer comparação entre aquele primeiro escrito e os que o seguiram mostra o descasamento de concepção existente entre eles, numa demonstração de que a ideia de criar e consolidar a delegacia como antro ficcional das ficções que nela se passaram somente se configurou no espírito do autor depois do texto de partida, embora contenha este algumas características que o tornaram o embrião da série.

Lá está, para citar um só exemplo, a descrição da casa-sede da delegacia, já então dada como funcionando numa antiga residência térrea da rua Chapot Presvot, na Praia do Canto, em Vitória, mas sem indicação do número 272, que apareceria no segundo texto (número que, na realidade não existe naquela rua).

Posteriormente, já com vários episódios escritos e divulgados pelo site Estação Capixaba, identifiquei uma casa no mesmo estilo arquitetônico que eu havia imaginado para a delegacia, situada, porém, na rua Cândido Portinari, bairro Santa Luiza, em Vitória, (Delegacia da Mulher), que elegi emblematicamente para sede da Chapot Presvot, 272.

A foto dessa casa, que figura no cabeçalho dos textos da Estação Capixaba, custou-me, quando a estava tirando, uma abordagem de dois policiais numa viatura tipo camburão que vieram saber das intenções do fotógrafo que, de máquina em punho, fazia seus flashes com veleidades meramente literárias.

A abordagem, que felizmente não foi além de uma explicação que matou a questão sem maiores consequências, deu trigo e fermento para o texto Amigos, amigos ou um flagrante delito, um dos últimos a sair do fundo do estoque de que eu dispunha para ser divulgado na Estação Capixaba.

Já me estendi em voo largo para dizer o que foi dito sem me ser perguntado.

Mas antes de sapecar o ponto final nesta despedida, duas informações forçam passagem: os dois últimos textos que encerram a montoeira um tanto ou quanto eclética da Chapot Presvot, 272, prestam homenagem a grandes e queridos amigos que já se foram: Dores na cervical ou crime inafiançável aproveita o relato que ouvi a Ivan Borgo, vítima do fato relatado; e Fim de papo & nunca mais remete a Renato Pacheco e aos seus magníficos Cantos de Fernão Ferreiro.

Alguma coisa resta por ser acrescentado?

Sim, e quase ia me esquecendo: por que me vali de uma delegacia ficticiamente localizada na rua Chapot Presvot para travessuras imaginativas?

A resposta é, por óbvio, personalíssima: uma rua numa cidade como Vitória com o nome desse grande médico brasileiro não é para ser literariamente desprezada.

Posto isto, e nada mais havendo a tratar, cerrem-se as cortinas, apaguem-se as luzes e... fim de papo & nunca mais.


[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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© 2019 Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

“O Espírito Santo é azul e rosa” disse Pedro contemplando a luz diáfana de maio que tanto enlevo causa ao fotógrafo Humberto Capai. E acred...


“O Espírito Santo é azul e rosa” disse Pedro contemplando a luz diáfana de maio que tanto enlevo causa ao fotógrafo Humberto Capai. E acreditando ter lido em Fernão Ferreiro uma referência a essa luz divinal na terra capixaba, pegou os Cantos que estavam sobre a mesinha da Olivetti, ao lado de um exemplar dos Irmãos Karamasof, e se pôs à cata.

Foi uma caminhada cata-cata pelos versos do grande vate, heterônimo do não menos grande Renato Pacheco, desde o verso de abertura: “Agora é tudo novo e ao longe nos conduz...

E foi somente, ora finalmente!, no Canto 45, que Pedro achou o que procurava, embora não fosse o que esperava achar:

...mas é maio que eu amo mais que todos. Vitória, em maio, é a melhor terra das costas do Brasil.

Antes que fiquemos sabendo o que o escrivão de polícia ia fazer com sua descoberta poética, entra Lenilda neste textículo como um tornado caribenho.

“Seu Pedrinho, o home chegou com os capetas. Pro senhor ter uma ideia, está chutando a mesa, as cadeiras e até jogou o chapeleiro das boinas no chão.”

“Se chutou o chapeleiro, temos um Vesúvio prestes a destruir Pompéia... É caso delicado,” concordou Pedrinho.

“Bota delicado nisso. O pior é que vai sobrar pro senhor,” preveniu a faxineira.

“Eu hein, Lenilda! Vê se me erra...”

“Não tem erro, nem meio erro, seu Pedrinho. Põe um colete à prova de balas e vai logo lá que ele mandou te chamar,” desobrigou-se Lenilda da missão que Digital lhe conferira.

“E eu que pensei que este dia de maio ia ser diáfano e radioso sob o encanto dos versos de Fernão Ferreiro,” disse Pedro, dirigindo-se para o gabinete do delegado.

Quando entrou, Digital tinha as feições alteradas, a cara ruça de ódio – ou russa de ódio, se o gentílico descrever melhor a fúria reinante na alma da criatura. Sem dar tempo ao escrivão para abrir a boca, fuzilou:

“Você sabia que tudo que acontece aqui na delegacia está sendo escrito por aquele escritor seu amigo?”

“Quem foi que disse isso?” perguntou Pedro se fazendo de bobo.

“Quem foi que disse não interessa! Eu quero saber se é verdade o que me disseram? Porque me contaram que eu, você, Lenilda, Nanico, o deputado Ribeirinho, às vezes até minha mulher, Engracia, e tudo o mais que se passa dentro das quatro paredes desta casa está sendo usado como matéria de gracinha pelo seu amigo,” cresceu Digital nas canelas.

“Bem...” começou Pedro, estudando a resposta que ia dar. “Eu já tinha ouvido falar, mas...”

“Nem mais, nem menos, nem porém, contudo, todavia” interveio o delegado, descontrolado. “Se é verdade o que estão dizendo, eu exijo que você tome uma providência e vai ser agora mesmo! Pegue o telefone e ligue pra ele. Diga que eu – veja bem – eu, o delegado Archibaldo Evangelino de Souza, proíbo terminantemente que continuem a ser publicadas coisas sobre nós e sobre a minha delegacia. Deixe claro, muito claro, que não se trata de um pedido, mas de uma ordem. Se ele achar que é ameaça, diga que é ameaça mesmo. Porque do jeito que estou puto, aliás, putíssimo da vida, sou capaz de mordê-lo na julgular como um vampiro.”

Pedro coçou o queixo e fitou o delegado com um olhar de comiseração intelectual, antes de perguntar: “Julgular, Digital?”

“Julgular, sim. Você não sabe onde fica?”

“Fica no pelscoço?” ironizou Pedro.

“Não se faça de besta comigo, nem desvie a conversa,” bronqueou o delegado. E estendendo o celular para Pedro fazer a ligação. “Disque logo!”

“Um disque denúncia?”

“Entenda como quiser, mas dique agora!” gritou Digital.

“Você não acha melhor pensar mais um pouco no assunto?” quis Pedro chamar Digital à razão.

“Pensando morreu um burro. Eu quero ação. Ação imediata, ação da sua parte! Minha delegacia tem de deixar de ser assunto de conversa mole, de piadinhas bestas na internet...”

Pedro, porém, não se deu por vencido.

“Você já pensou, delegado, que se ele parar de escrever seremos removidos de onde estamos?”

“Removidos por quê? Ele tem tanta força assim? Ou você se esquece que sou amigo do deputado Ribeirinho?”

Sem perder o olhar comiserativo, Pedro foi mais claro:

“É preciso que você saiba, delegado, que quando o meu amigo escritor escreve sobre o que se passa aqui na delegacia é porque tudo o que se passa aqui na delegacia é o que ele escreve, entendeu?”

“Isso é uma charada ou uma pegadinha?” protestou Digital.

“É a pura verdade” explicou Pedro. “Uma verdade com todas as letras ou, para ser mais exato, é a verdade das Letras.”

“Pois pegue cada uma dessas letras, de a a z, sem esquecer o dabliu, e enfie uma a uma no traseiro do seu amigo. Agora, ligue pra ele que eu mesmo falo! Vamos, porra!”

Pedro cumpriu a ordem e digitou o número que sabia de cor. Quando reconheceu a voz do outro lado da linha, passou o celular para o delegado sem nem sequer dizer bom dia.

“Alhou” gritou o delegado. “Alhou?” [E dirigindo-se a Pedro]: “Ou está mudo ou então não está ouvindo nada. Você ligou o número certo?”

“Liguei, delegado,” disse Pedro desanimado.

“Alhou, alhou... Você aí, seu idiota, seu paspalhão, seu imbecil, seu merda de escritor não está me ouvindo ou está se fazendo de morto?”

Pedro se aproximou de Digital e fez um apelo definitivo: “Desliga o celular, chefe!”

“Cala a boca, idiota, e não me chame de chefe!” Sem descolar os dentes do aparelho, Digital continuou esbravejando: “Alhou! Alhou! Ô bosta de escritor, tá querendo brincar comigo? Pois vai quebrar a cara, porque vou estrumbicar com sua cartola, ouviu? Está ouvindo, ou perdeu a língua de medo?!”

“Me dá o celular, Digital” disse Pedro tomando o aparelho à força e desligando-o.

“Por que você cortou a ligação?” explodiu o delegado ruço-russo.

“Será possível, Digital, que você não esteja entendendo nada do que está se passando?” perguntou o escrivão, procurando ser paciente.

“O que estou vendo é que você está protegendo seu amigo contra o seu chefe.”

“Agora você é chefe?” rebateu Pedro.

“É porque está em jogo a minha autoridade...”

“Neste ponto você tem razão,” concordou Pedro. “Só que está em jogo muito mais do que a sua autoridade de chefe, chefe. Está em jogo você, eu, Lenilda, Nanico, o seu amigo do peito, o deputado Ribeirinho, sua digníssima esposa dona Engrácia, e mais todas as cagadas que você tem feito aqui e fora daqui e que vai continuar fazendo se a Delegacia não for pro beleléu...”

“Não me venha com insolência, seu escrivãzinho metido a grande escritor... Vê se me respeita senão...”

Antes que terminasse a ameaça, Lenilda entrou no gabinete com uma ousadia que ninguém seria capaz de esperar dela.

“Dotô, tem um mensageiro aí com uma coroa de flores,” informou a faxineira.

“Coroa de flores?!” surpreendeu-se Digital olhando para Pedro com a cara dos três patetas numa só.

“E o endereço está certinho,” adiantou a faxineira.

“Então mande entrar o elemento,” ordenou o delegado.

“Ponho aonde, chefia?” perguntou o recém chegado, o rosto aparecendo como uma calota de roda de carro no meio da coroa funerária.

“Bota aí na minha mesa!”, berrou Digital. “E suma da minha frente!”

O entregador cumpriu a ordem e escapuliu das vistas de Digital antes que fosse tarde.

“Tem uma mensagem na faixa roxa”, avisou Lenilda. “Uma mensagem em letras douradas...”

“Pois leia o que está escrito, Pedro,” ordenou o delegado.

Pedro aproximou-se da coroa e leu em voz alta: “À memória da delegacia da Chapot Presvot, 272, e de seus ilustres figurantes.”

“Viu, Digital? Eu avisei...”, disse o escrivão, encarando o chefe.

“Que sacanagem é esta?” bradou Digital.

Foram as últimas palavras que se ouviram na Chapot Presvot, 272, embora ainda tivesse acorrido à mente de Pedro o verso de Fernão Ferreiro “Aqui a vela bruxuleia e se apaga...


[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Quando viu entrar na delegacia o amigo de tertúlias literárias Pedro deu um pulo da cadeira. “Você por aqui?!” O amigo aproximou-se de ...


Quando viu entrar na delegacia o amigo de tertúlias literárias Pedro deu um pulo da cadeira.

“Você por aqui?!”

O amigo aproximou-se de Pedro e explicou-se: “Ia passando aí em frente e resolvi entrar para revê-lo, já que você sumiu da livraria Logos.”

Todo festas com a visita inesperada, Pedro escorregou sua desculpa: “Tenho dado plantão aos sábados. Mas vou reaparecer em breve. O que você me conta de novo?”

O visitante, que havia se sentado com cuidado na cadeira que Pedro lhe indicara, começou reclamando de dores na coluna. “É terrível! Às vezes melhora, mas é folga passageira. Vivo dopado por analgésicos”.

“Eu imagino o que está passando,” disse Pedro, solidário. “Também tenho umas dores ciáticas que às vezes me crucificam durante dias. Se bobear, elas me pegam pelas costas, literalmente. Basta dizer que minha bicicleta tem amortecedor, para eu pedalar sem problema.”

“Ah, então você sabe como é...” disse o visitante ligeiramente consolado. “Mas quando as dores se tornam crônicas, como no meu caso, vira suplício cruciante. E qualquer aborrecimento, por mais idiota que seja, agrava as crises. Sei que é efeito psicológico, mas é inevitável. Agora mesmo estou em brasas.”

“O que houve desta vez?” perguntou Pedro.

“Foi uma bobagem, que em outras condições seria até motivo de riso, mas que adquiriu foros de tormento kafiquiano. O pior é que tudo se passou dentro da minha casa. Quer dizer, o aborrecimento veio a domicílio. Você sabe onde eu moro, não sabe?”

“Ainda não tive a honra...”, disse o escrivão.

“Porque não quis, pois já o convidei para ir lá. Quando isso acontecer você vai ver que tenho em minha casa um quintal de causar inveja aos meus amigos.”

“Quintal é uma das minhas recorrências míticas,” disse Pedro. “Como você, eu sou nascido e criado no interior do Estado...”

“Então você vai ficar de queixo caído com o meu quintal. Não é nenhum latifúndio, mas é um recanto edênico onde tenho um pé de romã, um de café, outro de carambola, um de acerola, que dá mancheias das próprias e um mamoeiro. Meu sonho, porém, é cultivar uma videira...”

“Pé de sapoti, você tem?” perguntou Pedro, sem querer menosprezar as vantagens do amigo.

“Sapoti não, por quê?”

“Porque eu me lembrei de uma senhora que esteve aqui na delegacia e fez os maiores elogios aos pés de sapoti... Segundo ela, quem teve um pé de sapoti não o esquece jamais.”

