Mostrando postagens com marcador Paulo Roberto Sodré. Mostrar todas as postagens

Co-edição com a Cândida Editora: [Edição digital ISBN 978-85-64258-11-2]


Co-edição com a Cândida Editora: [Edição digital ISBN 978-85-64258-11-2]


 Poemas desconcertantes

CALIGRAFIA INCANDESCENTE (ou visão de malabar) Para Douglas 1. Deserto Estava seco o chão e nulo e feio. Nada acendia a eira...


CALIGRAFIA INCANDESCENTE
(ou visão de malabar)


Para Douglas


1. Deserto

Estava seco
o chão
e nulo e feio.

Nada acendia
a eira,
por mesquinha.

Assim, o veio
de fogo, depois,
chama e tinta:

ígnea manifestação.


2. Epifania

O fio
de magma
a desenhar
o rubro.

A chama
a riscar
a beira
do escuro.

A teia
de flama
a seduzir
o percurso

da claridade

no sopro
em fogo
de um homem.



3. Malabar

O rubro,
em ruivo;
o turvo

mesclado na eira
do olhar assombrado
com os raios de brasa.

O lábio,
o cálido,
o mágico

no nome
que doma
e habita
em sopro
a faísca:

um homem; um lobo: um renome.


4. Efeito

O ruído da luz
doura a gaze
da vontade.

O olhar se fecha;
se abre o hálito;
os dedos fremem

à lâmpada
que doma, louva, masca
a falta de luz.

Incandescência.


5. Malabarino

Chamusca o ar
o cheiro do fogo
que
acende a barba
e a voz de lobo
e
ruivo.

Estraçalha o ar
o desenho da quentura
que
enrubesce o pelo
e a voz de lobo
e
fluido.

Rápido
cede quem olha o ar em fogo
abocanhado pelo fulgor do lobo
fúlvido

e belo.


6. Sedução

Seco o chão, e inóspito,
até que o ruivo
fogo lupino [e terno]
adejasse a poeira
e comovesse,
humano, a eira dos olhos.

Célere, a tinta da chama
umedece o pátio ínfimo,

e instala o fogo em fluxo
no corpo verde do olhar,

e clareia, ele,
breve, leve,
o mapa do escuro.


7. Salamandra

Magma, em fluido e flama,
aflora ao nervo da luz...

Lupino o homem, em zelo,
luminescência tanta
vocifera: faça-se lux.

Entro com um eu
lagártil, lânguido,

e as labaredas
abraçam cada palmo

da carne, do gesto, do som
que cedo
[túmido
de lume]
aos dentes
do fogo, do festo, do ardor

em sopro.


8. Auto de luz

Enquanto ardo
sob as garras da luz
que o lobo fluido
espalha sobre o corpo,

as lanternas dançam.

Enquanto inflamo,

as chamas nomeiam
da alegria o caminho

sob a voz da luz
que o homem ruivo
ordena, conduz, domina

lupinante e lúcido:
vibrante lamparina.


9. Fortuna

O chão, incendido
de inúmeras faíscas,
ignora o ímã do risco:

lobos mordem o abandono
e criam estepes de sombra.

O térreo iluminado, assim,
nubla-se, neblina-se
diante do destino:

a marca do lobo
doma, doura, desgasta
a falta de lume,

mas ensombra o triste
inflamado chão-corpo,
e subtrai-se, em eclipse.


10. Passagem

Belo, rubro, terno
[em pele de homem,
emblema de lobo]
ele doma o chão

túrgido de fagulhas.

Ruivo, leve, fluido,
[em olhos de lobo,
esquema de homem]
ele louva a eira

impregnada de lúmen.

Sobre o pátio, sobre o terreiro
as patas, o pelo, o porte
de um lobo iluminado e exato
a soprar o incêndio líquido:

feixe de luz, fado de lume,
feito fluxo frutífero de homem.


Vitória, 
5 de setembro de 2014


[Poema inédito reproduzido com autorização do autor.]