“Deve ser verdade. Mas não é apenas de árvores que o meu quintal é feito,” voltou o visitante às suas vanglórias domésticas. “Como você sabe, eu tenho um grande apego pelos bichos. Chego a acordar cedo para espalhar miolo de pão para a passarinhada se banquetear. São dezenas de pardais e bem-te-vis que rodeiam minhas plagas, em bandos alvoroçados. Eles até já sabem a hora do maná e ficam voejando de tocaia. Outro dia mesmo me apareceu de surpresa um quero-quero, que pousou no pé de acerola e armou um fuzuê danado entre os outros pássaros, com a sua presença estrangeira de invasor. Você sabe o que é um quero-quero?”

“Lá em Calçado ele é chamado de batuíra ou maçarico,” disse Pedro.

“Mas você sabe que ele se lança em vôo quilométrico do Círculo Polar à Terra do Fogo...”

“Esta particularidade eu não sabia.”

“Pois eu a aprendi no tratado de ornitologia do Sick. É um senhor compêndio sobre as aves. A peregrinação do quero-quero é tão impressionante que eu me sinto um privilegiado por hospedá-lo de passagem no meu pé de acerola.”

“Pelo que estou vendo, o seu quintal é um show ornitológico. Lá também tem beija-flor?”

“O QUÊ?! Tem beija-flor a três por dois! Acho até que eles me confundem com o fantasma do Ruschi. E não é pra menos. Eu me dou ao luxo de abastecer todo dia um bebedouro com água açucarada para os bichinhos se refestelarem. É um festim a que assisto embevecido,” informou o visitante.

“Você conhece uma flor chamada camarão? É um favo vermelho que beija-flor adora sorver. Se quiser eu consigo uma muda com Dona Lenilda, a faxineira da delegacia,” disse Pedro, mostrando-se também connaisseur na arte de alimentar beija-flor.

“Eu sei qual é! Já plantei um pé lá em casa, mas ainda não deu flor,” vibrou o amigo feliz com a sapiência de Pedro. “Mas como ia dizendo, eu cuido dos beija-flores com carinho. E foi isso que acabou me trazendo o aborrecimento de que falei.”

“O tormento kafiquiano?”

“Exatamente. Tudo porque eu encontrei um beija-flor de asa quebrada debaixo do bebedouro. Sem saber o que fazer, e cheio de pena do coitadinho, este seu amigo teve a infeliz idéia de ligar para ...”

“Não me diga que você cometeu a besteira de telefonar para o...” e Pedro disse o nome da repartição que cuida do meio ambiente.

“Cometi. Liguei para pedir ajuda, num SOS aflito. Já foi uma dificuldade danada encontrar o telefone na lista que está cada vez mais complicada. Parece um quebra-cabeça. Porque eu ainda uso lista telefônica com os telefones e endereços impressos”.

“Todo mundo reclama dessas listas. Quero dizer, todo mundo que ainda as usa... Elas lembram aquele jogo de labirinto em que a gente tem de achar a saída riscando pelos quadradinhos. E às vezes não se encontra o que se quer,” observou Pedro.

“O pior é que ninguém toma providência... Mas depois de muito custo, consegui achar o número. Liguei pra lá e fui atendido por uma funcionária a quem relatei o acidente. Ela disse que o órgão ia cuidar do caso, anotou meu telefone e endereço.”

“E o órgão mandou socorro?” perguntou Pedro acentuando a palavra órgão.

“O QUÊ?! Eu estava esperando que aparecesse um motoqueiro para levar o beija-flor, mas o que estacionou na minha porta foi uma Kombi, toda pintada de verde com o nome FISCALIZAÇÃO em letras negras garrafais, da qual saltaram seis funcionários para atender o beija-flor ferido! Eu tomei até um susto. Parecia assalto da SS de Hitler.”

“Você está brincando...!”

“... seis funcionários sem contar o motorista, que ficou na Kombi. Eles vieram de crachá pendurado no pescoço, mas, mesmo assim, se identificaram dando os nomes e os cargos. Os nomes eu não guardei, mas os cargos sim. Veio um ornitólogo, um biólogo, um veterinário, um auxiliar administrativo que, aliás, me pareceu a princípio o menos importante da equipe, uma ambientalista e uma assistente social.”

“Você tem certeza que era uma assistente social?”

“Eu também fiquei atônito. Mas ela me disse que era especialista em socialização de animais no meio urbano. Pela estimativa que fiz, calculando por baixo os salários dos seis e o do motorista, davam uns trinta salários mínimos, apenas para socorrer um beija-flor!”

“E você os deixou entrar?”

“Quem era eu para barrar aquela blitz? Fi-los entrar, como diria Jânio Quadros, e levei-os até o beija-flor que eu tinha tirado do chão e posto com cuidado numa caixa de sapato. Afastei-me então respeitosamente para que a equipe de especialistas pudesse trabalhar à vontade, como se fosse uma junta médica no atendimento a um paciente em estado terminal.”

‘“Foi o senhor mesmo que botou a ave na caixa de sapato?’ perguntou, de repente, o ornitólogo, numa virada de cabeça na minha direção”.

“Foi, por quê?”

“‘Porque fez muito mal. Quem não tem prática não deve tocar em animal ferido. Ou será que o senhor se julga algum Augusto Ruschi para saber lidar com beija-flores?’ E só por esta reprovação, seu Pedrinho, eu vi a burrice que tinha feito com meu telefonema de socorro.”

“Sabe que se o beija-flor morrer o senhor pode ser enquadrado em crime inafiançável’ disse, de arremate, e também de cabeça virada sobre o ombro, o funcionário administrativo que eu tinha considerado o menos importante da equipe.”

“Esse pessoal não tem mesmo jeito,” criticou Pedrinho. “Eles deviam passar uns dias aqui na delegacia para aprender o que devia ser crime inafiançável’.

“É, meu caro, mas depois dessa, o seu amigo aqui começou a perder as estribeiras. ‘Vamos com calma, senhores! Fui eu quem os chamou para socorrer o beija-flor, que não sei como apareceu ferido no meu quintal, e querem me culpar pelo acidente? Que brincadeira é esta?”

‘“Um quintalzinho que eu reputo impróprio para socializar aves no meio urbano’, disse a assistente social, o desprezo estampado na face.”

‘“É necessário que as coisas fiquem perfeitamente claras. Ninguém o está culpando pelo acidente, mas pela inadequada remoção do pássaro, o que pode levá-lo a óbito’, voltou a se pronunciar o funcionário que me parecera o menos categorizado do grupo.”

“Sua responsabilidade é essa’ acresceu o biólogo, um sujeito de bigode espesso e pálpebra ameaçadoramente caída sobre o olho direito.”

“E se eu tivesse jogado o beija-flor no lixo, sem notificar o acidente? perguntei, quase esbravejando, e sentindo as primeiras pontadas na coluna cervical.”

“Boa pergunta,” aprovou Pedro.

‘“Mas acontece que o senhor fez a notificação e não podemos mais ignorá-la,’ sentenciou o ornitólogo.”

“‘Ainda bem que o senhor a fez, porque é a única atenuante a seu favor,’ espetou a ambientalista, encarando-me com um par de olhos verdes que, em outras circunstâncias eu classificaria de ecologicamente perfeitos.”

“‘E porque não podemos ignorar o que se passou vamos ter de lavrar um auto de infração pela sua total falta de perícia na remoção da ave,’ bateu de sola o administrativo.”

“‘Enquanto o senhor lavra o auto, chefe, nós vamos levar o beija-flor para a Kombi,’ disse o veterinário. E sem dizer mais nada, saíram os cinco em procissão compacta, levando a ave no estado terminal que me estava sendo atribuído, enquanto o auxiliar administrativo, que eu acabara de saber que era o chefe da equipe, agredia-me com uma autuação cheia de artigos, parágrafos e alíneas da lei de proteção aos animais e ao meio ambiente. Tem coluna dorsal que resista a uma porrada dessas?”

“E você vai responder à autuação?” indagou Pedro já pensando em se oferecer para ajudar na elaboração da defesa.

“Vou, não, já respondi!”

“Não teria sido melhor contratar um advogado?”, perguntou o escrivão. “Não que eu duvide da sua capacidade de se defender sozinho, mas para enfrentar a turma do meio ambiente nunca é demais contar com um rábula experimentado em questões ambientais... Esses advogados estão na moda”.

“Cheguei a pensar nisso, mas desisti. Seria humilhação demais, não sei se você me entende. Por isso me enchi de razões e elaborei uma catilinária desaforada em que me defendi com honra e garra, terminando por dizer que era um absurdo que uns inconsequentes pretendessem me fazer de fármaco de um acidente para o qual não tinha concorrido... Você sabe o que quer dizer fármaco? É bode expiatório, em grego...”

“Parece nome de remédio,” observou Pedro.

“Tenho certeza que li a expressão em algum lugar com o significado de bode expiatório... E não foi em termos metafóricos,” disse o visitante.

“Em termos metafóricos não seria vantagem porque metaforicamente até crocodilo é xoxota,” proclamou Pedro, rindo.

“Boa tirada, Pedrinho. Mas seja lá o que significa a palavra fármaco, eles que quebrem a cabeça para saber do que se trata. No mínimo, vão pensar que é um termo jurídico...”

“Boa tirada, meu amigo”, foi a vez de Pedro retribuir o elogio.

“Que em nada adiantou para aliviar a dor que desde aquele dia martiriza meus costados...” remoeu-se o visitante.

“E você ainda conserva o bebedouro para os beija-flores?”

“Por que não?”

“Porque se fosse eu tinha acabado com ele imediatamente e ainda ia ficar gritando no quintal, xô, beija-flor, xô.”

“Com esta eu vou embora.”

E o amigo do escrivão levantou-se devagar sendo acompanhado gentilmente por Pedro que o levou até a porta, só não o transportando numa cadeira de rodas porque na delegacia não tinha uma e, se tivesse, não teria rodas.


[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Naquela manhã, Pedro, o escrivão, entrou na delegacia com cara de Nosferatu que passou a noite sem achar uma jugular para saciar sua hemato...


Naquela manhã, Pedro, o escrivão, entrou na delegacia com cara de Nosferatu que passou a noite sem achar uma jugular para saciar sua hematofagia. O aspecto de vampiro famélico não passou despercebido a Lenilda.

“O senhor está esquisito, seu Pedrinho! Chegou para trabalhar de cara franzida, falando sozinho... Será que se esqueceu de tomar em jejum seu suco de limões galegos espremidos?” perguntou a faxineira ao escrivão de polícia que acabava de aportar na delegacia.

“De fato, Lenilda, tenho andado taciturno.”

“Taciturno?!”

“É... calado, tristonho, cismado... Nunca ouviu falar em taciturno?”

“Já, mas pensei que era nome de homem...”

“Não me diga, Lenilda! Parece que estou ouvindo Digital falar...”

“Por Deus que eu pensava... E por que o senhor está assim?”

“Tudo porque li no livro Amor e Erotismo, do mexicano Octavio Paz que, para os budistas o eu é uma construção mental sem existência própria, uma quimera...”

“Que idéia mais complicada, seu Pedrinho... Se eu ficasse pensando nessas coisas, acabaria lelé da cuca,” disse Lenilda.

“Você tem razão porque é mesmo para se perder a razão. Pensa bem: se o eu não existe, segundo os budistas, como é que eu e você podemos dizer que somos pessoas distintas uma da outra, com sentimentos, desejos e pensamentos próprios? Por que se o meu eu – preste bem atenção – se o meu eu não existe, porque só na minha consciência existe a crença de que o meu eu exista, nada tem significação e sentido, pois, por dedução lógica, o que existe é o nada absoluto, está entendendo?”

“Não entendi nadinha, seu Pedrinho. Não é à toa que o senhor está tão taci... como foi que o senhor disse?”

“Taciturno.”

“Isso aí. Para o senhor melhorar vamos na cozinha da delegacia que eu faço um café quentinho para nós dois. Depois o senhor fuma um cigarrinho pra suas idéias voltarem pro lugar.”

Mas não foi possível irem porque naquele momento chegou o delegado e chegou de cara mais “nosferática” do que a de Pedro. E já mostrava pelo carrancudismo da carranca que não ia ser um dia bom para o escrivão, que foi convocado para uma conversinha na sala do delegado.

[Deste parêntese em diante a cena se passa com o delegado, e o texto corre no estilo dialogado de peça de teatro, ficando aos leitores imaginar o cenário e as reações dos atores, conferindo-lhes dramatismo ou comicidade a livre gosto].

Digital: Eu fiquei sabendo, seu Pedro, que você tem um site na Internet...

Pedro: Quem lhe disse?

D: Minha mulher Engrácia. Ela é que fuça essas coisas. Não tem o que fazer, fica de rabo grudado em frente do computador.

P: E descobriu meu site?

D: Foi. Ela me disse até que seu site tem nome de mulher...

P: Nome de mulher?!

D: Se não me engano é Tertúlia. Tanto nome macho por aí e você vai logo arranjar um nome que mais parece de piranha.

P: É verdade, Digital. Eu podia ter posto Pedrão, não é mesmo?

D: Gostos (Digital falou a palavra com o aberto) não se ‘discute’. Eu, por exemplo, não como nada que tenha glúteo. Mas a questão “grucial” é que minha mulher disse que você está me desmoralizando no site...

P: Estou desmoralizando você no site?

D: Foi o que Engrácia disse. E ela é como eu – tem olho de águia.

P: E o que dona Engrácia viu contra você no meu site?

D: Ela leu no site uma peça de teatro que tem um delegado que se parece comigo. Um delegado que é a minha cara, ela disse.

P: Você podia ser mais claro?

D: Engrácia me mostrou... É uma peça chamada, se não me engano, Auto do Túmulo de Anchieta. Está lá e você não pode negar.

P: E você acha que o delegado da peça é você?

D: Claro que não sou eu com o meu nome, que ninguém ia chegar a tal “peitulância”. Mas é a minha cara cuspida e escarrada pelo que Engrácia falou.

P: Você leu a peça?

D: Você sabe que eu não gosto de ler. Mas Engrácia leu e deu a opinião dela, que para mim basta. É um delegado machão que gosta de respeito e não admite ser passado pra trás como eu.

P: Olha, Digital, por muito respeito que eu tenha pela opinião de dona Engrácia, desta vez o olho de águia dela se enganou. O delegado da peça não é você! Tira esta idéia da cabeça.

D: Tiro pícolas nenhuma. Eu já investiguei direitinho. Quem escreveu a peça foi aquele escritor seu amigo que já esteve preso aqui. Ele estava tirando umas fotos da delegacia quando foi encanado, está lembrado? Por isso me botou na peça sem a minha autorização. E isso eu não admito! Está usando a minha imagem sem o meu consentimento.

P: Mas é um absurdo, Digital! Não faz o menor sentido o que você está dizendo!

D: Preste atenção no meu aviso, seu Pedro: se você não tirar a peça do seu site eu vou chamar o escritor seu amigo para um bate-pau na minha sala. Ele não vai gostar nada do que vai ouvir e o que via lhe acontecer.

P: Se você fizer uma coisa destas, Digital, vai cair no ridículo!

D: Ridículo é você querendo proteger seu amigo.

P: Deixa eu lhe propor uma questão, delegado: você se considera uma pessoa de baixo nível de inteligência?

D: Qual o sentido oculto da sua pergunta?

P: Você se considera burro?

D: É lógico que não!

P: Pois então você não é o delegado da peça porque o delegado da peça faz papel de burro e de bocó ao mesmo tempo. Estou falando porque eu li a peça antes de botar no site. Por isso garanto que o delegado não é você!

D: Apesar do que você está dizendo vou conversar novamente com Engrácia. Se ela concordar com sua opinião dou o assunto por encerrado.

P: Ótimo, Digital. Converse com ela, diga que você falou comigo, pede para ela reler a peça com atenção, depois me conte o resultado.

D: É o que vou fazer.

P: Tenho certeza que o olho de águia de dona Engrácia não vai falhar desta vez.

D: O olho dela e o meu também, porque agora vou querer ler essa merda de peça do começo ao fim.

P: Nem precisa ler tudo, para não ficar cansado. Leia somente a parte do delegado. Leia devagar sílaba por sílaba e depois me dê sua opinião.

D: Como é mesmo o nome da peça?

P: Auto do Túmulo de Anchieta.

D: É auto por que o túmulo de Anchieta fica na cidade alta, em Vitória?

P: Taí, Digital, você acertou na mosca!

[Fim do teatrinho oferecido à imaginação dos leitores].

“Podemos ir ao café, seu Pedrinho? Ou o senhor já melhorou depois da conversa com o dotô?” perguntou Lenilda cercando Pedro no corredor da delegacia depois que ele saiu da sala de Digital.

“Vamos ao café, minha amiga. Vamos para comemorar porque na conversa que tive com o delegado acabei de confirmar que o eu realmente só existe na cabeça das pessoas, ou seja, na cabeça de cada eu. Digital me deu a prova de que nada tem significação e sentido a não ser a significação e o sentido que cada um, ou seja, que cada eu empresta ao seu próprio significado e sentido, por mais sem sentido que possa parecer.”

“Olha, seu Pedrinho, eu nunca pensei que dr. Digital fosse tão inteligente,” disse Lenilda admirada.

“Pelo contrário, minha amiga. Ele é o mais burro dos burros que já encontrei na minha vida. Vou dizer mais: ele raciocina como um tamanco!” disse Pedro.

“Agora é que não entendi nada,” confessou Lenilda de cara abobalhada.

“No cafezinho eu lhe explico,” disse Pedro puxando-a pela mão às gargalhadas.

[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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© 2019 Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Pedro parou na banca de jornal, a três quadras da delegacia para comprar um maço de cigarros, quando a RP 015 encostou ao seu lado. Ao volan...

Pedro parou na banca de jornal, a três quadras da delegacia para comprar um maço de cigarros, quando a RP 015 encostou ao seu lado. Ao volante, Anastácio ofereceu carona.

Pedro podia ter recusado já que estava quase chegando ao trabalho, mas aceitou.

Anastácio, vez por outra, enriquecia o repertório de anedotas de Pedro que tinha apenas o trabalho de aprimorá-las com mise-en-scène para repassá-las aos amigos. Só que não deu tempo para Anastácio contar a última. O percurso era pequeno e logo chegaram à Chapot Presvot, 272, sendo atropelados pelo delegado Digital.

O delegado aguardava a RP indócil. Foi o tempo de abrir uma das portas laterais e entrar como um bólido, ordenando: “Toca para o centro da cidade. Dois pivetes assaltaram uma financeira e adentraram num prédio na Duque de Caxias. Rapidinho.”

“E eu, delegado!?” perguntou Pedro que não pode sair da viatura.

“Você vem junto!” decretou Digital.

“Mas eu sou escrivão de polícia!” reclamou Pedro, embora tardiamente porque a RP já havia partido rangendo as borrachas no asfalto.

“É bom que você aprenda como a polícia age,” disse Digital como se Pedro, escrivão calejado, ignorasse o modo de agir da polícia e, em particular, de Digital.

Na Duque de Caxias não faltam prédios velhos e desocupados. Se Pedro soubesse de cor as palavras com que o cronista José Carlos de Oliveira descreveu o local, era o caso de repeti-las: “estamos na tortuosa, ondulante, magnífica rua Duque de Caxias, onde o que restou do Brasil-Colônia se esfarela, se enferruja, se carcome, estala e de vez em quando desaba num fragor de tijolos bolorentos e telhados podres”.

Foi diante de um desses mulundus em frangalhos que a RP 015 parou de sirene aberta, as lanternas psicodélicas piscando como boate ambulante, atraindo gente de todos os lados. Os dois pivetes, depois de assaltarem a financeira Quadrângulo, na praça Costa Pereira, teriam sido vistos entrando, não se sabe como, num dos pardieiros “da tortuosa, ondulante e magnífica rua”.

Saltando da viatura com a fúria de um buldogue, Digital gritou para dois policiais que o precederam no encalço aos assaltantes: “Limpem a área! Afastem os pentelhos! A polícia é que é incumbente de pegar bandido!”

Pedro, que saiu da RP atrás do delegado, caiu na burrice de dizer: “Pela porta da frente não entrou ninguém. Está fechada com tapume.”

“Não meta o nariz onde não é chamado,” esbravejou Digital. “Você veio aqui para ver a polícia agir e não para dar pitaco!”

O escrivão se recolheu então à condição de aprendiz da ação comandada pelo delegado, e já que estava em frente de outro edifício ainda em funcionamento, no qual trabalhava seu amigo, autor da tira de textos da Chapot Presvot, 272, decidiu subir para rever o escritor e, lá de cima, assistir à investida de Digital na captura dos assaltantes da Quadrângulo.

Pedro sabia que a sala do amigo dava estrategicamente para o prédio em despedaços diante do qual a RP 015 havia estacionado, sendo possível devassar o interior do soturno pardieiro através dos velhos janelões escancarados.

Mas curiosamente, quando Pedro entrou na sala, o amigo não dava a mínima atenção para a balbúrdia que reinava na rua, concentrado sobre o teclado de um computador.

Constrangido por não ter sido percebido, Pedro se anunciou raspando o pigarro da garganta.

“Com todos os demônios, eu não vi você chegar,” disse o amigo de Pedro.

“Cheguei, mas sem os demônios,” respondeu ele, procurando ajustar sua magreza na cadeira de encosto flexível que lhe foi oferecida. Nisso que falou, nisso pensou, com os seus pigarros dos cigarros que o único demônio que o acompanhara tinha ficado na rua de arma no coldre e focinho arreganhado, dando ordens aos policiais que forçavam, com um pé de cabra saído não se sabe de onde, o tapume de madeira do prédio onde os dois pivetes teriam se infiltrado.

“Como você consegue ficar alheio ao rebuliço lá de fora?” indagou Pedro. “Não me diga que está em plena atividade literária.”

“É por aí... Se não me interesso pelo rebuliço lá de fora é porque dou preferência ao que está se passando aqui, nesta telinha iluminada,” e o amigo de Pedro indicou o monitor onde se alinhava o texto que estava escrevendo.

“Posso saber que texto é este?” perguntou Pedro desligando-se, como intelectual que era, do bafafá que reinava no rés da rua.

O amigo respondeu com bonomia:

“O texto é sobre o que está se passando lá fora. Em outras palavras: o que está se passando lá fora está se passando aqui dentro da telinha. Ou para ser mais explícito: só estão se passando coisas lá fora porque elas se passam diante dos meus olhos. Percebeu a dimensão em que se trava o nosso encontro?

Como Pedro ainda não tivesse captado o espírito da “coisa”, o amigo convidou: “Dê uma olhada no que escrevi linhas atrás,” e apontou o trecho com o dedo: “Cheguei, mas sem os demônios,” respondeu Pedro, procurando ajustar sua magreza na cadeira de encosto flexível que lhe foi oferecida.”

“Então estou diante do escritor atuando no espaço virtual da sua criação literária?” indagou Pedro animando-se com a própria indagação.

“Tu o disseste. É por isso que não preciso ir à janela para ver Digital em polvorosa, nem o que está se passando no entorno dele. Porque o que se passa lá fora se passa no ‘quadrângulodo computador, onde estamos eu, você, Digital, a RP de luzes espalhafatosas, o povo aglomerado na expectativa da prisão dos dois larápios que se ocultaram num prédio em pandarecos.

“Uma criação em se fazendo,” definiu Pedro para se manter no espírito literário da conversa.

“Tão em se fazendo que você pode dar uma mãozinha. Quer tentar?”

“Por onde começamos? Ou de onde continuamos,” arvorou-se Pedro, esfregando as mãos momentaneamente vazias de cigarro.

“Pegue do ponto onde o texto parou e mande bala. Mas lembre-se de que a questão principal a ser resolvida é como o delegado vai conseguir ou não prender os dois bandidos,” disse o escritor a Pedro.

“Ou como queremos que ele os prenda, se é que queiramos”, completou o escrivão.

Queiramos, não, porque estou passando a você a pilotagem do texto. Assuma o comando e continue a perseguição. Eu fico só de co-piloto para eventuais emergências. Proposta aprovada?”

Nem foi preciso dizer mais nada. Assumindo o lugar do amigo diante do computador, Pedro se pôs a digitar, e digitar rapidamente como bom escrivão que era. Cinco minutos depois, tinha terminado.

“Leia a sua contribuição,” pediu o amigo de Pedro.

E Pedro leu: Digital entra no velho prédio pelo tapume que foi posto abaixo e faz uma investigação completa, à procura dos sumidos assaltantes. Não encontra vivalma. No último andar, tropeça num restolho de parede demolida, bate com a cara no assoalho e quebra o nariz que sangra. O herói, que iniciara a busca aos bandidos num arrojo de mastim, deixa o prédio pela porta arrombada com a carranca envolta num lenço ensanguentado, a caminho do pronto-socorro. Vive a triste humilhação do anti-herói.

“O que você achou?” perguntou, concluída a leitura.

“Perfeito, inclusive pela sua desforra contra Digital,” elogiou o amigo.

“Que desforra?”

“O nariz quebrado do delegado, meu caro! No começo da batida, Digital disse para você não meter o nariz onde não era chamado. Inconscientemente você foi à forra, esmigalhando o nariz do seu chefe num assoalho desgastado. Solução primorosa, anticlímax perfeito que tem ainda a originalidade de partir de um dos protagonistas da história, um dos passageiros da RP 015, o escrivão da Chapot Presvot, 272. E quer saber de uma coisa? Está na hora de você ir ao encontro do delegado. Pela sua proposta de enredo, ele está precisando de ajuda. A missão é sua, meu caro. Não foi à toa que a Providência Divina o pôs na RP da batida na Duque de Caxias.”

“Providência Divina?” indagou Pedro que se preparava para sair. “Como você explica a intervenção dessa providência no contexto de um texto que é nosso?”

“Desde que você encare a expressão em tom de blague, ela vem a calhar. Não se esqueça de que estamos na tortuosa, ondulante e eu diria também soturna Duque de Caxias, onde tudo é possível!”

“Será que estamos mesmo?” perguntou Pedro retirando-se da sala.


[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Como todo bom leitor dos autores russos consagrados, Pedro também tem o seu dia de romance policial – “um policial facultativo” –, com pre...



Como todo bom leitor dos autores russos consagrados, Pedro também tem o seu dia de romance policial – “um policial facultativo” –, com preferência para Simenon, menos pelo teor detetivesco das histórias do comissário Maigret do que pela mestria com que o escritor belga arma a ambientação em que se desenvolvem suas narrativas.

Bem a propósito, Pedro costuma dizer, do alto do seu grau de imortal de Academia de Letras, que o melhor de Simenon está no lado extrínseco das suas histórias e não no seu viés intrínseco – quem quiser que decifre o não muito sherloqueano enigma.

“Eu sei o que estou dizendo,” limita-se aduzir batendo no peito magro. E a se considerar a força com que sublinha sua eloquência não muito fática, esmurrando a caixa toráxica intrinsicamente sombreada pela pátina enfumaçada dos cigarros que cigarreou de longa data, é de se crer que a sentença proferida tenha o valor de um princípio irrefutável. Há que se aceitá-la e pronto e ponto.

Diga-se agora, para a continuidade do que se vinha dizendo, que foi num fim de semana em Vargem Alta que Pedro leu A noite na encruzilhada, de Simenon.

O romance o deixou em estado de fascínio intelectual ante a técnica literária do autor ao descrever um caso de sedução não consumada entre o comissário Maigret e a principal personagem feminina da história.

A cena, de insinuante erotismo, se passa numa casa misteriosa, à beira de uma encruzilhada, no interior da França. O clima de envolvimento entre Maigret e a mulher solitária é favorecido pela meia-luz de um quarto onde os raios do sol penetram fatiados em lâminas pelas persianas da janela. O resto é um delicioso jogo de insinuações e meias palavras que Simenon põe na boca dos seus personagens, construindo uma página antológica que empolgou Pedro.

Paradoxalmente, porém, o escrivão teve uma noite de pesadelo, sob o efeito da leitura do capítulo magistral, conforme contou a Nanico, quando chegou à delegacia.