---------
© 2017 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------



Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

Para Lino Machado 1. Sob a sombra da mangueira, um rato (de si empoeirado) fuça o sumo solar da manga largada, à sorte, ao chão. ...


Para Lino Machado


1.
Sob a sombra da mangueira,
um rato (de si empoeirado)
fuça o sumo solar da manga
largada, à sorte, ao chão.

O chão, entregue a sua generosidade,
acolhe a sombra, o rato, a manga,
e o pássaro, repentino na paisagem
desarmada, estranha. E fecunda.


2.
O rato, esquecido de si
à luz indócil do meio-dia,
não sente senão a bondade do fruto
suave sob seu escuso olhar corroído.

O que vê da manga ninguém saberia.

Colhe o fruto sem dar por isso,
mas lépido, ao som de passos,
retorna à ausência de luz.


3.
Filigranada em sombra,
a mangueira permanece,
como o chão, entregue
à ventura de seus frutos
à mão, à boca, à sombra.


4.
Do escuro cavado à sorte,
espreitam o rato e sua poeira,
inertes no cheiro acre
que só a sombra dócil,
o chão
e a manga
ignoram.



[Poema inédito reproduzido com autorização do autor.]


---------
© 2017 Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------

Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

Para Hilal S. Hilal, 1. Atrás dessa escritura de cobre, atravessa a margem, a beira, o rio, tua ausência terna, a que leva c...


Para Hilal S. Hilal,


1.

Atrás dessa
escritura de cobre,

atravessa

a margem, a beira, o rio,
tua ausência terna,

a que leva
camadas de dobras
indefinidamente.


2.

Se escrevo
em metal,

atravesso

o conto, a conta
que recorda o fio
que reencontro
no canto, na concha
de tua sombra

nebulosamente
aqui, a sós,

na frase cortante
de metal
e alma.



3.

Atravessa-me
o passo
de tua ausência
incandescente.

(se escrevo
linhas em cobre
é para reter
na teia
a palavra

que adivinhe
a raiz, o sumo, a noz
de teu nome
lindo e
árido
de luz).

Atravessa-me
o gesto,
o jeito
de tua paisagem
ínfima e
fulgurante.

E ardo.
E fremes.
E passo.


Paulo Roberto Sodré,
Vitória,
Fim de maio, início de junho de 2007.


[Poema inédito reproduzido com autorização do autor.]

---------
© 2017 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------

Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

BIOBIBLIOGRAFIA VITRINE DE TEXTOS Poemas do livro Interiores . 1984. Trecho do romance Lhecídio: gravuras de sherazade...





BIOBIBLIOGRAFIA


VITRINE DE TEXTOS


Poemas do livro Interiores. 1984.
Trecho do romance Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite. 1989.
Poemas do livro Dos olhos, das mãos, dos dentes. 1992.
Poemas do livro De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas. 1998.

Livro de poemas Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004):

Prefácio ou a mão sem luva

Parte I – Percurso de sombra e frescor

Nestes paramos
Provocação
Vi tua dança
Talvez os cisnes
Que rumor haverá em teus olhos
Os arredores florem
Os cavalos
Poeira fina

Poemas desconcertantes [2012, versão completa.]

Inéditos:

Palavras de cobre (ao pai) [2017]
Conversa com sombra [s/d]
Lita e o rato que gostava de manga [conto inédito para criança, 2012.]
Caligrafia de fogo [2014]



DEPOIMENTOS


"Um itinerário de três passos" (Primeira aproximação autocrítica de uma obra poética). In Revista Você, SPDC/Ufes, n. 45, maio de 1997.

"Um itinerário de três passos (Primeira aproximação autocrítica de uma obra poética)”. Revista Você, Vitória, n. 45, maio 1997.

“Um autor à luz da leitura insatisfeita: autopoética”. In: LEITE, Leni Ribeiro et al. (Org.). Leitor, leitora: literatura, recepção, gênero. Vitória: Edufes, 2011. p. 495-499.