“Você tem que me ouvir, Nanico, para que eu esconjure o mau pedaço que passei dormindo. Aliás, dormindo e sofrendo.”

“Você sonhou que estava sendo trucidado pela personagem do romance?” perguntou Nanico, oferecendo a orelha amiga para que Pedro inoculasse nela o seu desabafo.

“Pior, meu amigo. Meu pesadelo se passou aqui na delegacia. Eu havia chegado cedo para trabalhar quando Digital me chamou à sala dele. A delegacia estava calma e lá fora um sol primaveril apascentava a cidade de Vitória. Lembro-me bem que bati na porta, antes de entrar, e o delegado, no seu estilo boçal, gritou “eeentraaaa”, e eu entrei.

A princípio não distingui direito o interior do gabinete porque eu saía de um ambiente de primavera iluminada para outro, à meia luz, entrecortado por faixas de sol, mortiçamente filtradas pelas persianas da sala, semelhante ao que havia lido no romance de Simenon. Se tivesse de definir o cenário onde me achava diria que era um lugar zebrado de luz e sombra (sem falar, é claro, na zebra do delegado). Mas ao contrário de uma mulher sedutora, que estivesse à minha espera, o que vi foi Digital em pé, em cima da mesa, como um boneco dançarino, cantando o samba de Ataulfo Alves e Mario Lago, Atire a primeira pedra, que começa com o verso covarde sei que me podem chamar. Era uma cena grotesca que, no entanto, me magnetizava: o delegado sobre a mesa, se requebrando como uma stripteaser ao som de um samba que ele mesmo cantava. E tenho que reconhecer que entoado Digital é!”

“Isso já era uma submissão de seduzido?”, perguntou Nanico brincalhão.

“Talvez fosse porque ao mesmo tempo em que eu desejava sair da sala para me livrar da visão agressiva e bizarra, queria ficar para ver até onde o delegado era capaz de ir. O curioso é que eu pensava exatamente assim, no pesadelo, como se dissesse para mim mesmo, num plano de entressonho, que a qualquer momento podia acabar com aquela situação vexatória, bastando que acordasse. Mas não acordei.”

“E o delegado foi em frente...” disse Nanico.

“Foi. À medida que cantava ia tirando a roupa peça por peça, com gestos patéticos, sem parar de cantar, começando por baixar os suspensórios e descalçar os sapatos de verniz de bico fino que jogou na minha direção, com um sorriso boçaloide sob o bigode obsceno, enquanto continuava a se despir e a cantarolar, atire a primeira pedra, ai, ai, ai, atirando-me a gravata vermelha e a camisa verde-clara, suada e pegajosa, de mangas compridas, aquele que nunca sofreu por amor, e me vieram à cara as calças largas com os suspensórios pendurados, eu sei que vão censurar o meu proceder, e me alcançam o nariz as meias mal-cheirosas, seguidas de outra pedrada que era uma camiseta do tipo regata que me bate na testa, eu sei, mulher, que você mesma vai dizer que eu voltei pra me humilhar, e assim peça por peça ou pedra por pedra toda a indumentária do delegado me foi arremessada em golpes indefensáveis até que, num desnudamento final aquela Salomé virago e peluda me lança a cueca azul de bolinhas brancas, enquanto repete eufórica e estridente, mas não faz mal, você pode até sorrir, exibindo-me a genitália ignóbil, aliás, a digitália ignóbil. Não satisfeito com a exposição vergonhosa, virou-me as costas e me mostrou os fundilhos brancos e sórdidos, cantando perdão foi feito pra gente pedir.

Nem assim você acordou?” perguntou Nanico agoniado com o relato de Pedro.

“Quase acordei, Nanico. Mas por um desses mistérios que só acontecem nos sonhos, creio que meu inconsciente foi tocado pelo meu consciente revoltado e, repentinamente, comigo ainda numa solonolência esgarçada e renitente deu-se uma reviravolta compensadora no rumo do pesadelo: o que antes era um Digital abominável transformou-se numa mulher deslumbrante que me seduzia, nua e tentadora, piscando-me os olhos de castanholas.”

“Olhos de castanholas?!”

“Capitu, de Machado de Assis, não tinha olhos de ressaca? A musa do meu sonho tinha olhos de castanholas, e daí?”

“Daí que foi então aquela festa flamenga entre você e os olhos de castanholas,” disse Nanico ansioso por conhecer o clímax do sonho de Pedro.

“Que nada, Nanico, porque no melhor do melhor do meu sonho o despertador tocou e eu acordei duplamente chateado: pelo vexame a que me vi exposto no pesadelo com Digital, e pela frustração de não ter ido em frente com a castanholeira que bailou para mim o bailado mais lascivo a que já assisti na minha vida.”

“Não é para menos...” disse Nanico solidário com a má sorte do colega.

“Mas o mais irônico veio depois, meu amigo. Eu tinha certeza de que havia visto a mulher sonhada em algum lugar e quis por que quis me lembrar onde foi. Já pensou se ela estivesse ao meu alcance, na vida real? Esta possibilidade me espicaçava.”

“Espicaçava é o verbo adequado. E se lembrou?”

“Lembrei-me, não. Apareceu a margarida quando o despertador me acordou: era a bailarina que estava decalcada no mostrador do relógio... Não é para arrebentar meu cavaquinho?”

“Se fosse você eu quebrava o despertador,” disse Nanico.

“Foi o que eu fiz, meu amigo. Quebrei-o com bailarina e tudo. E ainda trouxe para mostrar a você a dançarina que sobrou do quebra-quebra. Veja-a. Não é lindamente sedutora?”

“Ela me lembra Digital...”, disse Nanico, rindo debochado do dedo fálico que Pedro lhe mostrou.



[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)


Co-edição com a Cândida Editora [Edição digital - ISBN 978-85-64258-13-6]


 SANTOS NEVES, Luiz Guilherme. Escrivão da frota. Vitória: Estação Capixaba / Cândida Ed., 2017.

Há 73 anos um menino pedalava seu velocípede na calçada de cimento da José Bonifácio. Havia nascido cinco anos antes na casa nº 1 daquela ...



Há 73 anos um menino pedalava seu velocípede na calçada de cimento da José Bonifácio. Havia nascido cinco anos antes na casa nº 1 daquela rua, sendo recebido para o mundo pelas mãos de Dona Augusta Mendes, a parteira que atendia a domicílio as parturientes da cidade antiga.

Nas pedaladas que dava de um lado para o outro como velocista de velocípede, o menino se sentia um Pintacuda (esta é uma referência de época ao campeão de corridas automobilísticas) preparando-se, sem o saber, para futuras conquistas geográficas.

Uma delas seria a do Parque Moscoso, situado à curtíssima distância da casa onde nascera.

Desse tempo de infância, o menino guardaria uma de suas mais caras e recuadas lembranças quando, ao lado de seu pai, um iniciante professor de português, ambos foram ao Parque e se sentaram num banco de concreto sem encosto, reto como uma tábua, duro como uma pedra, onde o menino merendou banana prata diante de um jardim com flores de inesquecíveis corolas amarelas.

Um pouco adiante estava o Parque Tênis Clube com seu alambrado alto e duas quadras de saibro demarcadas com linhas brancas como fitas espichadas pelo chão.

Mas ainda não era o momento do menino saber que iria jogar naquelas quadras.

Seria necessário que, antes de ser fazer tenista-mirim aos 12 anos, ele se mudasse com seus pais e seu irmão da casa de nº 1, onde nasceu, para morar temporariamente na casa de seu avô paterno, na Rua da Santa Casa (então denominada Misael Pena), sobre uma padaria que a cada fornada expandia o cheiro irresistível do pão fresco pela vizinhança toda.

Talvez – ainda que seja esta uma ideia romântica – talvez o odor do pão saído do forno chegasse até as corolas amarelas do Parque Moscoso, a pouca distância da padaria.

Aos seis anos, o menino volta a se achegar ao Parque de sua origem, de cuja órbita nunca escapou indo morar na residência nova da Rua Afonso Brás, 73. Dali, esticando o olhar pela Rua Vasco Coutinho, podia ver o Parque Tênis Clube que se situava onde foi construído o Jardim da Infância Ernestina Pessoa, e onde o menino se iniciou no jogo do tênis sem que lograsse passar do primeiro grau como tenista para jamais ser um campeão nesse bretão esporte.

Mas, afinal, que Parque Moscoso era este de que estamos falando?

Que nos conduza através dele o menino desta crônica não mais pedalando um velocípede, mas encimado numa bicicleta Hércules, de cor preta, aro 28, farol niquelado no meio do guidon, na qual ia prazerosamente andar sobre o piso de areia batida do Parque Moscoso.

Eis que o menino deixa a Vasco Coutinho de atenção alertada para se prevenir do bonde que passa pelos trilhos da 23 de Maio, vindo de Santo Antônio e indo para a Praça Costa Pereira, ou vice versa.

Pedalando sem parar prossegue em demanda da Alameda Paulo Mota – que através do parque era uma projeção natural da Avenida José Carlos, atual Marcos de Azevedo e que, com o seu nome, rendia homenagem ao idealizador da planta física do Parque que apesar das sucessivas intervenções sofridas conserva relativamente até hoje as suas bem traçadas linhas.

Firme na bicicleta, o menino contorna o coretinho com telhado de flandres e escadinha lateral onde a poucos metros desse coreto armava-se um tablado em que pulavam os foliões e mascarados que no Carnaval vinham a pé de Caratoíra e Vila Rubim cantando animadamente sambas e marchinhas; o menino passa em seguida em frente ao Orchidário, escrito com ch, que tem o formato de uma oca indígena gigantesca; roda agora pela fonte dos Cavalos, o mais antigo monumento do Parque; avança na direção do Clube Vitória, na esquina da Avenida Cleto Nunes, mas sem sair do Parque; dobra para a esquerda onde fica hoje a Concha Acústica; corta transversalmente a grande alameda dos oitis que, de ponta a ponta, vara o Parque, dando-se o menino à brincadeira de fazer a bicicleta tirar um fino na máquina fotográfica de um lambe-lambe, apoiada num tripé de madeira; atinge a curva em que, do outro lado da Cleto Nunes localizavam-se o Cine Politeama e a Padaria Sarlo; vira à esquerda e segue pelo piso de areia grossa tendo à sua direita a Avenida República com seus canteiros centrais, postes com luminárias e trânsito nenhum, e tendo à esquerda o lago central do Parque com as ilhas artificiais que lhe dão graça e servem de cenário de romance para os namorados se fotografarem ao estilo das décadas de 30 e de 40; chega agora na extremidade em que fica a esquina da Avenida República com a Rua José de Anchieta, onde mais à frente situa-se o Quartel da Polícia Militar com suas ameias eriçadas para uma guerra que nunca houve; ganha novamente a alameda Paulo Mota, ladeada por fícus verdejantes, rente aos quais o menino tira outro fino, já sabemos que se trata de um jovem ciclista que gosta de tirar finos, pedalando a bicicleta. Nessa alameda o menino atinge um conjunto de fícus majestosos, hoje substituídos por uma cancha esportiva rasteira e rasa, perto dos quais tinha lugar o recreio dos alunos do curso primário do Colégio Sagrado Coração de Jesus, da professora Mariazinha Silva, o menino entre eles; passa depois pelo chafariz com suas clássicas figuras esculpidas em bronze cujos jorros o vento espalha; chega próximo do alambrado do Parque Tênis por onde ramas de trepadeiras se engatam; enviesa para a esquerda, e – atenção, senhoras e senhores, atenção porque, fechando o périplo pelo Parque Moscoso, o menino, com sua hercúlea bicicleta preta, aro 28 e farol niquelado no meio do guidon, vai passar pelo banco de concreto sem encosto, reto como uma tábua, duro como uma pedra, onde num indeterminado dia de sua infância, acompanhado pelo pai, merendou banana prata diante de um jardim com flores de inesquecíveis corolas amarelas.

Embora o menino não seja capaz de identificar esse banco duro e reto quando bicicleteia ao lado dele, tal lapso de memória há de lhe ser perdoado porque em nada desfaz a força nostálgica da recordação que conservará permanentemente desse imorredouro recanto do velho Moscoso.

Que velho Moscoso era este?

Se a volta dada na companhia do menino em sua bicicleta não foi bastante para responder à pergunta que se repete, diga-se então que era um parque que estava com pouco mais de trinta anos de idade, desde que fora inaugurado, e que se afirmara desde a sua criação como a única e nobre área verde de Vitória, espaço aberto ao povo, sem muralhas e sem portões, sem roletas e sem gradis, para que todos pudessem nele entrar e dele sair com a naturalidade de quem vivia tempos de um viver provinciano e pacato.

A este parque, e ao que resultou dele em virtude das intervenções que acabou sofrendo para o bem e para o mal, o menino, que se fez adulto, continuou gravitacionalmente ligado durante sua vida.

Dispenso-me de espichar outras lembranças além das que foram levantadas. Mas não posso deixar de dizer (e faço questão de fazê-lo alto e bom som) que o menino que se fez velho tendo o Parque Moscoso como centro de gravidade ao longo de sua vida acha, sem modéstia alguma, que se faz merecedor da gentileza de um gentílico que é para si um motivo de orgulho: o de ser um parquemoscosense da gema!



NOTAS EVOCATIVAS



1. Rua José Bonifácio


A Rua José Bonifácio ainda existe e mantém a denominação. Ela serve de ligação entre as Ruas Henrique Coutinho e Washington Pessoa, no Parque Moscoso. A casa nº 1, e a de nº 2, sua vizinha, construídas próximas à atual Escadaria Sana Cecília, eram de planta e arquitetura idênticas. Pertenciam ao Sr. Alexandre Buaiz, que as alugava. As casas hoje estão reunidas numa só construção comercial. Conserva o nº 1.


2. Parque Tênis Clube


O Parque Tênis Club tinha como associados profissionais liberais e comerciantes de Vitória para a prática do jogo do tênis. Situava-se onde foi construído, no governo Jones dos Santos Neves (1951-1955), o Parque Infantil Ernestina Pessoa, cujas dependências estão hoje ocupadas pela Escola da Ciência Física, pertencente ao município de Vitória. Cercado de alambrado, dispunha de duas quadras de saibro separadas por um corredor que terminava na sede social do clube – um pequeno prédio de dois andares. A entrada habitual dos sócios era pelo portão que dava para a Rua 23 de Maio, ao lado do qual havia um depósito para a guarda das redes e demais equipamentos de limpeza do parque.


3. Padaria Electrica


A Padaria Electrica localizava-se na Rua Misael Pena – hoje João dos Santos Neves -, na época popularmente denominada “Rua da Santa Casa” por influência do hospital situado no morro dessa rua e que tinha seu acesso principal por meio de larga escadaria, atualmente posta em desuso. A padaria ocupava uma das dependências (lojas) que havia embaixo do sobrado onde morava a família do Dr. Jones, como era conhecido o médico que era um dos donos da padaria. Esta, durante muito tempo, atendeu a uma clientela de fregueses que tinha centro na região do Parque Moscoso, competindo com a Padaria Sarlo (da família Sarlo), que ficava na esquina da Avenida Cleto Nunes com a Avenida República.


4. Rua Afonso Brás e Vasco Coutinho


A Rua Afonso Brás tem inicio na Avenida Marcos de Azevedo e segue em direção ao pé do morro da Santa Clara, sendo transversalmente atingida, quase no final, pela Rua Vasco Coutinho. Exatamente neste ângulo situa-se a casa de nº 73, de que trata a crônica. Por seu turno, a Rua Vasco Coutinho desemboca na Rua 23 de Maio depois de receber, como se fosse um afluente enladeirado, a Ladeira da Santa Clara. A rua tem, nas duas esquinas que a formam, diante do Parque Moscoso, dois imóveis característicos do velho Moscoso. No lado direito de quem entra na rua, uma casa que pertenceu ao Sr. Alcides Guimarães, estilo final da década de 40, do século passado, “de concreto armado” como se dizia, com “moderna” arquitetura em linhas retas, hoje revestida de azulejos. Na esquina oposta fica o que resta do notável palacete da segunda década do século passado, com o nome de Villa Oscarina. Pertenceu originariamente ao comerciante Antenor Guimarães, passando depois a seu filho Orlando Guimarães. A denominação do imóvel foi homenagem à única filha mulher de Antenor Guimarães, casado com Ana da Cruz Guimarães. Depois da morte do marido, a viúva passou a residir na parte debaixo da casa, sendo a parte superior ocupada pelo filho do casal, o também comerciante Orlando Guimarães. A majestosa grade de ferro fundido do jardim (hoje infelizmente substituída por um muro tipo fortaleza) e os portões da Villa Oscarina (o de frente e o lateral) foram feitos em São Paulo, conforme informações colhidas a Oscar Augusto Saletto da Costa, sobrinho por afinidade (por parte de mãe) de Orlando Guimarães, que morou na Villa Oscarina mais de uma vez, durante a sua juventude.


5. O bonde Santo Antônio


Na década de 50 o bonde Santo Antônio vinha desse bairro, passava no Parque Moscoso pela Rua 23 de Maio, indo para a Praça Costa Pereira após percorrer a Rua Henrique Coutinho, a praça do Quartel (atual Misael Pena), a ladeira Dom Fernando, a Rua Coronel Monjardim e a Rua Sete. Antes dele existiu o bondinho Circular que também passava pela Rua 23 de Maio e circulava pelo centro de Vitória, servindo aos moradores da Cidade Alta e da Cidade Baixa (e do Parque Moscoso), uma vez que retornava pelo centro da cidade (pela atual Jerônimo Monteiro, a partir do Teatro Glória).


6. Clube Vitória


O Clube Vitória, que foi um dos mais tradicionais de Vitória nas décadas de 20 a 50, localizava-se em um sobrado, na esquina da Rua 23 de Maio com a Avenida Cleto Nunes. Era chamado “o aristocrático” por ter como sócios os membros das famílias de melhores condições sociais de Vitória que, todavia, não moravam apenas no centro da cidade. Paradoxalmente a decadência do Clube começou a se desenhar a partir da construção da sua nova sede, na Rua José de Anchieta, obra realizada pela CIEC – Comércio Indústria e Engenharia Capichaba Ltda. (depois sociedade anônima), dos irmãos engenheiros Jones Santos Neves Filho e Joel Santos Neves, sendo presidente do Clube o sr. Guaracy Assis. Influenciaram também na decadência do clube as mudanças sócio-econômicas por que passou a cidade de Vitória da década de 70 em diante, com a expansão urbana direcionando-se para a Praia do Canto. A nova sede do Clube Vitória, na Rua José de Anchieta (hoje o prédio, que envelheceu rapidamente foi adquirido pelo SESC), foi uma das últimas obras construídas pela CIEC nesse bairro (e a única não residencial) quando a tradicional nobreza do Parque começava a virar passado. Vale ainda o registro de que a CIEC, desde a sua fundação em 1954, destacou-se como a empresa capixaba de engenharia que, nas décadas de 50 a 70, mais edificou prédios residenciais na então valorizada área do bairro Moscoso, a saber: Edifícios Alpha, Marthélia, Serafim Derenzi (ex-Canopus), Procyon, Sheratan, Talitha, Régulos (na Rua Thiers Veloso), Churchil, Beethoven (na Rua 23 de Maio) e o prédio misto da Associação Comercial de Vitória (na Rua João dos Santos Neves).


7. Cine Politeama


O Cine Politeama foi o único cine “poeira” clássico que existiu em Vitória. Funcionava num barracão de alvenaria, coberto de zinco, localizado na esquina da Avenida Cleto Nunes com a Avenida República, tendo em frente, na esquina oposta, a Padaria Sarlo (este prédio ainda existe). O cine pertencia à família Cerqueira Lima, sendo comercialmente explorado como cinema popular pela empresa Santos e Cia., pertencente àquela família. O Politeama dispunha, na parte interna traseira, de uma “Geral” em forma de arquibancada semicurva, com acesso independente da entrada principal, destinada aos espectadores de menor poder aquisitivo, razão por que os seus ingressos eram vendidos a preços mais baratos. Na parte central do cinema havia, para os demais espectadores, cadeiras de madeira e, em piso ressaltado nas laterais, vizinhas das “cadeiras do meio”, bancos inteiriços para os assistentes que os preferissem. A cabine de projeção era isolada na parte de trás, diante da Geral. As sessões eram noturnas, uma por noite e, aos domingos havia matinês para o público infantil com filmes de faroeste e de mistério, geralmente em seriado. Na segunda-feira à noite a “sessão colosso” repetia os filmes que tinham passado no Teatro Carlos Gomes que a empresa Santos, proprietária ainda do Cine Teatro Glória, também explorava como cinema por concessão contratual monopolística que manteve com o governo do Estado durante muito tempo. No terreno onde existiu o Politeama seria construído pela família Cerqueira Lima o prédio em cujo térreo funcionou o Cine Santa Cecília, que marcou época como um dos mais luxuosos de Vitória. Com o tempo, e com o declínio urbano da área do Parque Moscoso, o Cine Santa Cecilia foi decaindo de qualidade e entrando também em decadência. No final de sua história como cinema exibia filmes de erotismo explícito. O cinema depois deu lugar a uma igreja evangélica.


8. Quartel da Polícia Militar


O quartel com planta quadrangular ficava onde está hoje o conjunto de serviços do SESC, na praça popularmente chamada “do Quartel”, atualmente denominada Misael Pena (esta era a denominação da atual Rua João dos Santos Neves, “a rua da Santa Casa”, cujo nome foi mudado em homenagem a Dr. Jones, depois do seu falecimento). Com sua planta quadrada, pátio interno largo, ameias no alto da fachada e corpo central em destaque, o quartel abrigava o contingente da Policia Militar antes de sua transferência para Maruípe.


9. Colégio Sagrado Coração de Jesus



O Colégio Sagrado Coração de Jesus, de ensino primário, pertenceu às irmãs vocacionadas para o magistério Odete, Iracema e Maria Silva, sendo esta última a diretora responsável pelo colégio, por isso também conhecido por “colégio de Dona Mariazinha”. Funcionou durante décadas na Rua Dom Fernando (em mais de um local), e fazia do Parque Moscoso o ambiente de recreio para os seus alunos, no intervalo das aulas. A casa da família de Dona Mariazinha situava-se na esquina da Rua Afonso Brás com a Vasco Coutinho.

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Corveta de guerra "Driver", irmã da "Geyser". James Cowan - "The New Zealand Wars". Pelo menos dois mari...

Corveta de guerra "Driver", irmã da "Geyser". James Cowan - "The New Zealand Wars".
Corveta de guerra "Driver", irmã da "Geyser". James Cowan - "The New Zealand Wars".


Pelo menos dois marinheiros ingleses, documentadamente, navegaram, em diferentes épocas, o litoral do Espírito Santo, deixando registros de viagem. O primeiro foi Anthony Knivet, grumete na expedição que o célebre corsário Thomas Cavendish empreendeu ao Brasil no começo da última década do século XVI; o outro, o aspirante a oficial de marinha Edward Wilberforce, integrante da oficialidade da corveta de guerra Geyser que esteve no Espírito Santo na primavera de 1851 sob o comando do capitão de fragata Edward Tatham, em missão repressiva ao contrabando de africanos.

Distanciados entre si cerca de dois séculos e meio, súditos, respectivamente, das notáveis rainhas Elizabeth II e Vitória, da Inglaterra, Knivet e Wilberforce deixaram-se tomar por idêntico impulso narrativo pondo no papel as principais impressões que colheram de suas passagens pelo litoral brasileiro. Contribuíram, desta forma, para que seus apontamentos e registros se tornassem documentos de valor para a historiografia como fontes de informação de nossa história.

No relato de Knivet, que cobre a navegação de corso que Cavendish empreendeu, em 1591, nos mares da costa sul brasileira, a parte relativa ao Espírito Santo é bastante sucinta. Nela o marujo limita-se a narrar, como testemunha participante, a frustrada tentativa de saque ensaiada pelos ingleses contra a vila de Vitória. Seu depoimento foi editado sob o título "Vária fortuna e estranhos fados" pela Editora Brasiliense Limitada (São Paulo, 1947) em versão do original inglês feita por Guiomar de Carvalho Franco, da qual se transcreve o trecho que trata da investida contra Vitória:

"No nosso navio havia um português que recolhêramos da embarcação apreendida, em Cabo Frio; este português, que fora conosco ao estreito de Magalhães, e aí testemunhara a nossa falência, falou-nos duma vila chamada Espírito Santo, dizendo-nos que poderíamos chegar à frente da mesma com os nossos navios, e aí, sem perigo, lograríamos tomar muitos engenhos de açúcar e boa quantidade de gado.

As palavras deste português fizeram-nos renunciar ao projeto de ida a São Sebastião, tomando o rumo do Espírito Santo; em oito dias chegamos à embocadura do porto, acabando por lançar âncora na baía e mandar nossos botes sondar o canal; não encontrando estes nem a metade da profundidade que o português nos dissera que encontraríamos, supôs o general que o luso nos havia traído e, sem nenhuma comprovação, fê-lo enforcar de imediato. Neste local, todos os fidalgos que restavam a bordo manifestaram desejo de ir à terra tomar a povoação. O general não o queria de modo nenhum, objetando-lhes diversos inconvenientes; nenhum argumento porém os convenceu, e foram os moços tão insistentes que o general, escolhendo cento e vinte homens dentre os melhores que possuía em ambos os navios, enviou ao capitão Morgan, praça de terra singularmente boa, e ao tenente Royden, como comandantes neste empreendimento. Desembarcaram, pois, diante dum pequeno forte, com um dos seus botes e dele expulsaram os portugueses; o outro bote seguiu mais além, onde houve uma escaramuça muito violenta, e a vida desses moços depressa se abreviou, pois apearam num rochedo fronteiro ao forte e à medida que saltavam fora do bote, escorregavam com suas armas para dentro do mar; assim a grande maioria deles pereceu afogada. Em conclusão, perdemos oitenta homens neste lugar, e dos quarenta que se salvaram, nem um só voltou sem uma flechada em seu corpo, chegando alguns a ter cinco e seis ferimentos."

O depoimento de Wilberforce sobre o Espírito Santo é bem mais extenso e informativo do que o de Anthony Knivet. o marinheiro vitoriano levou, sobre seu compatriota e antecessor, a vantagem de contacto mais demorado com a costa capixaba ao sul de Vitória, tanto com o litoral em si, por onde navegou em patrulhamento vigilante, quanto com algumas localidades que conheceu, inclusive a própria sede da então Província. Aliás, é a partir da cidade de Vitória que Wilberforce começa seus informes sobre o Espírito Santo.

Fica-se sabendo, assim, que os ingleses tiveram oportunidade de visitar a cidade, acanhada e sem conforto, renitentemente colonial embora aprazível em suas condições naturais. Aproveitando folgas e criando momentos de lazer, a oficialidade da Geyser percorreu os arredores de Vitória, enfiou-se por florestas e rios cujos nomes Wilberforce não registrou, enfrentou chuvas torrenciais, adquiriu peças de rendas e redes de dormir, viu como se fabricavam as redes de algodão cru. No palácio do governo os oficiais britânicos foram recebidos pelo presidente da Província, o bacharel José Bonifácio Nascente de Azambuja.

Impedido, por motivo de saúde e por proibição médica, de ir ao Convento da Penha, dele Wilberforce recebeu singela descrição feita por seus companheiros de bordo que não convenceu ao cronista, tendo-a atribuído ao espírito herético dos informantes.

Vê-se, por aí, que o escritor marinheiro entremeia informações de sua observação pessoal com outras, resultantes do testemunho de terceiros, chegando até a transcrever notícia de jornal brasileiro, cujo nome não cita, sobre a recepção que houve a bordo da Geyser reunindo personalidades da Província e que terminou sob o clarão de rojões.

Junto com os registros sobre a terra e seus habitantes, seus costumes e produção, Wilberforce, dando mostra de sua formação de oficial de marinha, anota referências, com valor de orientação náutica, sobre localidades do litoral espírito-santense para uso dos navegantes da época nas quais as indicações utilizadas são prosaicos identificadores da costa.