“XXI. Literatura deste início de século”. Graciano: Literatura Brasileira feita no Espírito Santo, Vitória, ano 1, n. 2, jul. 2010. Entrevista concedida a Sidney Spacini. [Disponível em: https://issuu.com/revistagraciano/docs/graciano_dois]

"Edward Morgan Forster, Maurice e uma ponderação". In: CASER, Maria Mirtis; SOUZA, Santinho Ferreira de (Org.). Por que é importante ler literatura. Vitória: Edufes, 2015. p. 78-81. Disponível em: http://repositorio.ufes.br/bitstream/10/1278/1/Livro%20edufes%
20Por%20que%20%C3%A9%20importante%20ler%20literatura.pdf


FORTUNA CRÍTICA


GAMA FILHO, Oscar. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Interiores. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES, 1984. p. 11-18.

COUTINHO, Afrânio, SOUZA, J. Galante de, dir. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: MEC/Fundação de Assistência ao Estudante, 1990. "Espírito Santo", p. 560.

BOGÉA, José Artur. Escritura da paixão. Revista de Cultura da UFES. Vitória, v. XVII, n. 49, p. 15-21, 1994.

BUSATTO, Luiz. [Orelha sem título]. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite. Vitória: FCAA/UFES, 1989.

LYRA, Bernadette. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Dos olhos, das mãos, dos dentes. Vitória: DEC, 1992. p. 5-6.

RIBEIRO, Francisco Aurélio. O erotismo ou a "escritura da paixão" em Paulo Roberto Sodré. In: —. A literatura do Espírito Santo: uma marginalidade periférica. Vitória: Nemar, 1996. p. 71-75.

DELMASCCHIO, Andréia. A recepção da literatura "infanto-juvenil" e da poesia "adulta" pelos públicos inversos. In: RIBEIRO, Francisco Aurélio (Org.). Leitura e literatura infanto-juvenil. Vitória: UFES, 1997. p. 45-61.

BARCELLOS, José Carlos. Poéticas do masculino: Olga Savary, Valdo Motta e Paulo Sodré. In: PEDROSA, Célia (Org.). Rio de Janeiro: 7Letras, 2000. p. 77-86.

NUNES, Sandra dos Reis Abrante. O ritual erótico em Dos olhos, das mãos, dos dentes, de Paulo Roberto Sodré. In: OLIVEIRA, Luiz Romero et al. (Org.). Bravos companheiros e fantasmas [1]: estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Ufes/Flor&Cultura, 2006. p. 240-257.

PESSOA, Fernando Mendes. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Senhor Branco ou o indesejado das gentes. Vitória: Secult-ES, 2006. [p. 9-13].

BERÇACO, Ériton. Ominho: uma história de homem pra homem. In: MACHADO, Lino et al. (Org.). Bravos companheiros e fantasmas 2: estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Ufes, 2007. p. 86-92.

MOISÉS, Massaud. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Poemas desconcertantes seguidos de Senhor Branco ou o indesejado das gentes. Vitória: Cousa, 2012. p. 13-14.

RIBEIRO, Francisco Aurelio. O amor e a morte nos versos de Paulo Sodré. A Gazeta, Vitória, 28 jan. 2012. Pensar, p 10-11.

DALVI, Maria Amélia. Livro e leitura: O medo do mato, de Rodrigo Britto, e Guido, a folha e o capim, de Paulo Roberto Sodré. In: ___; LOPES, Orlando; NEVES, Reinaldo Santos (Org.). Bravos companheiros e fantasmas 5: estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Edufes, 2014. p. 217-230.


---------
© 2001 Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------


Poeira final: joeira das horas delicadas. Poalha leve. Entre a leitura dos dias e a partitura dos gestos a praia, o vento, o pó. Po...


Poeira final:
joeira das horas delicadas.
Poalha leve.

Entre a leitura dos dias
e a partitura dos gestos
a praia, o vento, o pó.

Poalha fina:
joeira das horas enternecidas.
Poeira leve.


[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]

---------
© 2004 Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------

Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)