Olhos postos nos escravos contrabandeados, a eles faz diversas menções inclusive acerca dos locais em que se davam desembarques clandestinos, como em Guarapari e Piúma, por exemplo.

Como convinha a observador crítico dotado ainda de pendores literários, Wilberforce incluiu em sua narrativa pitadas de ironia e humor bem mais interessantes do que os extravasamentos líricos a que dá vazão ante a beleza natural da baía de Vitória que ele verteu em marolas poéticas de discutível qualidade literária.

Depois do regresso à Inglaterra, o texto de Wilberforce foi editado pela primeira vez, em Londres, em 1856, sob o título Brazil viewed through a naval glass with notes on slavery and the slavetrade (Brasil visto através de uma luneta com notas sobre escravidão e tráfico de escravos). A esta edição fez referência o escritor Norbertino Bahiense na obra O Convento da Penha (Vitória, Escola Técnica de Vitória, 1952), reportando-se ao ensaio crítico publicado por Afonso de E. Taunay no Jornal do Comércio, de 26 de agosto de 1945, denominado "Impressões de Vitória e seus arredores".

Impressões do Espírito Santo de 1851 foi bem o que captou Wilberforce através de sua esquadrinhadora luneta de oficial de marinha, e que se contêm nos capítulos XV e XVI do texto original, ora publicados em separata, visando-se a colocar ao alcance do público interessado mais um relato de um viajante estrangeiro que esteve em terras e mares capixabas no século XIX.

Luiz Guilherme Santos Neves


* * *

PREFÁCIO[ 1 ]


Este volume contém um simples relato do que vi na costa do Brasil. É forçosamente incompleto e fragmentado; a condição de um aspirante de marinha não lhe permite absorver muitos conhecimentos sobre os lugares que visita. Mas, seja como for, é todo de minha autoria, à exceção de duas ou três passagens, pelas quais tenho que agradecer a um cavalheiro, cujo nome não publico, uma vez que os oficiais do Serviço a que Pertence são avessos a qualquer publicação por parte de seus subordinados. Enquanto me empenhava em contar minha história de maneira divertida, entremeei diversas informações práticas relativas a ancoradouros e baías da costa, que poderão ser úteis a capitães que naveguem por aquelas bandas.

Edward Wilberforce.

28, Old Burlington street
2 de outubro de 1855.

* * *

CAPÍTULO 1[ 2 ]


Rio e cidade do Espírito Santo. Lenda. Fortificações. A vila velha. O que é a verdade? No campo. Redes de algodão. Vendedores. Festividades. Excelsior! Pássaros de várias plumagens. Navios negreiros.

A cidade mais importante entre Rio de Janeiro e Bahia é a do Espírito Santo, que era o limite norte de nossa área de patrulha. O verdadeiro nome dessa cidade é Vitória, mas estando situada às margens do rio Espírito Santo, assumiu o nome deste, de acordo com o costume do país. Localiza-se a cerca de 250 milhas do Rio de Janeiro. Esse rio deságua na baía do Espírito Santo, onde ancoramos à espera de um piloto. A entrada do rio é estreita, ladeada por duas altas montanhas, das quais o Morro do Moreno é a mais notável. Permanecemos ali um dia até que algum piloto viesse, obedecendo ao nosso sinal. Finalmente um bote encostou, trazendo um homem vestido com uma espécie de uniforme naval, que melhor seria chamado multiforme, pela ausência de regularidade e ordem. A pessoa apresentou-se como piloto e afirmou que poderíamos atravessar a barra na preamar, quando haveria três braças de profundidade na parte mais rasa. Medimos duas braças e um quarto, de modo que era necessário certa precaução ao subirmos a corrente. Avançamos a passo de caracol, descendo os prumos constantemente, com capitão, arrais e piloto sobre a caixa das pás.

A paisagem em torno era tão extraordinária que um piloto poeta teria certamente deixado o navio encalhar, pela constante admiração das margens. O lado esquerdo era montanhoso, o direito, um volume de água salpicado de ilhas cobertas de cactus, embora não houvesse terra alguma sobre elas, não sobrando espaço nem para duas pessoas em pé. A água entre as ilhas era calma e bonita, como se não conhecesse outra forma. No cume de uma das montanhas do lado esquerdo, entre rochas fantasticamente empilhadas uma sobre a outra, como se tivessem sido petecas de gigantes, erguia-se altiva o que pensamos ser uma fortaleza e que, no entanto, revelou-se um convento.[ 3 ] Às vezes abria-se uma bela enseada, mostrando praias cobertas com folhagem verde-escura, e algumas casinhas brancas ao fundo, repousando tranqüilas e à vontade num oceano de beleza. Pequenas rochas saltavam da água em ambos os lados, enquanto a vegetação derramava-se das montanhas mais altas. Era o lugar para poesia, e o viajante exausto poderia ser perdoado por dar vazão a seus sentimentos em verso e encher uma página, more majorum.[ 4 ]


Levemente desliza o nosso navio
Como uma ave marinha de asas abertas
Através de estreitas correntes onde a fragrância insufla
Fecundantes sopros primaveris.
Altas, em uma das margens, às grimpas das montanhas
Enrugam rochas, amontoadas sobre rochas,
De onde muitos ribeiros se precipitam
Claros como fios de prata.

Ali, no cume, entre rochedos eretos
Ergue-se velho edifício
Que deve ter desafiado os mais violentos embates da tempestade
Ou as mãos presunçosas do inimigo.

Do outro lado ilhas baixas se avistam
Onde os verdes cactos vicejam
E onde por baixo de ramalhenda cortina
Descansam os beija-flores.

E o enrugado oceano brandamente sorri
Onde, em suave quietude, repousam
Os espessos cachos de pequenas ilhas
Em seu seio enganadora[ 5 ]


Uma rocha à entrada de uma dessas enseadas tinha uma pequena cruz branca de pedra erguida sobre ela. Ao inquirirmos sobre o significado daquilo, a tradição, falando pela boca do piloto, nos informou que, toda vez que os escravos de Vitória têm uma folga se dirigem a uma pequena vila a meio-caminho rio abaixo para festejar. Não era coisa rara os escravos se embriagarem e discutirem — na verdade, era o habitual. Não era menos comum sacarem-se facas e alguém do grupo ser morto. Se, nesse trágico desfecho da festa, o assassino conseguisse embarcar em sua canoa e alcançar a pedra da cruz antes de ser capturado, estava salvo; todavia, se apanhado antes, pagava com a vida o seu crime. Este certamente é um costume curioso, e nos lembra as cidades de refúgio de que nos fala o Velho Testamento.

As únicas fortificações que observei foram dois pequenos fortins de barro, contendo, a imaginar pelo seu tamanho, seis ou oito canhões cada. Estes não pareciam prometer grande segurança, uma vez que uma bala de 68 libras, bem arremessada, lançaria forte, paredes e tudo aos quintos dos infernos. Passávamos exatamente agora sob a sombra do imponente Pão de Açúcar,[ 6 ] através de um estreito canal, os cutelos da embarcação quase roçando as rochas de cada lado. No minuto seguinte, defrontamos a cidade e o porto, no qual ancoramos em quatro braças. Apesar de haver alguns belos prédios nesta cidade, entre os quais o palácio do governador (?)[ 7 ] é o mais visível, sua aparência geral é tudo, menos florescente. A maioria das casas é pequena, suja e insignificante, enquanto as construções maiores rapidamente se vão deteriorando.

A meio-caminho rio abaixo fica uma vila, chamada vila velha, na qual os principais artigos aí produzidos, isto é, redes de algodão, são vendidos a preço mais barato que em qualquer outro lugar. A gentileza de um de meus companheiros[ 8 ] me permite dar a seguinte descrição da fábrica, que a indelicadeza do médico me impediu de visitar:

Alguns de nós descemos à vila velha, situada na margem direita do rio, a cerca de uma milha da foz; abaixo do convento e no fundo de uma linda enseada. Há aí muitas fábricas de redes de algodão, e nós entramos em várias casas à sua procura. Um estoque era logo apresentado, com preços variando de seis a oito mil réis. Como o grupo estava ansioso por passear, não pude fazer muitas observações a respeito da fabricação; mas, pelo visto, o processo parecia muito simples. As armações tinham sete pés de comprimento por três de largura; e o material era algodão sul-americano cru, muito resistente.
Tendo finalmente concluído as compras a contento, partimos para o convento que se elevava sobre nós. Da vila, a estrada prosseguia em ziguezague através de uma pequena floresta, e pelos vestígios de calçamento mostrava sinais evidentes de que outrora muito mais cuidado lhe fora dispensado do que agora. A posição do convento é muito conspícua, e como está situado no pináculo de uma alta montanha, dali se vê uma longa extensão da costa de norte a sul. A face da montanha voltada para o rio é quase perpendicular, mas a outra descai suavemente até uma imensa planície coberta de mata, que a sudeste se estende por milhas ao longo da, costa e, a oeste, até encontrar uma cadeia de montes férteis.

O convento em si tinha pouca coisa digna de registro.[ 9 ] A capela era pequena, embora possuísse um órgão, e o convento era usado por freiras mestiças, nenhuma das quais foi vista por nós, hereges.

Apesar de meu colega não ter visto nenhuma dessas internas, os grumetes, que desembarcaram sob o comando do mestre de armas, afirmaram que viram algumas delas vestidas do modo mais primitivo. Deve-se lembrar, porém, que esses jovens eram protestantes, e os protestantes nunca conseguem dizer a verdade, mesmo quando não têm motivo para agir de outra maneira. Esses jovens provavelmente aprenderam a mentir desde o berço, e poderiam não saber que todos os santos são virtuosos, ou então poderiam pretender lançar um estigma sobre a santidade de "Sua Santidade".

Quando desembarquei pela primeira vez em Vitória, encontrei-a invadida por um grupo de marinheiros bêbados, cujos rostos facilmente reconheci. Tinha sido concedida folga a nossos homens, e as conseqüências disso podem ser facilmente imaginadas. Alguns estavam vagueando desvairados pela cidade, outros sentavam-se nas esquinas, como lamentadores queixando-se das loucuras e vícios da época, e produzindo surpreendentes textos para suas próprias meditações. Depois de espiar em algumas lojas, e deparar uma lamentável escassez de sólidos de todo tipo, e uma igualmente lamentável abundância de líquidos, partimos para o campo, emergindo das ruas imundas como borboletas de seus casulos, trocando toda a miséria de uma cidade brasileira pelo frescor de um campo brasileiro. A brisa afagava suavemente o prado perfumado e sussurrava musicalmente por entre a floresta, beijando as tranças das árvores, trazendo em suas asas os mais puros deleites. Passamos por uma colina coberta de grama, e seguimos caminho através de uma floresta. Estávamos em tal labirinto de beleza que mal podíamos parar para contemplar as largas folhagens, firmes e rígidas como espadas, as partes inferiores tingidas do mais delicado vermelho, que se erguiam a cada lado da trilha. Além desse bosque, Paramos em uma campina, no cume de um monte, e observamos então o rio, serpenteando em curvas graciosas pelo vale, as marolas incontáveis refletindo os raios do sol, enquanto casas agrupavam-se ao longo das margens, destacadas por arbustos verdejantes em viçosa exuberância.


Tais coisas enchem o coração de silêncio
profundo, porque, supõe-se, seja esse o seu papel.[ 10 ]


Nessa campina havia uma casa, onde paramos para conseguir algo de beber. Uma mulher, um menino e um cachorro eram os únicos moradores. Este último, depois de latir e me morder, desapareceu pelos fundos; os dois primeiros foram mais corteses. O garoto apanhou para nós um coco de um coqueiro perto da casa, derrubando-o com uma vara comprida. Ao pé da árvore havia uma pedra, na qual se refletia minuciosa e cuidadosamente o delicado rendilhado das folhas do coqueiro. Em outra pedra, várias espigas de milho estavam secando ao sol. A palha das espigas é usada pelos brasileiros para o preparo de cigarros, sendo o tabaco enrolado nela tal como se faz na Turquia com finas folhas de papel.

Tendo apreciado suficientemente o interior, estávamos melhor preparados para explorar a cidade. Fomos até a residência do governador, e encontramos aquele autêntico potentado, um pequeno e robusto cavalheiro, vestindo casaco azul com botões de latão. Caminhamos pela praça coberta de capim, que tinha evidentemente produzido sementes, e visitamos algumas lojas em busca de redes e renda brasileira. Consegui adquirir uma rede certamente menor e mais cara do que teria sido na fábrica, mas nem por isso de se desprezar.

Contavam-se histórias a respeito dessas rendas. Um tenente comprara algumas de finíssima qualidade, que se comprazia em considerar uma pechincha, e que agradariam uma certa pessoa na Inglaterra. Se a referida pessoa fosse tão perita em renda como era de se esperar de alguém do belo sexo, logo perceberia que o artigo brasileiro havia sido feito na Inglaterra, e exportado para os Brasis. Ela então perguntaria o preço, e informaria a seu viajado amigo que a mesma renda poderia ser comprada no estabelecimento dos Senhores Bobbins por um quarto do que fora pago por ela no Espírito Santo. Às vezes aprendemos mais em casa sobre os lugares que visitamos do que nos próprios lugares, com os olhos bem abertos e os ouvidos bem atentos. Achamos a renda brasileira extremamente grosseira, e de boa qualidade só a que vinha da Inglaterra. Os vendedores, não tendo motivos para ocultar esses pormenores informavam-nos francamente a sua procedência.

Pode parecer curioso para uma nação de comerciantes, mas o fato é que os brasileiros têm certa aversão ao trabalho de vender. Nenhum John Gilpin brasileiro teria apeado de seu cavalo à vista de dois fregueses. Na Inglaterra, se alguém perguntar por alguma coisa que o vendedor não tenha em estoque, este insistirá em vender outra coisa que considere um substituto à altura. No Brasil, se alguém perguntar por alguma coisa que o vendedor tenha em estoque, este insistirá em que o freguês peça outra coisa de que ele não disponha, para poupar-se o trabalho de atendê-lo.

Graças a alguns meninos maltrapilhos, cujos corações foram abertos com o presente de um vintém cada, conseguimos algumas galinhas e ovos, retomando a bordo, onde encontramos um grupo de convidados reunidos. Um acontecimento tão elegante não poderia prescindir o seu vates sacer[ 11 ], que adequadamente, assinando-se "nosso correspondente", fez o seguinte relato da cerimônia, que apareceu em algum jornal.


FESTIVIDADFS NO ESPÍRITO SANTO[ 12 ]
(de nosso correspondente)


Ontem um grupo, consistindo de alguns membros da elite desta cidade, foi a bordo do vapor de guerra inglês, a convite do capitão. Depois de compartilhar uma refeição, servida com grande esplendor no camarote do nobre milorde, o grupo passou ao convés superior, onde um toldo decorado com bandeiras cobria suas cabeças. A música começou a tocar, e os convidados entregaram-se à nobre diversão da dança. O galante capitão instou um dos jovens oficiais do navio a tomar parte da dança, tomando a mão de uma jovem; mas este convite o indelicado oficial recusou, desculpando-se polidamente, e sem empregar a exclamação nacional inglesa. Evidentemente os britânicos assumiram seus melhores modos para nos recepcionar a bordo, pois nem sequer uma vez durante minha visita escutei a praga nacional God dam! É de uso tão freqüente que um erudito inglês publicou um livro mostrando que ela é proferida a cada cinco minutos por todo homem, mulher ou criança da Grã-Bretanha. Isso é certamente espantoso. Observei um grupo de aspirantes em pé, afastados dos que dançavam, conversando com um pequeno pajem moreno, cujo traje era elegante, consistindo em um chapéu lustroso com uma fita dourada, jaqueta azul com botões amarelos e um par de botas de cano alto. Uma senhora idosa era observada com especial atenção por esses aspirantes, e percebi que circulavam alguns rumores a respeito de sua idade, alguns assegurando que ela tinha trinta e dois anos, outros, apenas dezoito. Por informação de determinada pessoa, fui capaz de confirmar que esta conjectura estava correta; mas como nossas mulheres envelhecem quando ainda muito novas, comparativamente falando, e essa senhora tinha um filho de quatro anos, e um outro de idade mais tenra, a primeira opinião não deveria ser considerada infundada.

Terminada a dança, os marinheiros no castelo de proa entretiveram os visitantes com algumas canções, uma das quais era o pedido de um negro a uma moça chamada Susana para que não chorasse por ele, pois estava vindo vê-Ia, causando efeito impressionante, já que todos os marinheiros cantavam o refrão em coro.[ 13 ] O cantor principal teve uma vida extraordinária, tendo até se apresentado uma vez no palco. Em minha próxima carta, pretendo iniciar uma biografia desse homem notável.

Retornando os convidados à terra, o cordial e alegre capitão ordenou que luzes azuis fossem acesas e rojões disparados, para iluminar o retorno deles. Os fogos de artifício clareavam os prédios próximos à beira-mar, e iluminavam os moradores atônitos, que se juntavam nas ruas, boquiabertos e maravilhados. Quando subi atrás da carruagem de minha esposa, não pude deixar de lançar um olhar de despedida ao navio, em prejuízo de minhas meias de seda, que foram salpicadas de lama.

Hoje o vapor brasileiro Maria chegou aqui, e esteve ocupado carregando madeira, geralmente usada por vapores brasileiros em lugar de carvão, que ficaria muito caro. Não eram boas as relações entre o capitão e o governador do Espírito Santo, o que explica a ausência do governador em nossas festividades.

Na manhã seguinte, desembarquei cedo com alguns de meus companheiros para uma excursão rio acima. Eram então cerca de cinco da manhã, e chovia intensamente.

Enquanto os outros foram procurar uma canoa, subi, com uma arma e uma cesta de provisões, até uma casa em ruínas, ficando com um cômodo só para mim. O resto da casa parecia fechado e abandonado; o quarto que eu ocupava estava aberto de um lado por falta de parede e tinha vários buracos no chão. A chuva, entretanto, não penetrava. Vi meus colegas vagueando desconsoladamente pelas ruas, que brilhavam com a chuva, e logo um brasileiro veio preparar uma canoa, onde nos alojamos com as provisões, quando o tempo melhorou um pouco. Partimos então rio acima, cinco pessoas com quatro remos. O brasileiro tomou lugar na popa como piloto, e desviou a canoa uma milha de seu rumo, dirigindo-se ao lado oposto de uma ilha, de modo que pudesse nos conduzir a uma venda onde esperava passar bem. Quando a canoa se aproximou da pequena casa branca à margem de um córrego, ele apontou para ela e exclamou: "Bono venda la!"[ 14 ] Atentos às suas artimanhas, recusamo-nos a saltar. Excelsior![ 15 ] foi nosso grito. A canoa prosseguiu deslizando rio acima, os ocupantes levantando-se e remando valentemente. Em nossa ânsia por segurança e firmeza, havíamos conseguido uma canoa pesada e não podíamos impeli-Ia tão rápido como desejávamos. Isso, entretanto, não era uma falta grave, pois uma canoa mais leve teria provavelmente virado, provocando a perda de nossas armas e outros valores. Finalmente, colhidos por um aguaceiro, seguimos para a margem e nos refugiamos em uma cabana, colocando a cesta de provisões num depósito contíguo.

Como nosso desjejum fora de carne fria, começamos a preparar um rápido almoço de presunto e ovos. O dono da cabana foi indenizado de qualquer incômodo com um copo de rum, que engoliu com uma expressão de divertido êxtase, pulando e assobiando de alegria. O fogo na cabana era muito forte, e a fumaça penetrava-nos nos olhos, picando como miríades de mosquitos. Em tais circunstâncias, não pudemos lograr nenhuma excelência culinária; mas há sempre algo de mais especial no que se prepara do que nas mais finas iguarias de um cordon bleu.[ 16 ] Não que esse prazer pudesse durar sempre; mas a mesma inspiração que preside ao primeiro poema preside também ao primeiro prato que se prepara. Tínhamos terminado nossa refeição e a chuva cessara, quando se aproximaram alguns senhores mais respeitáveis, que andavam ocupados na construção de uma casa na praia. Todos usavam facões nos cintos, e haviam talvez feito uso deles para propósitos menos inocentes que cortar madeira. As árvores e trilhas estavam ainda cintilando com a chuva, e pérolas espalhavam-se abundantes sobre cada arbusto. Dois de nosso grupo seguiram por uma trilha com o propósito de caçar, mas logo retornaram, de modo que embarcamos e seguimos corrente acima. Enquanto avançávamos, íamos atirando nos pássaros que nos apareciam; para caçar um fugitivo de plumas, metíamo-nos por algum córrego de água estagnada, com arbustos baixos crescendo na lama fértil, ou então descíamos nas margens pedregosas para atirar num bem-te-vi que nos fugia de galho em galho.

Desembarcamos logo depois em outra ilha, e subimos até uma casa grande, que encontramos habitada por negros, de quem compramos ovos e bananas. Muitas galinhas perambulavam por ali, mas não estavam à venda, pois não se encontrou o dono. Os ovos e as bananas foram colocados em nossa frigideira com um pouco de presunto, e acendendo-se o fogo, o cômodo logo se encheu de fumaça. De repente, o vento marinho irrompeu quarto adentro, batendo as janelas umas contra as outras, saindo com fúria por um lado para entrar de novo pelo outro. A fumaça, desnorteada e incapaz de sair pela janela, impedida pelos batentes, retornava ao quarto, refugiando-se em nossos olhos. As árvores envergavam e agitavam-se sob a rajada de vento, e o rio arrebentava furiosamente contra as pedras abaixo da casa. Em meio a essa ventania, tendo deixado nossa canoa em segurança, prosseguimos calmamente o jantar. O piloto nos informou, com a boca cheia, que aqueles negros eram "contrabanda",[ 17 ] em que sentido ele não explicou.

Quando descíamos para a praia para o reembarque, uma grande canoa passou a todo pano, correndo rio acima com incrível velocidade. Com o vento e a maré contra nós, e ambos muito fortes, não pudemos seguir rio abaixo, mas fizemos um desvio para a margem oposta, a canoa jogando sobre as ondas como um navio de três conveses na baía de Biscaia. Ao alcançarmos o outro lado, encontramo-nos entre mangues, com árvores cobertas de ostras, largadas ali pela maré. Ali percebemos de relance alguns cisnes, mas muito arredios para permitir aproximação.

Perseguimos outra canoa que estava entrando no córrego e, chegando perto, os ocupantes ficaram tão assustados com nossa aproximação que encalharam. A água aqui era escura e barrenta, e os galhos compridos das siriúbas[ 18 ] se juntavam sobre nossas cabeças num arco triunfante. Metemo-nos por um córrego e abicamos a canoa numa praia onde algumas pranchas nos livraram de um abismo de lama negra. Subindo um morro, chegamos a uma fábrica, donde se avistava a cidade e o rio sinuoso . Ali foram abatidas algumas viúvas,[ 19 ] e também um pequeno bem-te-vi, marrom e de modesta aparência, mas possuidor de variegado topete de plumas vermelhas e amarelas, que podia eriçar à vontade. Quando o sol brilhava sobre ele, e seu topete cintilava e dançava na luz, esquecia-se seu corpo marrom e feio, e dava-se a ele justa admiração. As viúvas atraíram a atenção de nossos caçadores de uma longa distância devido à sua lustrosa plumagem negra, possuindo em algum grau o mesmo poder de fascinação de suas homônimas da raça humana.

Um ou dois dias depois, partimos da cidade do Espírito Santo. Uma ressaca estava começando, e as pequenas ilhas cuja paisagem comentei tão poeticamente ao chegarmos, ficavam visíveis agora só por um instante, quando o mar recuava ou quando as ondas quebravam sobre elas. Um pequeno navio costeiro estava ancorado a meio caminho rio abaixo, jogando muito, enquanto seu convés era uma cena de verdadeira confusão de mercadorias.

Uma vez fora do rio, desembarcamos e pagamos ao piloto, navegando então para sudoeste. As autoridades do Espírito Santo parecem ser contrárias ao tráfico de escravos. Fora da cidade estavam parados dois navios, recentemente capturados com escravos a bordo. Um deles era um barco de Cabinda[ 20 ] improvisado, cuja capacidade certamente não excedia a trinta toneladas, mas que havia trazido em seu porão cento e oitenta escravos da costa da África!


CAPÍTULO II[ 21 ]


Guarapari. Mulheres do campo. Nec vox hominem sonat. A cana. Benevente. Linha da costa. Piúma. Itabapoama. Itapemirim. Assassinato.


Entre Espírito Santo e Rio de Janeiro, Guarapari é a vila de maior importância. Está situada às margens de um rio que desemboca numa baía, e o mesmo nome designa baía, rio e cidade. A ancoragem ali é difícil, devido à ressaca permanente, que sempre começa e nunca termina. Essa vila era famosa até recentemente devido ao patrocínio que dava ao tráfico de escravos. Os barcos do Harpy conseguiram apresar um navio negreiro rio acima, a despeito da vigorosa resistência dos cidadãos e da tripulação do navio. Nenhuma parte da vila é visível da baía, e mesmo próximo à foz do rio apenas algumas poucas cabanas aparecem. Sinais de decadência mostram-se por todos os lados. A igreja e o convento erguem-se sobre um alto promontório à entrada do rio, e estão ambos muito dilapidados. O convento especialmente está coberto de ervas daninhas e arbustos, que alcançam grande altura dentro de suas paredes. Não há flores aí, atualmente. Ao lado desses dois edifícios ergue-se uma altíssima palmeira que, sendo a única no promontório, é visível a longa distância, servindo para indicar a posição de Guarapari a navios com destino àquele porto.

Tão logo se cruza a barra do rio, na qual a profundidade é de cerca de três braças, descortina-se subitamente a vila, no lado leste ou na direção do mar, e o porto com um estaleiro, onde pequenos barcos costeiros estão geralmente em fase de construção. O rio, que não tem mais de trezentos pés de largura, estende-se ao sul, paralelamente à costa, e a povoação está situada no istmo entre o rio e o mar.

Em nossa primeira visita a Guarapari, uma canoa comprida e estreita, manejada por dois remadores, veio em nossa direção por sobre os vagalhões. As canoas nessas regiões são muito mais estreitas e compridas do que as de Ilha Grande, sendo sua proa mais pontuda, enquanto a proa das canoas do sul é larga e plana. Quando essa canoa veio encostando, os homens tiveram muita dificuldade em mantê-la a salvo junto à escada, enquanto o navio estava em movimento. Gritos e berros vinham da popa para a proa, e retornavam com juros da proa para a popa.


Pueri nautis, pueris convitia nauta
Ingerere.[ 22 ]


Amarrado firmemente o barco, um homem subiu com duas caixas de ovos e algumas pobres galinhas subnutridas. Foram comprados imediatamente, mas depois que a canoa retornou à praia os ovos revelaram-se todos podres e velhos, duas qualidades quase sinônimas. Não posso culpar o homem por nos vender tais coisas. Ele deve ter sido informado de que na Inglaterra só honramos o que é velho e inútil.

Mais tarde naquele dia, quando alguns oficiais desembarcaram, depararam com esse homem, que imediatamente fugiu, com todos os terrores de uma consciência pesada, acreditando sem dúvida que uma delegação do navio viera prendê-lo, a fim de enforcá-lo, sendo a forca na Inglaterra a punição mais comum para qualquer crime.

Em nossa visita seguinte a Guarapari, continuamos a explorar as curiosidades do lugar sozinhos,[ 23 ] já que o único cicerone, o presidente da Câmara, estava atendendo ao capitão. Numa pequena rua secundária, chegamos diante de uma porta aberta sobre a qual não havia nenhuma tabuleta pendurada para avisar-nos de que a entrada era proibida exceto a negócios. Espiamos lá dentro, o que era muito natural de nossa parte. Se as pessoas deixam as portas abertas, o que podem esperar? Não vimos nada além de algumas crianças brincando no chão, e uma magnífica rede pendurada do teto, desocupada. Afastamo-nos imediatamente, mas não sem atrair sobre nós as mais terríveis conseqüências.

Quando saíamos do recinto, encontramos uma velha que começou a matraquear contra nós tão implacavelmente como se fosse dotada do fôlego de trinta perus. Felizmente ela era parcialmente humana, não totalmente diabólica, e o pouco de humanidade que tinha transparecia na falta de ar depois de longo palavrório. Mas tão logo se calou, seu discurso foi retomado por um velho que parecia digno de ser seu marido, e a quem não desejo destino pior do que esse. Em tal discurso, porém, só eles é que falavam e só nós que ouvíamos, o que era a parte mais difícil. O marido seguiu o mesmo estilo da esposa, mas logo mostrou a inferioridade natural do homem em relação à mulher. Antes que tivesse terminado, ela começou de novo, puxando um coro de mulheres de várias idades, as vozes variando em cadência desde o grito estridente das jovens até o berro rascante das velhas. Inconscientes de nosso crime, batemos em retirada, com o coro atrás, mantendo sempre a cantoria melodiosa. Por último veio um homem ofegante que se pôs a dar pulos frenéticos e socos em nossa direção, praguejando e gritando feito um louco. Naturalmente, nosso único recurso foi praguejar e gritar em resposta, o que fizemos com toda honra até o inimigo se retirar.

Em seguida travamos conhecimento com um personagem sorridente e gracioso, que nos acenou para chegarmos à sua casa. Foi muito cordial conosco e falava com amável franqueza; contudo, seu rosto parecia insincero e assemelhava-se exatamente ao de Simon Renard, nas ilustrações da Torre de Londres feitas por G.C.[ 24 ] Mas essa insinceridade se explica facilmente pela referência ao seu cargo. Ele era, na verdade, o mestre-escola, um daqueles ilustres cavalheiros de quem freqüentemente ouvimos falar — os mestres-escola do estrangeiro. Mostrou-nos todos os seus instrumentos de ensino, a tabuada[ 25 ] e a palmatória, execrável instrumento do qual nem o Brasil está livre. Os brasileiros, portanto, podem alegar afinidade com o resto do mundo, citando o verso de Juvenal, que deveria funcionar como um sinal de maçonaria e unir num laço indissolúvel todos aqueles que pudessem afirmar


Et nos ergo manum ferulae subduximus.[ 26 ]


O mestre-escola falava um pouco de inglês e tinha um dicionário de inglês-português e uma gramática, que nos mostrou e que lhe serviram de ajuda para traduzir algumas frases. Lendo uma frase literalmente, com o sentido de "Minha esposa está aqui", ele traduziu desta maneira: "May wumman ees he-ar".[ 27 ]

Numa loja que tinha persianas de cana e vime servindo de janelas, eu estava comprando algumas laranjas quando entrou uma velha querendo aguardente. Suponho que ela tivesse por volta de quarenta anos, contudo seu rosto era o mais enrugado e medonho que já vira. Uma mulher de oitenta anos na Inglaterra seria bonita em comparação com essa bruxa. Mas o clima tropical, que desenvolve as mulheres aos quatorze anos, as faz envelhecer muito prematuramente.

Em outra loja havia um carola mal-encarado, parecido com um pregador, ou com o imortal Mr. Stiggins dos Documentos de Mr. Pickwick, do saudoso Mr. Boz,[ 28 ] que vigiava a linda esposa enquanto ela cuidava dos negócios da venda. Comprei um peru, e outros perus foram comprados em outras lojas. Estavam todos tão calados que concluímos, recordando a aventura da manhã, que os perus de Guarapari haviam transferido suas vozes às mulheres dessa vila, recebendo a beleza delas em troca.

Prosseguiremos agora fornecendo uma descrição de outras partes notáveis dessa costa no estilo guia de viagem.


Benevente



A baía de Benevente[ 29 ] é larga, rasa e aberta. Navios de mais de dez pés de calado não podem chegar a uma milha da praia, mas podem ancorar a alguma distância fora dela, em quatro braças e meia, orientando-se pela última quarta lessueste e pela casa mais visível do lugar, norte por nordeste.

A povoação está situada no lado direito da foz de um rio que deságua no mar. Fica, em sua maior parte, em terreno baixo, com exceção da igreja e de um prédio junto a ela, que aparentemente foi um mosteiro, apesar da parte mais baixa estar agora transformada em prisão. Ficando a outra parte da vila quase no mesmo nível do rio, as ruas, que antes devem ter sido parcialmente calçadas, são hoje uma sucessão de poças de algo que deve ter sido água um dia. As casas estão, em grande número, em triste estado de decadência, sendo algumas restos de belos edifícios, com cortinas, persianas e entalhes de madeira.

Vários pequenos navios estão no estaleiro, e muitos barcos costeiros comerciam os produtos das fazendas situadas rio acima. O suprimento é abundante e de fácil obtenção; mas como é trazido do interior, é preciso uma antecedência mínima de um dia no pedido. O rio é navegável por canoa até duas milhas além da vila, encontrando-se boa caça em suas margens. No ponto extremo da baía existe um recife chamado Ponta do Cormorant, por ter o vapor Cormorant[ 30 ] encalhado ali.

O relevo da costa entre o cabo São Tomé e Guarapari é baixo; mas quarenta milhas para o interior se ergue uma cadeia de montanhas de talhe o mais rebuscado. Entre esses montes e a costa há extensas florestas de madeira de boa qualidade, principalmente pau-rosa,[ 31 ] habitadas por índios vivendo em estado de barbárie. Diz-se que eles ocasionalmente se casam com colonos e que em certas estações do ano visitam as fazendas a fim de trabalhar, sendo pagos sobretudo com cachaça, bebida alcoólica local, semelhante à aqua ardente. Poderíamos deduzir, entretanto, que esses selvagens nem sempre visitam a civilização com tão amistosos motivos, mas são freqüentemente seduzidos pela esperança de saque. Os habitantes do litoral vivem principalmente da pesca, e quando nossos navios de guerra navegavam nessas águas para reprimir o tráfico de escravos, as pessoas entravam em aflição, impedidas de fazer-se ao mar em suas canoas devido à proximidade dos navios. Laranjas e bananas, entretanto, são encontradas aí em abundância, e com elas os brasileiros conseguem sobreviver, à falta de outro alimento.


Piúma


Trata-se de um vilarejo próximo a Benevente, às margens de pequeno rio, e notável pela farta produção de pau-rosa, que pode ser adquirido a baixo custo.

Em frente à foz do rio de Piúma encontra-se a pequena ilha dos Franceses,[ 32 ] a leste da qual se estende uma linha de recifes rochosos, que servem de abrigo às embarcações. Aí se pode obter areia, tendo os navios de guerra descoberto que é um lugar propício para treinamento de tiro ao alvo com seus canhões. Outro bom ancoradouro fica ao largo dos Três Rochedos Vermelhos, que formam uma visível interrupção na cor parda que predomina à direita e à esquerda. Ao pé desses rochedos, no fundo da praia arenosa, há uma pequena floresta, discernindo-se cabanas entre as árvores. Há também um baixio com duas braças e meia na parte mais rasa em frente a esses rochedos, cujas orientações são as seguintes:

Grande Casa Branca no topo dos Rochedos Vermelhos, sudoeste por oeste quatro milhas.

Dois montes impressionantes (representados no diário de bordo por um rabisco indeciso, com um borrão em cada ponta), noroeste por norte.


Itabapoana


Vila também às margens de um rio, com uma casa grande perto da barra. O ancoradouro está em latitude 21° 23' sul e longitude 40° 51' oeste. Posições, casa grande sudoeste, por sul duas milhas. Recifes a sueste por leste duas milhas.

Ponta dos Rochedos Vermelhos nordeste por norte. Os baixios ficam a cerca de seis milhas a oeste da casa grande. Dentro desse rio estava uma escuna de velas latinas. Ela havia desembarcado cento e sessenta escravos na véspera e foi apreendida imediatamente pelas autoridades governamentais, que ocupam a casa grande da barra. Era pouco maior que muitos navios negreiros, em proporção ao número de escravos que transportava.


Itapemirim


Vila de certo tamanho, situada uma milha ou duas rio acima. É notável sobretudo devido ao seu estágio de civilização, que mostra que a simplicidade de um refúgio rural nem sempre assegura paz e boa-vontade. Enquanto passeávamos com o presidente da Câmara, o capitão viu uma casa inacabada. Imediatamente parou para examiná-la com um sobressalto melodramático. Ela parecia sombria e desolada, como se cada tijolo soubesse do crime que retardara seu progresso, e que nem todas as lamentações e uivos angustiados de um vento forte em sua chaminé poderiam jamais revelar. Havia algo de sinistro e terrível na mera contemplação de suas obras inacabadas. O vento soprava suavemente? Era somente por comiseração pelo infeliz construtor; era apenas um lamento plangente pelo seu súbito, fim. O vento estava silencioso? Ele ainda parecia remoer serenamente aquele lugar e embalar-se naquele monte de argamassa que se deteriorava a um canto. A tempestade caía, o relâmpago brilhava; o trovão bramia, a chuva despejava suas grossas gotas? Tudo isso caía sobre a casa por motivos que nenhum mortal pode descrever. As desoladas súplicas de seus tijolos mudos, os gemidos e assobios da chaminé, tudo mostrava que ali se fizera algo que poderia ferir os ouvidos e sufocar a fala.

Por que a casa estava inacabada? Ah, sim! — disse serenamente o presidente da Câmara — ela pertence a um homem que foi apunhalado outro dia.

— Apunhalado! Por que razão?

— Realmente não sei; nada pessoal, eu acho. Uma simples provocação, ou coisa assim. Há indivíduos terríveis por aqui; sem exceção, os mais sanguinários que já vi.

Depois de tal exemplo, o depoimento do presidente da Câmara não era difícil de acreditar.



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NOTAS



[ 1 ] É o prefácio geral da obra.

[ 2 ] É o capítulo XV do texto original.

[ 3 ] Trata-se do convento da Penha.

[ 4 ] À maneira dos antigos. Em latim no original.
[ 5 ] Essa é a tradução que Taunay fez dos versos de Wilberforce, incluindo-os em seu ensaio "Impressões de Vitória e seus arredores", publicado no Jornal do Comércio, em 1945. (Apud Norbertino Bahiense, O convento da Penha, Vitória, 1 95 I.).
[ 6 ] Atualmente morro do Penedo. Era assim chamado pelos portugueses, como a outros morros de mesma configuração e talhe arredondado, numa alusão aos torrões de açúcar para exportação.
[ 7 ] É o palácio Anchieta. A interrogação entre parênteses está no texto original.
[ 8 ] O primeiro-tenente Jonh H. Crang que, juntamente com o capitão Edward Tatham, visitou o convento da Penha em 3 de setembro de 1851 (cf. Norbertino Babiense, op. cit., p. 8.
[ 9 ] Wilberforce interpelou no texto de Crang, entre parênteses, a seguinte observação: "Estou envergonhado de você, herético colega, por dar vazão a semelhante sentimento".
[ 10 ] Não foi possível localizar o autor desses versos, em inglês no original.
[ 11 ] Poeta sagrado, ou eleito pelos deuses. Em latim no original.
[ 12 ] Trata-se de um texto de autoria de um capixaba anônimo e publicado em jornal do Rio (como o atesta a indicação "de nosso correspondente"), cuja tradução Wilberforce incluiu em seu relato.
[ 13 ] Canção folclórica norte-americana.
[ 14 ] Como no original.
[ 15 ] Para o alto! Em latim no original.
[ 16 ] ozinheiro exímio. Em francês no original.
[ 17 ] Como no original.
[ 18 ] Siriúba (Avicennia nitida) e mangue (Rhizophora mangles), duas árvores tropicais típicas da vegetação dos mangues, ambas frequentemente traduzidas pelo vocábulo mangrove, usado pelo autor no original.
[ 19 ] Ave passeriforme de cor negra (Pipraeidae m. melanonota).
[ 20 ] Atual Angola, região de origem de boa parte dos escravos brasileiros.
[ 21 ] É o capítulo XVI do texto original.
[ 22 ] Os meninos lançavam impropérios aos marinheiros, os marinheiros aos meninos. Não foi possível identificar o autor latino.
[ 23 ] É de suspeitar que Wilberforce estivesse sozinho nessa ocasião, narrando suas aventuras em plural majestático.
[ 24 ] Provavelmente George Cruikshank (1792-1878), famoso caricaturista inglês.
[ 25 ] Termo obscuro. Poderia referir-se também ao quadro-negro.
[ 26 ] E nós que subtraímos a mão à palmatória.
[ 27 ] Transcrição fonética da pronúncia do mestre-escola. A tradução literal é "Minha mulher está aqui".
[ 28 ] Pseudônimo de Charles Dickens (1812-1870), autor do livro citado. De estranhar o adjetivo empregado por Wilberforce (no original, late lamented), visto que, nessa época, Dickens ainda estava vivo.
[ 29 ] Atual cidade de Anchieta.
[ 30 ] Com esse mesmo cruzador inglês, também ocupado na repressão ao tráfico de escravos na costa brasileira, deu-se incidente na baía de Paranaguá, em julho de 1850, conforme relata Helio Vianna em sua História do Brasil (Melhoramentos, São Paulo, 9 ed., 1972): "Tendo este navio aí realizado o apresamento de uma galera e dois brigues, foi hostilizado com tiros partidos da Fortaleza da Barra, disso resultando a morte de um tripulante e ferimentos em dois". (p. 151 da segunda parte).
[ 31 ] Aniba rosaeodora. Árvore que contém um óleo composto fundamentalmente de linalol, de grande emprego em perfumaria.
[ 32 ] Franceza, no original.


[WILBERFORCE, Edward. Ingleses na costa – Impressões de um aspirante de marinha sobre o Espírito Santo em 1851. (Tradução de Eliziane Andrade Paiva) Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo; Academia Espírito-santense de Letras, Cultural-ES; 1989. 37p.]


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Edward Wilberforce, integrante da oficialidade da corveta de guerra Geyser que esteve no Espírito Santo na primavera de 1851 sob o comando do capitão de fragata Edward Tatham, em missão repressiva ao contrabando de africanos.
Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui