Qual música ecoa de linhas sobre a superfície? Não de linhas complexas: — linhas simples, como as das letras. Que quadro compõem estas...
O sobressimbolismo: linhas sobre a superfície
Qual música ecoa de linhas sobre a superfície? Não de linhas complexas: — linhas simples, como as das letras.
Que quadro compõem estas linhas desunidas, que apenas se tocam nos seus vértices? Pontos em que se interseccionam, mas não se penetram.
Toda escrita é formada de linhas sobre a superfície. As linhas podem ser cordas suspensas, como a língua inca. Ou gravadas na areia da praia.
Quem se dedica a descobrir o ritmo e a musicalidade dessas linhas sobre a superfície é. Música sem harmonia nem arranjos além da escansão greco-latina ocidental.
Quem se dedica a transformar letras em tintas espalhadas na tela branca da página e a compor cenas em quadros sem perspectiva, mas dotadas de plasticidade é.
É sobressimbolista.
Características do Sobressimbolismo
Carlos Nejar é o autor clássico, no sentido de ser estudado em classes de aula. O único 100% sobressimbolista.
Leitmotiv: Toda escrita envolve linhas sobre uma superfície.
Presente em artistas contemporâneos em que o hibridismo dos gêneros fez com que se tornassem posteriores a fronteiras.
Insatisfação com o cientificismo, com o neoliberalismo e com a destruição dos valores humanos e culturais pela globalização.
Emprego do Método do Raciocínio Obsessivo, que leva a técnica a explorar os mínimos detalhes dos caminhos estéticos que se bifurcam até o exagero inumerável de cada possibilidade. Melhor dizendo: leva tudo ao exagero dos mínimos detalhes de cada caminho estético possível.
Interesse pelo aspecto plástico, visual e musical da literatura. Sem abandonar a letra e a palavra.
Criação da literatura abstrata, não figurativa, sem compromisso com a mensagem, em que o ritmo e as imagens falam por si sós, com uma musicalidade que não chega à música e uma plasticidade que não chega às artes plásticas.
Psicologismo: foco na visão do indivíduo, no mundo interior do artista ou no dos seus personagens.
Interesse por símbolos, em que o sentido deve ser descoberto, não revelado de pronto.
Metáforas, aliterações, assonâncias, paronomásias, comparações, rimas internas, coliterações, antíteses — não barrocas, mas sobressimbolistas. Culto da forma, chegando ao hermetismo.
Hibridismo dos gêneros e das artes. As fronteiras entre gêneros e artes são anuladas: qualquer coisa é a mesma coisa. Romance = poema = conto = novela = teatro = música = artes plásticas.
Paixão pelo mistério, pela noite, pela morte e por entretons como o pôr do sol.
A liberdade só é possível no sonho, na imaginação e na fantasia.
Temperamento pessimista e crítico.
Misticismo agnóstico: volta ao espiritualismo cristão medieval.
Preocupação com o cultural, não com o natural.
Subjetividade contra a sociedade objetiva.
Preocupação com o inconsciente e com o psicológico.
Nefelibatas reclusos, andam nas nuvens e vivem em torres de cristal.
Na narrativa, o enredo e ação ficam em segundo plano. Contar uma história é importante, mas a forma é muito mais: formalismo.
Afastamento e crítica da sociedade burguesa.
Idealismo — arte pura — crença nos espíritos da razão e da narrativa — platonismo.
Tom literário, mesmo na prosa, não o coloquial.
Temas elevados ou elevação de temas vulgares até a altura em que se acha o estético.
Arte pela arte, sem interesse comercial.
Técnica típica do sobressimbolismo: a obra desmontável.
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© 2017 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Oscar Gama Filho é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Co-edição com a Cândida Editora [Edição digital - ISBN 978-85-64258-14-3]
Série Estação Capixaba - volume 8
Anotações de Oscar Gama Filho. Reinaldo Santos Neves não abriria mão de viver esteticamente nem para ser autor de um best-sell...
Match Point
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| Anotações de Oscar Gama Filho. |
A visão de Reinaldo sobre Mictória é mais europeia, americana e noir, que brasileira. Daí a mordacidade, a aversão à mediocridade, a ausência da complacência que seria de esperar num nativo. Seu olhar britânico é que o torna capaz de capturar o genuíno. Para ele, o único noir verdadeiro é o espírito-santense, com suas nuances de romantismo neorrealista. O contraste entre seus claros solares, que empapuçam a cor, desfazendo-a, e tons escuros, primitivos e bárbaros, compõe um filme preto e branco ultrapassado pela realidade: cápsula do tempo a ser apreciada no museu raro desta obra.
Reinaldo trata de pessoas que, abandonadas por deus (e, agora, por demônios que não as suportam), metamorfoseiam-se em mitos pela mão que bate o egoísmo, a violência, a crueldade e a indiferença pelo próximo — como massa de pão — até que se convertam em arte.
O processo de escrever, para um clássico, passa necessariamente por barreiras que dificultem a facilidade criativa. Daí seu processo de pesquisa ter-lhe granjeado dois momentos em mundos que jamais conheceu: A Crônica de Malemort e Kitty aos 22. Desta vez, lança mão de fragmentos de um sonho real para compor um alegado divertissement, gênero musical que vai do ligeiro à sinfonia, passando por tons noturnos de uma atmosfera com toques policiais.
É uma tradução intersemiótica. O eidos, que constitui a essência da obra desmontável, transforma-se em qualquer forma de arte e lê-se em qualquer linguagem ou língua. Ao inventar a cor das vogais, Rimbaud executou uma tradução intersemiótica da pintura para a literatura. Se a passagem da linguagem de uma forma de arte para outra é tão impossível quanto escrever um divertissement, sua missão de artista foi realizada. O eidos está centrado no sonho parcialmente esquecido, a que se lança para recuperar o tempo perdido. Proust mostrou que é pela memória involuntária que se recupera esse tempo perdido, momento miraculoso que possibilita escutar o tão caro silêncio. E há descrições minuciosamente proustianas, como a da alvorada (p. 71-73) e (sem ter assistido a nenhum) do desfile de moda (p. 183-86). Mas é um mundo a que só teve acesso pela pesquisa na internet. Sonhar é crime em 2017, e Reinaldo é réu confesso: culpado. O futuro o absolverá. O sonho retornará apenas no epílogo do livro (p. 232-33), com o avesso do som fazendo ouvir o silêncio.
Retrata, com total verossimilhança, fixando suas características, a Geração Y: seu modo de falar (o dialeto internetês), de sentir friamente e de se expressar. O rico vocabulário inclui neologismos como ‘putamerdalmente’ (p.112) e ‘adolescentozoides’ (p.183), gírias como ‘mó sexy’ (p. 120) e ‘ficou rox’ (p.121), e construções sintáticas que reproduzem o dialeto contemporâneo. Citações cinematográficas e intertextos refletem a formação do escritor: Camões, Orwell, ‘King Kong’, ‘Cabaré’, ‘De Olhos Bem Fechados’, ‘Cinderela’...
Em Reinaldo, as metáforas tomam vida. O pedido de Lu, melhor amiga de Kitty, é literalmente atendido: “Kitty: dá ponto pra ele, e aí, quando ele achar que te ganhou, fura o olho do gato, pelamor de Deus” (p. 163). Se, na gíria, “furar o olho” é trair, Kitty o faz: na oportunidade da primeira transa, ela o deixa na mão, sem comê-la, e ainda o mata, furando seu olho com o salto alto agulha do sapato, depois de usá-lo, anteriormente, para sair nas manchetes dos jornais de Mictória, que é exatamente a união da cidade de Vitória com o mictório poluído em que a contemporaneidade a transformou.
Bruno e Kitty são personagens complexos, dinâmicos, contraditórios, dotados de primorosa construção psicológica, digna de Dostoiévski. A partir do encontro com o Relinchador (p.110), Kitty se humaniza, retira-se de um estado primitivo de amoralidade e egocentrismo para uma semi-humanidade circunstancial. Já Phil é plano, linear, paráfrase de Philip Marlowe, detetive durão criado por Raymond Chandler. Estamos diante de um virtuose: esta novela pode ser usada, por um aprendiz de prosador, como compêndio de fórmulas de realização de narrativas e falas, escalas literomusicais, ou seja, exercícios de improviso em inúmeras variações.
Se a morte é um evento constrangedor, mas imprescindível à sua proposta, a solução é embrulhá-la no mais belo papel de presente: a literatura. A questão básica da humanidade, aqui abordada, é o quanto vamos aguentar, como vamos aguentar e por que vamos aguentar.
A equação proposta por ‘Kitty’, criada a partir do sonho, tem suas consequências. Mostra, pelo princípio clássico da intemporabilidade do belo, por autoevidência, que a arte é o eidos, a essência em torno de que a realidade variante muda. O belo, a arte, é o invariante, o eixo da realidade, núcleo imutável ao redor do qual ela se fragmenta, centrifugadora existencial. A arte forma o mundo real como dom que dela vaza. O que há de belo e atemporal em Kitty é o eixo-eidos da incompreensível consciência.
E para quem deseje posições sociais ou políticas engajadas, é bom lembrar que o autor viveu num tempo de ditadura militar, terrorismo e censura federal. Descrever e ridicularizar foi a saída. Rindo, ele castigou os costumes: ridendo castigat mores. O que nossas escassas forças podem alterar? Quando os políticos agem como se a corrupção fosse um direito adquirido, a mudança é a única guerrilha ao nosso alcance. Mas a solução apenas homologa a situação. Resta saber para qual revolução micropolítica possível conformaremos nossos gestos, que não podem ser estancados nem paralisados, mesmo que aleatórios e perdidos no mundo fútil e superficial de Kitty.
Em seu romance Sueli, Reinaldo Santos Neves afirmou que a função maior do homem no mundo “é transformar-se em literatura.”
Aprendemos, então, que a maior missão de um escritor é fazer-se literatura, tornar-se literatura. Escrever bem qualquer um consegue. O diferencial é conseguir metamorfosear-se em O Escritor, transformar-se em matéria-prima de lendas, em homem santo da religião sem deus dedicada à adoração do hegeliano espírito da literatura, entronizar-se como Filho do Absoluto.
Este é o caso de Reinaldo, que saiu da vida e abandonou seu lar para dormir em bibliotecas, livrarias e estantes, tornando-se pedra fundamental da literatura brasileira.
EPÍLOGO
Kitty, a Bela Adormecida.
O Mago-mor, vândalo infiltrado entre os Reis Magos, amaldiçoou Kitty, e todos os que na obra viviam, a um sono de cem anos, porque não foi convidado à festa da beleza e do destino. Preferiu a festa do sucesso e da riqueza, e lá chapou o coco e dormiu. Perdeu o melhor batizado do mundo e acordou puto por isso. E, afinal de contas, por não estar na lista dos convidados. Mas sabia, como Mago, que seu talento na magia encantava a todos e, por si só, o admitiria em qualquer recinto. Todos gostam de show de mágicas.
O Mago-padrinho, contudo, figura mais esperada no evento, chegou atrasado, como sempre, e não tinha dado seu presente. Nem levado. Esqueceu. A única saída residia em cumprir seu destino na linha do tempo, a que nada escapa.
Aí o Mago-padrinho concedeu sua bênção a Kitty, transformando seu sono de esquecimento. O encanto seria quebrado quando um poeta recluso, solitário e verdadeiro e sincero beijasse a beleza que do livro emana. Seria tarde demais, porque o vestibular da UFES, em que foi adotado, em 2008, já se foi, mas Kitty acordaria e viveria para sempre nas estantes de livrarias.
Kitty dormiu por mais de uma década: este ensaio foi escrito entre 2006 e 2017, em marginália, nas páginas do próprio livro, ou em pedaços de papel avulsos, com garranchos incompreensíveis em que eu insistia em ver ideogramas autoexpressivos, não um texto com início, meio e fim. Em homenagem aos 70 anos de Reinaldo, concluí o caso. Tirem suas conclusões por si mesmos, pois nem sempre o mordomo é o culpado, mesmo sendo anglo-capixaba seu senso de humor.
Enfim ressuscitei e beijei a pátina de sua página de rosto, tencionando resolver esta longa história de amor, ou, ao menos, captar seu satori, a iluminação possível em um ambiente noir, e que por isso forneceria presença à alma de Kitty, que, sem ela, continuaria perdida no limbo onírico.
© 2017 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Oscar Gama Filho é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Nota do site Estação Capixaba O livro de contos Mina Rakastan Sinua , de Reinaldo Santos Neves, editado pela CÂNDIDA e site ESTAÇÃO ...
Mina Rakastan Sinua (contos)
Nota do site Estação Capixaba
O livro de contos Mina Rakastan Sinua, de Reinaldo Santos Neves, editado pela CÂNDIDA e site ESTAÇÃO CAPIXABA, foi publicado em 2016 com patrocínio da LEI RUBEM BRAGA e apoio cultural da SPASSU TECNOLOGIA. O projeto apresentado, tendo como proponente Eurico Scaramussa, previa, à guisa de contrapartida, além da doação de exemplares ao patrocinador e à empresa apoiadora, dois outros itens: (a) realização de um debate público, o que aconteceu, sob a forma de mesa-redonda, no auditório do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, em Vitória, no dia 22 de fevereiro de 2017, tendo, além do autor, participado da mesa Gilbert Chaudanne, Sérgio Blank e o editor Alfredo Andrade; e (b) publicação online, para leitura gratuita, de quatro dos nove contos do livro, aqui cumprida. Os quatro contos foram selecionados pelo próprio autor.
Orelhas
Introdução
Sumário
Contos
Nascido em 4 de julho
Homens de letras
Inverno em Volna
A corveta em chamas
Páginas finais
[In SANTOS NEVES, Reinaldo. Mina Rakastan Sinua - contos. Vitória: Cândida / Estação Capixaba, 2016.]
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© 2016 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Co-edição com a Cândida Editora [Edição digital - ISBN 978-85-64258-07-5]
Série Estação Capixaba - volume 2
Baía de Vitória a partir do Morro do Moreno. Foto Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016. Texto (Text): Luiz Guilherme Santos Neves ...
Espírito Santo, Brasil (Português / Inglês)
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| Baía de Vitória a partir do Morro do Moreno. Foto Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016. |
TERRA DE MAR E MONTANHA / LAND OF MOUNTAINS AND SEA
| Desta terra sem par a grandeza O meu canto não diz nem traduz São cachoeiras de força e beleza São montanhas cobertas de luz (Canção Minha terra, letra de Cyro Vieira da Cunha, música de Henrique Vogeler) -------- I know not how to sing or tell you Of this matchless land’s wonders: Waterfalls in their strength and beauty, Mountains sparkled with light. (My land. Lyrics by Cyro Veira da Cunha, music by Henrique Vogeler.) |
Espírito Santo, Brasil. O que é? Como é? O que tem de El-Dorado, de Shangri-lá, de Canaã?
Falemos desse pequeno Estado do sudeste brasileiro. E falemos primeiro da terra, porque no princípio era a terra.
Em linguagem de geógrafo se diria que o Espírito Santo é um território de 45.597 km² de superfície, situado nos trópicos entre 17º 55′ 21″ e 21º 17′ 59″ de latitude sul. Mas, em estilo de crônica, vejam: o Espírito Santo, no mapa, nada mais é do que uma faixa de terra espremida entre o vasto Estado de Minas Gerais e o profundo mar azul. Parece mesmo, por ironia ou simbolismo, um Portugal invertido, com Minas fazendo o papel de Espanha, eqnaunto o oceano é o mesmo, Atlântico lá como cá. A diferença está no sol, que aqui se ergue molhado de mar, e lá, é no leito do mar que se deita ao crepúsculo.
É uma terra feita de mar e montanha, que o sol banha de muita luz a maior parte do ano.
As praias se sucedem ao longo de 400 quilômetros de costa, alternando-se em estirões e enseadas. Algumas conservam traços primitivos e edênicos. Outras se sofisticaram em balneários de fama internacional.
No verão essas praias são tomadas de assalto pelos turistas, atraídos pelas águas claras de temperatura agradável. Cresce então a procura pelos pratos típicos da terra, feitos com frutos do mar — peixes, camarões, siris e lagostas — ou com caranguejos, frutos dos mangues do litoral do Espírito Santo. Nessa culinária reina soberana a moqueca de peixe com pirão de farinha, servida fervendo em panela de barro.
A partir de 16 milhas da costa, nas águas azuis, a plataforma continental do Espírito Santo é o principal reduto do mundo para a pesca do marlim. Um marlim azul de 636 quilos mereceu registro noGuiness Book of Records.
As montanhas realçam a beleza natural da região central do Espírito Santo. Esses verdes relevos têm ameno clima tropical de altitude e a temperatura, nas noites de inverno, pode chegar perto de zero grau centígrado. Aí vivem beija-flores e orquídeas, e espalham-se pacatas cidades com jeito rural, onde o tempo não tem pressa de passar. Aí se deparam cenários que lembram recantos europeus, numa transposição mágica de geografias.
A região tem bons hotéis com chalés à beira de lagos onde se pode pescara carpa do almoço e campos de golfe para praticar aquele que é o mais tranqüilo dos esportes. Sem falar nas pousadas e restaurantes de estilo rústico nas vertentes das colinas cobertas de mata.
Rio é coisa que não falta nessa parte do Espírito Santo, com águas frias e arrepiadas caindo em penca em inúmeras cachoeiras e cascatas, ou percorrendo vales cheios de história, porque neles se estabeleceram colônias de imigrantes europeus. O nome de alguns deles — Jucu, Itapemirim — guarda a lembrança dos indígenas, donos da terra por direito natural. O nome de outros, como Benevente, fixa a saudade que o colono português sentia de casa.
Mas o maior rio do Estado chama-se simplesmente rio Doce. Natural de Minas Gerais, vem desaguar no Atlântico, cindindo o território do Espírito Santo em duas metades quase iguais em tamanho, porém de relevo distinto.
Ao sul ficam os contrafortes da serra da Mantiqueira, que se aproxima do litoral para espiar o mar. Seu ponto culminante é o pico da Bandeira, na serra do Caparaó, muro que separa os quintais do Espírito Santo e Minas Gerais. Do alto de seus2.890 metros fica fácil, quando as nuvens não tapam a vista, contemplar boa parte do Espírito Santo.
Já ao norte do rio Doce abre-se uma região de tabuleiros ondulados onde despontam belos picos solteiros plantados em meio a maciços de granito. O rio São Mateus, chamado Cricaré — ou preguiçoso, em língua tupi — desliza por essas bandas numa pachorra que lhe justifica o antigo nome.
Nessa parte setentrional, em que o porto de São Mateus teve época de fastígio, graças ao comércio da farinha de mandioca, desenvolvem-se hoje a pecuária, o reflorestamento intensivo e a produção do petróleo.
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Espírito Santo, Brazil. What is it? What is it like? What does it have in common with El Dorado, Shangri-la, and Canaan? We will speak first of the land, because it has always been there.
Geographers would state that Espírito Santo has an area of 17,605 square miles in the tropics, between 17º 55′ 21″ and 21º 17′ 59″ south latitudes. But, if we were to write a chronicle, we would say that, on a map, it represents no more than a strip of land wedged between the state of Minas Gerais and the deep blue sea. It seems — be it ironically or symbolically — like an inverted Portugal, with Minas playing the role of Spain whereas the ocean is the same. It is the Atlantic, both here and there. We find the difference in the sun. Here it rises, drenched by the sea, and there its settles into a watery bed at dusk.
This is a land forged from the mountains and sea, basking in the sun most of the year.
Its beaches lie along more than two hundred miles of coast, alternating between long, sandy stretches and small bays. Some have retained their primitive, Edenic features while others have become sophisticated resorts of world renown.
During the summer, those beaches are stormed by tourists, attracted by the clear, warm waters. And the demand grows for typical local dishes prepared from the fish, shrimp and lobsters taken from the sea or crabs from the mangrove swamps along the coast. The matchless specialty there is fish moqueca, served boiling in earthenware pots with a side of pirão de farinha — a spicy cassava flour mush.
The continental shelf, which begins 16 miles offshore, is by far the best spot in the world for marlin fishing. A 1,404-pound blue marlin caught there was duly granted an entry in the Guinness Book of Records.
Mountains heighten central Espírito Santo’s beauty. Those green highlands enjoy a mild climate, where the temperature may drop to zero degree Celsius on winter nights. In an area that is home to hummingbirds and orchids, peaceful rural towns abound where there is no hurrying time. And we can find scenes that remind us of Europe, in a magical transposition of geography.
The region features good hotels with lakeside chalets. You can catch a carp for your lunch or take advantage of the golf course built for fans of that particularly relaxing sport. And we have not even mentioned the rustic restaurants and inns scattered on the slopes of tree-covered hills.
There is no shortage of streams in the area. Their chilly waters rush over numerous falls and wash along valleys drenched with the history of the European immigrants who once settled on their banks. Some of their names — Jucu, Itapemirim — remind of the land’s original inhabitants, the Indians. Others, like Benevente, express the Portuguese colonists’ longing for their homeland.
The state’s greatest river is simply called the Rio Doce — Fresh Water River. With its headwaters in Minas Gerais, it flows eastward to the Atlantic ocean and divides Espírito Santo into two halves, almost identical in size but with quite different contours.
In the south lie the foothills of the Mantiqueira range, which approach the coast as if to peep at the sea. They culminate at Bandeira peak in the Caparaó range, forming a wall that separates the backyards of Espírito Santo and Minas Gerais. At 9,462 feet, you can easily see much of Espírito Santo on a clear, dry day.
A vast expanse of rolling tablelands stretches north from the Rio Doce, displaying beautiful, solitary peaks that crop up among granite massifs. Rio São Mateus, also know as Cricaré — Lazy River in Tupi — flows across those areas at a sluggish pace that accounts for its earlier name.
Today, we find cattle farming, intensive reforestation, and oil production in this northern region where São Mateus was once a booming port, thanks to cassava flour.
UM POUCO DE HISTÓRIA / A BIT OF HISTORY
Falamos da terra. Falemos agora um pouca da história do povo que nela habita.
Pode-se dizer, com liberdade de imagem, que a história do Espírito Santo tem uma estrutura sinfônica, dividindo-se em três movimentos: vivace com brio, adagio e presto.
O primeiro movimento abrange o século inicial da colonização portuguesa, quando se põem face a face, na terra luxuriosa, portugueses e índios, no confronto dos contrários. A fundação dos primeiros povoados, a criação de uma agricultura permanente, a exploração do território, a pregação do cristianismo pelo jesuítas, a escravização e aldeamento dos indígenas, fazem estalar conflitos inevitáveis entre colonos e índios, marcando com a violência os compassos dessas overture. A introdução do africano para o trabalho das lavouras agrava e amplia o ritmo desses entrechoques.
Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário, é o personagem principal desse período. Sua longa vida teve duas fases bem distintas: na primeira ele é o herói camoniano, o lusíada que desbrava os mares e conquista as Índias, na Segunda, que é a aventura brasileira, Coutinho protagoniza uma tragédia shakesperiana de fracasso, miséria e morte. Tendo empenhado patrimônio e saúde na colonização, morreu quase ao desamparo depois de 25 anos de Brasil.
A chegada dos portugueses à terra se deu em 23 de maio de 1535, Domingo do Espírito Santo — razão do nome. Espírito Santo também chamou-se a primeira vila, fundada no remanso de uma enseada, a Prainha. Quinze anos depois, o lugarejo passou a chamar-se Vila Velha, não porque tivesse envelhecido a olhos vistos, mas porque a administração da colônia foi mudada para local mais seguro, a ilha montanhosa no interior da baía. Desde então, a Vila Nova de Nossa Senhora da Vitória tornou-se sede do governo do Espírito Santo.
Esparsos núcleos de povoamento surgiram ao norte e ao sul de Vitória — São Mateus, Nova Almeida, Serra, Guarapari, Reritiba — sempre na franja litorânea. Suas populações, ralas e humildes, daí não arredavam pé, sofrendo da crônica falta de recursos, atemorizados pelos índios do sertão e pelos piratas do mar.
Era o pau-brasil e o açúcar da capitania que atraíam esses piratas, mas suas incursões não passaram de grandes sustos. Nem os franceses, nem os ingleses, que aqui estiveram em 1592 sob o comando do célebre corsário Thomas Cavendish, conseguiram butim que valesse a pena.
Maior foi o susto nas duas ocasiões em que holandeses assaltaram Vitória subindo suas ladeiras. Em 1625 tiveram de se ver com a jovem Maria Ortiz, que se fez heroína e virou mito. Em 1640, foram repelidos após ferozes escaramuças que serviram para batizar uma ladeira com o nome de rua do Fogo.
Lá na Bahia, o padre Antônio Vieira celebrou a derrota dos protestantes com estas palavras de duplo sentido: “Esta foi a vitória do Espírito Santo uma das mais notáveis que hão tido no Brasil as armas católicas”.
São palavras de exaltação que encerram o vivace com brio de nossa sinfonia histórica.
O segundo movimento é um adagio. Descobrira-se ouro no sertão, que foi logo desmembrado do território do Espírito Santo para constituir a capitania de Minas Gerais. Para proteger riquezas recém-descobertas, Portugal proibiu a abertura de caminhos naquela direção, sob pena de confisco e degredo para Angola.
Mesmo parcos de bens, os habitantes do Espírito Santo não se arriscaram ao desterra, e até acharam na ameaça oficial um motivo a mais para ficar como estavam. Permaneceram aquietados no litoral, emendando o vazio dos dias com os pavores da noite, bastando-se das roças de milho, feijão e mandioca. O regalo das proteínas, em sua dieta diária, vinha dos peixes que colhiam ao mar e aos rios e que comiam do jeito que já se sabe, cozidos em panelas de barro, fortalecendo assim a tradição das moquecas.
O século XIX vê brotar um outro Espírito Santo, no que seria o terceiro movimento — presto — da sinfonia, uma sinfonia ainda inacabada. Esgotado o ouro das Minas Gerais, foi estimulada a comunicação com aquela capitania pelo governo português. O sertão, antes impenetrável, passou a ser desbastado e o botocudo, que nele habitava, defendeu como pôde seu território.
Nesse século começa também, em ondas crescentes, o avanço dos cafezais pelo sul da província, ficando raízes no chão antes recoberto de matas. Lavradores fluminenses e mineiros fundam fazendas no vale do rio Itapemirim e em terrenos vizinhos. Em pouco, um novo pólo econômico centraliza-se na vila de Cachoeiro de Itapemirim.
A partir de meados do século foram criados, nas serras centrais do Espírito Santo e nos vales dos rios que por entre elas correm, colônias com novos imigrantes europeus. São colonos da Europa Central, alemães — especialmente pomeranos — austríacos, suíços e holandeses. Mas o maior número vem do norte da Itália em fluxo que não pára.
Plantando e colhendo café juntamente com outros produtos agrícolas, os imigrantes e seus descendentes vão gradativamente incorporando novas áreas à agricultura, transpondo o rio Doce e desbravando as terras setentrionais, onde mineiros e baianos também se estabeleciam. Na metade do século XX o território do Espírito Santo estava enfim todo conquistado. A população rural sobrepujava a urbana mas a cidade de Vitória, capital do Estado, já pontificava como importante porto do litoral brasileiro.
Esta situação demográfica se inverteu nas décadas seguintes. Atualmente quase metade da população do Espírito Santo, cujo total ascende a cerca de 3 milhões de habitantes, vive nas cidades, com maior concentração na região metropolitana da Grande Vitória. Constituída pelos municípios da Serra, Vila Velha, Cariacica, Viana e Vitória.
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We have talked about the land, so let us now turn to the history of those who live there.
We can imagine the history of Espírito Santo as being a three-movement symphony. The first movement — vivace con brio — spans the first century of European colonization, as the Portuguese and Indians faced each other in a battle of contrasts over a lush, tropical country. The founding of the first settlements, introduction of permanent agriculture, exploration of the land, preaching of Christianity by Jesuit missionaries, and attempts to settle the Indians and reduce them into slavery gave rise to inevitable conflicts between the native population and the colonists, thus stamping this overture with a high pitch of violence. The forced arrival of Africans to work in the fields aggravated and deepened those hostilities.
Vasco Fernandes Coutinho, who received the first grant in Espírito Santo, was the outstanding figure during this period. His long life had two very different phases. He began as a typical Portuguese hero in the style of Camoëns’s Lusíadas by braving unknown seas and conquering the East Indies. As a middle-aged man, however, he took part in a Shakespearean tragedy of failure, misery, and death on Brazilian shores. He invested both his property and health in the colonial effort, only to die almost penniless after twenty-five years in the country.
The Portuguese landed on May 23, 1535, Pentecost Sunday — Domingo do Espírito Santo in their language — which explains the origins of the name. They also christened their first settlement on the backwaters of the bay — Prainha, or Small Beach — with the same name. Fifteen years later, it was changed to Vila Velha — Old Village, but not because the village had aged. Rather, they moved the colonial administration to a safer location — a mountainous island in the bay. Since that time, the new village — Vila Nova de Nossa Senhora da Vitória — has been the seat of government in Espírito Santo.
Dispersed settlements sprang up north and south of Vitória — São Mateus, Nova Almeida, Serra, Guarapari, Reritiba — all along or near the coast. Poor and few in number, the colonists would not budge, even though they suffered from chronic shortages of supplies and were terrified of Indians from the backlands and pirates from the sea.
The pirates coveted brazilwood and sugar, but their raids in Espírito Santo caused little more than great alarm. Neither the French nor the English — the latter led by the famed privateer Thomas Cavendish in 1592 — were able to take enough loot to justify their effort.
The Dutch tried and almost succeeded where others had failed. They twice fought their way up the island’s slopes. In 1625, they had to deal with Maria Ortiz, a young heroine who became a local legend. They were driven off in 1640 after a series of wild skirmishes that gave Fire Street its name.
In Bahia, Father Antônio Vieira commemorated the Protestants’ defeat with a play on words: “This Victory of the Holy Spirit was one of the most remarkable victories ever achieved by Catholic arms in Brazil.” In Portuguese, Vitória do Espírito Santo can mean both the name of the city and, literally, the victory in question.
And with these words of exaltation, the first movement of our historic symphony comes to a close.
Our second movement is an adagio. Gold was discovered in the hinterlands, which led the Portuguese to separate it from Espírito Santo and create the captaincy of Minas Gerais. So zealous were they about protecting their newly-found mines that they forbade the opening of roads westward, under the penalty of forfeiture of property and banishment to Angola.
Though destitute, Espírito Santo’s inhabitants would not risk being transported overseas. They even regarded the official threat as another reason to stay the way they were. They quietly remained on the coast, coupling fear of their nights with the emptiness of their days while contenting themselves with crops of corn, beans, and cassava. The protein in their daily diet came from fish they caught at sea or in the rivers, which they boiled in earthenware pots, thus strengthening the tradition of moquecas.
Our third symphonic movement — presto — brought with it the flowering of a new Espírito Santo in the nineteenth century, which is still in progress. With the depletion of gold in Minas Gerais, the Portuguese government encouraged the opening of new routes to that captaincy. The backlands, formerly barred, were now opened and the Botocudo Indians living there defended their land as best they could.
At the time, coffee groves were planted in southern Espírito Santo on formerly forest-covered lands. Farmers from Rio de Janeiro and Minas Gerais established plantations in and around Itapemirim Valley and a new economic axis was soon centered on the village of Cachoeiro de Itapemirim.
By mid-century, new waves of European immigrants had begun settling in the central highlands and along the rivers running through its valleys. The immigrants were from Central Europe — Germans, mainly from Pomerania, as well as Austrians, Swiss, and Dutch. But the greatest numbers came from northern Italy in a never-ending flow.
The immigrants and their descendants, planting and harvesting coffee, gradually occupied new areas for agriculture. They spread beyond the Rio Doce into northern Espírito Santo, where people from Minas Gerais and Bahia had already put down roots.
By mid-twentieth century, Espírito Santo’s territory had been fully occupied. The rural population out-numbered that in urban areas, but Vitória, the state capital, had grown into a major Brazilian port.
This demographic pattern was reversed in subsequent decades. Today, roughly, half of the state’s three million inhabitants live in cities, particularly in Cariacica, Viana, Vila Velha, and Vitória.
RAÍZES CULTURAIS / CULTURAL ROOTS
Se a história do Espírito Santo veio do mar, sua cultura formou-se na terra, de outras culturas pré-existentes.
Os índios contribuíram com palavras que batizaram lugares e enriqueceram a língua do povo. A expressão capixaba é uma delas. Significando em tupi pequena roça de milho, virou o gentílico dos nascidos no Espírito Santo. Os índios transmitiram ainda técnicas tropicais de pescar e caçar, do fabrico da farinha de mandioca, da produção de panelas de barro usadas na culinária e na decoração. De lambuja ensinaram os portugueses a pescar com gestos artísticos usando tarrafas.
Os africanos entraram, de sua parte, com danças populares como as Bandas de Congo e o Ticumbi, de indumentária vistosa e coreografia guerreira. Deles veio a devoção a São Benedito, o requinte no preparo das comidas à base de farinha de mandioca, da torta de marisco da Semana Santa e da gostosa moqueca capixaba, feita com o africano capricho de temperos e azeites.
Os portugueses trouxeram a língua, a organização administrativa, a arquitetura colonial e a fé católica, cujo monumento máximo é o convento da Penha, na entrada da baía de Vitória, o mais notável templo seiscentista da costa do Brasil. Fundado pelo fanciscano frei Pedro Palácios, o convento tornou-se sede do culto a Nossa Senhora da Penha, padroeira do Espírito Santo.
Os imigrantes da Itália e da Europa Central deixaram sua marca na culinária, de que é exemplo a polenta da receita italiana, e na arquitetura de telhados inclinados. Com experiência milenar legaram a aptidão para o cultivo do solo, a prática de ofícios artesanais e mecânicos e o gosto pela música o vaivem alegre e serpentino das concertinas. Seu poder de iniciativa revela-se em grandes empreendimentos do comércio e da indústria, acompanhados mais tarde pelos descendentes dos sírios e libaneses, chegados ao Espírito Santo no começo do século XX.
O perfil cultural do Espírito Santo não está acabado. Ele continua sendo conformado pelas transformações econômicas e sociais. Os japoneses, mais recentemente, estão se integrando a este grande caldeamento cultural, atraídos como técnicos pelos projetos industriais em expansão, principalmente nas áreas portuária, siderúrgica e de indústrias de ponta.
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If Espírito Santo’s history arrived by sea, its culture was forged on land from other cultures.
Indians gave us place names and enriched our everyday language. The very word capixaba serves as an example. Originally a Tupi word meaning a small corn field, capixaba now signifies anyone born in Espírito Santo. They also contributed hunting and fishing skills, cassava flour, techniques for making earthenware pots used for cooking and decorative purposes. As a bonus, they taught the Portuguese the graceful art of fishing with throw nets.
The Africans, on their part, also contributed folk dances replete with colorful costumes and warlike choreography, such as the Congo and Ticumbi. In addition, they gave us the cult of St. Benedict, excellent cassava-based culinary, a seafood pie traditionally served during Holy Week, and the delicious moqueca, concocted with typically African spices and oils.
The Portuguese brought their language, administrative organization, colonial architecture, and the Catholic religion. The convent of Our Lady of the Rock, atop a hill overlooking the entrance to Vitória bay, is the most notable example of colonial church architecture on Brazil’s coast. Founded by the Franciscan friar Pedro Palácios, it became the shrine of Our Lady of the Rock, Espírito Santo’s patron saint.
Immigrants from Italy and Central Europe also left their mark on local cuisine and architecture, as shown by Italian polenta and tall, sloping roofs. Their millennial legacy included agricultural techniques, handicrafts, mechanical skills, and a taste for concertina music. Many large commercial and industrial ventures bear witness to their entrepreneurial abilities, an aptitude they share with the descendants of Syrians and Lebanese who arrived here in the early twentieth century.
Espírito Santo’s cultural profile has not yet been completed. It is still undergoing economic and social transformations. The Japanese, recent newcomers, are integrating themselves in this great cultural melting pot. They are being employed as technicians in expanding industrial projects, especially in port facilities, iron ore mills, and state-of-the-art technology.
A CAMINHO DE UM TEMPO NOVO / BOUND FOR TOMORROW
Falemos, finalmente, do que se fez e se pode fazer nesta terra.
Até meados do século passado, a economia do Espírito Santo limitava-se à pesca artesanal, à extração de madeiras, à pecuária incipiente, às lavouras de subsistência e da cana-de-açúcar e da mandioca.
O cultivo do café alterou este quadro tornando-se a base da economia, responsável pela transformação de Vitória em ativo porto de exportação.
O café ainda tem expressiva participação no produto interno bruto estadual, contando com milhões de cafeeiros produtivos. Novos produtos, porém, encontram-se em franca expansão, como alho, tomate, macadâmia, pimenta-do-reino e outros. O cultivo de frutas tropicais e de clima temperado se firma aceleradamente. Outras frutas como abacaxi, mamão e banana são exportadas para vários Estados brasileiros. A industrialização de alimentos à base de carnes de qualidade e de derivados do leite tem campo aberto pela frente devido ao avanço da pecuária.
Com a implantação, a partir da década de 60, dos chamados grandes projetos, a fisionomia econômica estadual mudou radicalmente. A Companhia Vale do Rio Doce inaugurou, em 1966, o porto de Tubarão, para exportação de minério de ferro, inclusive pelotizado.
Nas proximidades do porto o governo brasileiro instalou a Companhia Siderúrgica de Tubarão tendo, à época, parceiros italiano e japonês. A empresa está hoje privatizada produzindo mais de três milhões de toneladas de placas de aço por ano.
Contíguo ao terminal de Tubarão foi montado o grande porto de Praia Mole que completa, com o complexo industrial da Aracruz Celulose, ao norte de Vitória, o elenco dos grandes projetos.
O Centro Industrial de Vitória — Civit — no município da Serra abriga hoje cerca de cem indústrias inclusive a JDR, uma joint-venture da Xerox com dois de seus ex-empregados, dedicada à fabricação de periféricos para impressoras eletrônicas. Dois centros industriais já estão projetados para os municípios de Vila Velha e Linhares, com previsão de novos para Cariacica, Cachoeiro de Itapemirim e Colatina. Nesta última cidade, à margem do rio Doce, acaba de ser inaugurada uma Escola Técnica Federal para a preparação de técnicos de nível médio. Ela passa a integrar a rede de ensino especializado que tem na Escola Técnica Federal de Vitória, no Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e na Universidade Federal do Espírito Santo centros fundamentais de formação profissional.
Mas é sem dúvida, o corredor de exportação da região centro-leste do Brasil que rasga incomparáveis perspectivas para o Espírito Santo. O corredor escoa por meio de ferrovia a produção do cerrado brasileiro — vastíssima e rica área que compreende os Estados de Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Para isto o terminal de Tubarão foi dotado do aparelhamento necessário, além de unidades especiais de armazenamento de grãos, notadamente soja. A Companhia Vale do Rio Doce participa do transporte com sua estrada de ferro Vitória a Minas.
Vitória transformou-se no maior complexo portuário brasileiro, voltado para a importação de produtos vários como o carvão e para a exportação principalmente de minérios, produtos siderúrgicos e grãos. Caminha assim para ser poderoso pólo comercial e financeiro internacional graças a sua posição portuária privilegiada, integrada à região que, com os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerias e São Paulo, gera a maior renda interna do Brasil.
Buscando equilibrar o desenvolvimento da Grande Vitória com o do interior do Estado, medidas estão sendo postas em prática. São projetos diferenciados, ligados aos recursos naturais e às possibilidades econômicas dos municípios do Estado. O beneficiamento do granito e do mármore com segurança de absorção pelo mercado externo, onde o mármore do Espírito Santo tem sido confundido com o de Carrara, é um exemplo.
O turismo, atrelando a região serrana às praias próximas, já movimenta investimentos públicos e privados atentos à capacidade da recepção do Estado para 5.000.000 de turistas por ano.
O desenvolvimento do Estado está sendo alcançado com a consciência da necessidade de se priorizar a preservação do meio ambiente.
O Espírito Santo fecha o século bem diferente de quando começou. O projeto de expansão econômica que se tem agora é arrojado e diversificado, dentro de planejamento bem estruturado, de sólida sustentação. Suas diretrizes apontam para o século que se aproxima e dão a certeza de que é possível se realizar o sonho de que fala o hino do Espírito Santo: alcançar a estrela prometida.
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And, finally, let us speak about what has been and can be done in this land.
Until the mid-nineteenth century, Espírito Santo’s economy was restricted to rudimentary fishing and cattle ranching, lumbering, subsistence level agriculture, sugar cane and cassava.
Coffee, which became the basis of the economy, changed this picture altogether. It made Vitória evolve into a major port for exports.
Coffee remains an important item in the state’s gross domestic product, as there are millions of productive coffee plants. A new line of products, however, is now being fully expanded to include, among others, garlic, tomatoes, Queensland nuts, and black pepper. The cultivation of tropical and temperate fruits has been rapidly increased. Other fruits, such as pineapples, papaya, and bananas, are being exported to several Brazilian states. Improved cattle ranching has opened the horizon for the meat processing and dairy industries.
The state’s economic profile began to change drastically in the early sixties due to the implementation of so-called major projects. The Vale do Rio Doce Company inaugurated the port of Tubarão in 1966 to export iron ore, including in the form of pellets.
The Brazilian government opened the Tubarão Steel Company near the port in conjunction with Italian and Japanese partners. This company has since been privatized and now has an annual output of over three million tons of steel plates.
The large Praia Mole port was constructed near Tubarão, which, with the Aracruz Celulose industrial complex north of Vitória, rounds out the list of the state’s major projects.
The Vitória Industrial Center (Civit) in the municipality of Serra now houses nearly one hundred industries. Among these, we find JDR, a joint-venture established by Xerox and two of its former employees to manufacture peripherals for electronic printers. Another two industrial centers have been planned for Vila Velha and Linhares, and others are being considered for Cariacica, Cachoeiro de Itapemirim, and Colatina. Colatina, on the banks of the Rio Doce, just witnessed the inauguration of a federal technical school to train middle level technicians. This school has been integrated into the network of specialized education that includes the Federal Technical School in Vitória, the National Service for Industrial Apprenticeship (Senai) and the Federal University of Espírito Santo.
However, it is undoubtedly the transport corridor in Brazil’s central-eastern region that has brought the state incomparable perspectives for growth. Products from the Brazilian cerrado — a vast and fertile area including the states of Minas Gerais, Goiás, Tocantins, and Mato Grosso do Sul — are carried along the corridor by rail, which is why the Tubarão terminal was given all of the equipment it needed, in addition to special facilities for storing grain, particularly soy beans. The Vale do Rio Doce Company has contributed its Vitória-Minas railroad to this transportation network.
Vitória has become Brazil’s largest port facility, focussing on importing goods like coal and exporting iron ore, steel, and grain. It is thus on its way to becoming an important international commercial and financial center because of its highly developed port, which is closely integrated with the states of Rio de Janeiro, Minas Gerais, and São Paulo — Brazil’s greatest income-producing region.
Measures are being taken to balance Greater Vitória’s economic growth with that of the state’s rural areas. These projects are varied in nature and are linked to the natural resources and economic potential of the state’s municipalities. As an example, we can cite the processing of granite and marble. The state’s marble — in great demand overseas — has been ranked equal to that of Carrara.
Tourism, which links the highland and coastal regions, has already brought about public and private investments aimed at the state’s capacity to accommodate five million tourists per year.
Furthermore, development in the state is being carried out with an awareness of the need to make environmental protection a priority.
Espírito Santo is different altogether from the humble province it was at the turn of the century. The daring and diversified economic development project now under way is being carried out in accordance with sensible, carefully thought-out guidelines. It is geared toward the coming century, certain of realizing the dream spoken of in the state’s an them: to reach the promised star.
[Reprodução autorizada pela Xerox do Brasil e pelos autores.]
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© 2011 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Renato Pacheco foi importante pesquisador da história e folclore capixabas, além de escritor, com vários livros publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Ilustração do livro Nova Escola para aprender a ler, escrever e contar, de autoria de Manuel de Andrade Figueiredo, publicado em Portu...
Mapa da literatura brasileira feita no Espírito Santo
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| Ilustração do livro Nova Escola para aprender a ler, escrever e contar, de autoria de Manuel de Andrade Figueiredo, publicado em Portugal no ano de 1722 (1a. edição). |
Sumário
Introdução: Questão de limites
Primeira parte: Do século XVI ao Poema Mariano
a) As primeiras manifestações
b) José de Anchieta
c) Dois séculos de quase nada
d) O Poema mariano
Segunda parte: O século XIX
e) Pré-romantismo
f) Romantismo
g) Parnasianismo e simbolismo
Terceira parte: De 1901 a 1950
h) Primeiras décadas do século XX
i) Os anos 30 e 40: os príncipes dos poetas capixabas
j) Os anos 30 e 40: pouca prosa
k) A Academia Capixaba dos Novos
Quarta parte: De 1951 a 1978
l) Cenário cultural dos anos 50 e 60
m) A geração de 45
n) Audífax e depois: a poesia dos anos 60 e 70
o) A redescoberta do romance e outros sinais de prosa nos anos 60 e 70
Quinta parte: A modernidade
p) A época áurea: os anos 80
q) A década de 80: prosa de ficção
r) A década de 80: poesia
s) Os anos 90
t) Outras contribuições institucionais
u) Outros autores da década de 90
Sexta parte: Os três primeiros anos do século XXI
Bibliografia
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© 2003 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950. Este Livro O projeto deste livro nasceu na Universidade Federal do Espírito Santo, ...
Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba - 1944-1982
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| Banda de Congos de Manguinhos, Serra, anos 1950. |
Este Livro
O projeto deste livro nasceu na Universidade Federal do Espírito Santo, concebido como uma forma de marcar o centenário de nascimento do folclorista Guilherme Santos Neves em 2006. Nasceu no Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, setor que, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Letras (Departamento de Línguas e Letras, Centro de Ciências Humanas e Naturais), venho administrando desde 1995.
Nascendo na Ufes nasceu, creio, no lugar certo: pois, paralelamente à sua intensa atividade como folclorista no meio cultural espírito-santense, Guilherme Santos Neves foi também – e na Ufes – professor de Literatura Portuguesa, tendo feito parte do corpo docente do Departamento de Letras da então Faculdade de Filosofia desde 1951 até se aposentar em 1976. Nasceu, assim, este projeto, no lugar certo e, se não nas mãos do homem certo – porque são as mãos suspeitas de seu filho –, o leitor verá que a obra em si paira acima de qualquer parcialidade filial.
O sempre lembrado Renato Pacheco, discípulo dileto de Guilherme Santos Neves, costumava declarar com total conhecimento de causa que a grande obra de Mestre Guilherme – como o chamava – jazia nas centenas de artigos e estudos que publicara em jornais e revistas do Espírito Santo, Brasil e Portugal. Era aí – e não em livros que suas demais ocupações não lhe possibilitaram organizar – que ele divulgava os resultados de seus estudos e pesquisas sobre o folclore espírito-santense. Sua produção em formato de livro – no que se refere ao folclore – está restrita a apenas cinco títulos, que, embora clássicos como estudos da cultura popular capixaba, não traduzem a amplitude do trabalho que Mestre Guilherme realizou nessa área. São eles os dois livrinhos de Cantigas de roda, de 1948 e 1950;[1] o Cancioneiro capixaba de trovas populares, de 1950, quatro das quais trovas foram musicadas pelo maestro Guerra-Peixe; Alto está e alto mora: Nótulas de folclore, de 1954; História popular do convento da Penha, de 1958 (2a. edição, 1999); e Romanceiro capixaba, de 1983 (2a. edição, 2000), este último por mim organizado a partir dos estudos esparsos que meu pai publicou no campo do romanceiro tradicional. Um sexto livro poderia acrescentar-se a essa lista: Folclore brasileiro: Espírito Santo, publicado pela Funarte em 1978.
Na verdade, uma coletânea de estudos sempre esteve nos planos de Mestre Guilherme, como o demonstram diversas listas de artigos encontradas, em manuscrito ou datiloscrito, entre seus papéis, com diferentes títulos, como História e tradições do Espírito Santo e Índice do folclore capixaba (deste último se valeram Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco para batizar, numa homenagem ao mestre, o panorama do folclore capixaba em verbetes que publicaram, em 1994, com a chancela do Banestes). Não pôde ele próprio, porém, por várias razões que não cabe identificar aqui, organizar aquela que seria sua obra de maior escopo e significado.
Assim, no momento em que se decidiu escolher uma obra para celebrar-lhe o centenário de nascimento, natural e justo que se escolhesse a coletânea sonhada por Mestre Guilherme, incluindo textos selecionados de tudo quanto ele publicou, no varejo, sobre o tema pelo qual tinha particular carinho e devoção: a cultura popular do Espírito Santo.
O projeto foi aprovado na seleção pública, de âmbito nacional, do Programa Cultural da Petrobras, basicamente no formato e no escopo em que está aqui. Das centenas de artigos, chegando ou ultrapassando a casa do milheiro, que Mestre Guilherme publicou em vida, cerca de 80% abordam temas de folclore e cultura popular, inclusive paremiologia. A seleção dos artigos passíveis de inclusão nesta coletânea foi feita mediante a leitura e exame de várias centenas de itens até chegarmos ao número de 240 que consta do projeto submetido à Petrobras e posteriormente à Lei Rouanet. Quando, porém, iniciei o trabalho de organização do livro, a reavaliação do seu conteúdo e a localização de estudos importantes levaram à supressão de alguns dos artigos da relação original e à inclusão de outros, resultando nos 250 itens, mais o texto do Prólogo, que compõem o texto definitivo.
O trabalho de seleção é uma via de mão dupla: inclui-se e exclui-se. Assim, ao mesmo tempo em que várias modalidades de estudos folclóricos foram incluídas sem discussão, outras decidi desde o início deixar fora da obra, em especial a paremiologia, as cantigas de roda e o romanceiro tradicional. Vetei os artigos de paremiologia porque, por seu grande número, viriam congestionar uma obra já por si vasta, e também porque, tendo estreita afinidade com a linguagem, perdiam o toque regional que, no meu entender, constituía a principal premissa do trabalho. As cantigas de roda e o romanceiro foram suprimidos porque praticamente toda a contribuição de Guilherme Santos Neves nesses campos que lhe eram particularmente caros já fora reunida e divulgada nos dois volumes de Cantigas de Roda e no Romanceiro capixaba. Ainda assim, alguns textos paremiológicos – “Por que somos capixabas”, por exemplo – acharam lugar nesta coletânea, assim como alguns estudos avulsos sobre cantigas de roda e o trabalho panorâmico que Mestre Guilherme publicou na Revista Brasileira de Folclore sobre o romanceiro no Brasil – e no Espírito Santo –, não incluído no citado Romanceiro capixaba.
O material selecionado para publicação foi então distribuído pelas onze categorias que compõem a obra, mas algumas vezes após um processo de hesitação e dúvida, pois muitos itens se encaixariam perfeitamente em mais de uma categoria.
Algumas explicações se impõem sobre três dessas categorias.
A categoria Personalidades congrega, lado a lado, textos que Guilherme Santos Neves escreveu não só sobre mestres do folclore brasileiro como também sobre alguns dos portadores de folclore com os quais teve ligação mais estreita e constante.
Já a categoria denominada Registros abrange uma série de notícias, relatórios e resenhas que contribuirão para mostrar como se fazia o trabalho de coleta, preservação e divulgação das manifestações folclóricas no Espírito Santo daquela época.
Por fim, os Anexos. Os textos previstos nesta categoria eram, a princípio, mais numerosos, mas por conveniência editorial e/ou estrutural foram suprimidos ou distribuídos ao longo da obra, exceto dois. O primeiro deles reúne todo o conteúdo (exceto os fac-símiles) da publicação intitulada A Cabula: Um culto afro-brasileiro (Cadernos de Etnografia e Folclore, volume 3, Vitória, Comissão Espírito-santense de Folclore, 1963) tendo como núcleo a pesquisa do bispo D. João Batista Correia Nery sobre a seita afro-brasileira com que se deparou nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus durante sua visita pastoral de 1900. O segundo abriga o acervo de informações coligidas pelo folclorista junto à portadora de folclore Dalmácia Ferreira Nunes, que trabalhou como doméstica em sua casa durante mais de vinte anos. Esse material, cuja divulgação em folheto à parte o folclorista chegou a cogitar, foi publicado no boletim Folclore, 92, de 1979.
A edição do texto seguiu uma metodologia específica. Em termos gerais, os textos originais foram respeitados o mais fielmente possível, exceto na ortografia, que foi atualizada, e em eventuais interferências como cortes na adjetivação puramente laudatória e introdução, entre colchetes, de esclarecimentos julgados necessários. Alguns dos itens, de que foram encontradas mais de uma versão, não só impressas como, por vezes, em forma de textos datilografados, levaram à decisão de compor um texto único, respeitando o mais possível o discurso do autor e aproveitando informações presentes numa versão e ausentes em outra ou outras. Por outro lado, evitei essa atitude no caso de certos estudos em que, embora tratando de um mesmo tema e até repetindo certos conceitos e informações, o autor o fazia por outro ângulo ou com base em novos subsídios.
Uma palavra sobre a expressão banda de congos. Nos textos a expressão aparece sob duas formas, banda de congo e banda de congos. Ao proceder à devida padronização, entendi que, sendo congo o termo que designa o tambor cujo número predomina na instrumentação do conjunto, o mais acertado seria usar o termo no plural, a exemplo de banda de metais, banda de palhetas, orquestras de violinos, etc. Mantivemos o termo no singular quando designativo da banda propriamente dita e não do instrumento de percussão a ela pertencente.
A elaboração da bibliografia apresentou alguns problemas. Embora nunca deixasse de citar a fonte de suas citações, Mestre Guilherme por vezes o fazia de modo incompleto, omitindo ora editora, ora local, ora data das publicações, ora até mesmo, no caso de alguns textos publicados em periódicos, o próprio título do artigo citado, substituindo-o por uma alusão ao assunto. Uma parte das referências pôde ser recuperada mediante consulta às centenas de itens do acervo particular do folclorista que, por doação da família, hoje pertencem à Biblioteca Central da Ufes; outra parte, sobretudo no caso de itens que se perderam, mediante consulta na internet (mas não necessariamente a edição consultada pelo folclorista). Ainda assim, os leitores verão que persistem lacunas de informação em alguns títulos incluídos na bibliografia ao final do livro.
Coube-me também a seleção das fotografias a serem inseridas não só no livro mas também no Banco de Fotos do Folclore Capixaba, cuja criação e divulgação no site Estação Capixaba [www.estacaocapixaba.com.br] estavam previstas já no projeto apresentado à Petrobras. Sendo as fotografias destinadas à obra impressa em menor número que as destinadas ao Banco de Fotos, demos prioridade, para inclusão naquela, a fotos que tivessem uma ligação direta com os textos. Já o Banco de Fotos, além de incluir todas as fotografias constantes do livro e outras tantas sobre os assuntos ali abordados, abriga também algumas imagens que ilustram assuntos que o folclorista não chegou a desenvolver por escrito.
Não sendo um especialista em música, embora grande apreciador dela, Guilherme Santos Neves sempre dependeu de profissionais da área para estabelecer as anotações musicais do grande número de peças de música folclórica por ele gravadas. João Ribas da Costa e Maria Penedo foram seus principais colaboradores nessa tarefa, além de Therezinha de Jesus Freitas, que viria a ser sua nora, e, mais tarde, Terezinha Dora Abreu de Carvalho.
Uma parte das gravações feitas pelo folclorista se perdeu, e outro tanto se acha ainda à espera de oportunidade para transposição da mídia da época para a de hoje. Uma pequena parte já transposta inclui algumas peças de que não se achou a respectiva partitura. Isso levou à contratação da musicista Kéllen Sena Mendes Lyra, a quem pedi não só que fizesse a transcrição musical dessas peças como também, talvez com excesso de zelo, que revisse aquelas que tinham sido feitas décadas atrás, cotejando-as com as gravações, quando disponíveis. Pedi também que, para fins de padronização geral, reproduzisse as velhas partituras com base na mais avançada tecnologia para esse efeito permitida pela informática.
Perdoem se registro aqui o fato de que duas das toadas de que não se encontrou partitura nem tampouco gravação – uma modinha sobre a cachaça e a canção “Soldado de Minas” – puderam ser recuperadas porque guardei na memória a melodia, graças à freqüência com que ouvia Mestre Guilherme cantá-las em casa.
Creio que essas são as informações que me cabia dar aqui nesta nota sobre a seleção de material e a organização da obra como um todo, tarefa que me coube neste projeto e que procurei realizar conciliando a preocupação técnica e o sentimento de amor e respeito filiais.
Vila Velha, março de 2008.
Reinaldo Santos Neves
Nota
[ 1 ] Esses livrinhos serviram de base para a produção, em 2007, com recursos obtidos via Lei Rubem Braga (lei de incentivo à cultura do município de Vitória), do cd Cantigas de roda: Versões capixabas para coral infantil e orquestra de câmera (produção de Rogério Coimbra; arranjos de Modesto Flávio Chagas Fonseca; regência de Hélder Trefzger; regência do coral de Ronaldo Sielemann).
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[SANTOS NEVES, Guilherme. Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba. Org. e ed. Reinaldo Santos Neves. Vitória: Cultural-ES, 2008. Patrocínio: MINC / Lei Rouanet - Patrocínio: Petrobras.]
[Publicado originalmente neste site em 2008]
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Guilherme Santos Neves foi pesquisador do folclore capixaba com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Introdução Um não é promessa de outro, mas também não se quer único (não é uma negação plena do Dois). Não é uma Unidade tampouco (...
UM
Introdução
Um não é promessa de outro, mas também não se quer único (não é uma negação plena do Dois). Não é uma Unidade tampouco (não se presta a universal).
Um é a união de ritmos relidos e reescritos por Fabiano e Wanderson (os arranjadores). Transcriação do Folclore, e só.
Um é fruto do desafio feito por Reinaldo Santos Neves para que eu tentasse fazer jazz com os temas folclóricos que o seu pai havia gravado há várias décadas. Acho que perdi. De jazz, no sentido estrito do termo, o disco não é. Deixei- me levar pela força inerente aos temas. Creio que ganhei musicalmente.
Agradeço a Kátia Moreira e toda a equipe da Comunicação Interativa, ao grande talento Solé, aos músicos que participaram da longa e recordista jornada, à paciência (quase perdida) da rapaziada da Lei Rubem Braga, às empresas que apoiaram o projeto, e a Reinaldo Santos Neves (que concebeu o projeto).
Apresentação - Reinaldo Santos Neves
Faixas
Ilustrações
[Reprodução no site Estação Capixaba autorizada por Luiz Romero de Oliveira (Salsa)]
Fez frio em Vitória mês de junho. Só que dia 21, data da abertura oficial da temporada de inverno, deixou de fazer frio e fez calor. Ou sej...
Reinaldo Santos Neves: Sonetos da Despaixão
Fez frio em Vitória mês de junho. Só que dia 21, data da abertura oficial da temporada de inverno, deixou de fazer frio e fez calor. Ou seja: até isso pode acontecer em Vitória: o inverno começar de mãos dadas com o verão (para desgosto de amantes da friagem, como eu e os irmãos Ivan e Ivantir Borgo).
Detalhes climatológicos à parte, este morno inverno trouxe consigo nada menos que quatro livros de poesia da melhor qualidade.
Um. Gilbert Chaudanne promoveu a reedição — ilustrada por ele mesmo, comme il faut — dos Cânticos noturnos, de Audífax de Amorim, poeta que inaugurou, de sola, com pé direito, e quae sera tamen, a poesia modernista em terras do Espírito Santo.
Dois. Valdo Motta trouxe de São Paulo, onde foi editado com o selo requintado da Unicamp, seu livro Bundo e outros poemas, que representa mais uma fase da trajetória desse poeta por excelência em sua busca de um graal altamente personalizado.
Três. Sérgio Blank lançou o seu Vírgula. Mesmo sem folha de rosto (engolida por engano durante o processo de montagem na gráfica, além de outras barbaridades, para justíssima indignação de Joca Simonetti, responsável pelo primoroso projeto gráfico), o livro contém dezesseis poemas que consolidam o nome de Blank na vanguarda avançada (com perdão da redundância) da nossa poesia.
E agora — quatro — é Miguel Marvilla que põe na roda os seus Sonetos da despaixão.
Miguel vem cheio de nove horas, como é o seu estilo. Pra começar, inventou uma editora virtual — Flor & Cultura — com marca (criada por Mara Perpétua) que parece um enxerto de flor e de pé e me remete, num piscar d’olhos, ao pôster do filme Meu pé esquerdo e isso é, eu digo, acreditem, um elogio.
Além disso, Miguel continua achando que o poema só por si não é o bastante. Daí a sua mania de adereçá-lo com tudo quanto é ornamento, na forma de epígrafes, dedicatórias e datas de fabricação — penduricalhos que, a meu ver, só poluem o entorno — com perdão da má (má só? — péssima!) palavra — do poema. Entre as epígrafes, aliás, merece registro aquela assinada por um certo Deus, isso mesmo, é assim que está lá, sem sobrenome (a menos que Deus seja sobrenome; nesse caso falta o nome de batismo), autor que não encontrei em nenhuma história da literatura mundial que consultei.
Falando sério, ou quase, o que Miguel Marvilla faz nesse livro é mostrar com quantos versos se faz um soneto. Longe, muito longe, de chover no molhado, como milhares de sonetistas de ontem e de sempre, que fazem sonetos com catorze versos, Miguel faz diferente: faz sonetos com catorze versos. Ora, direis: não é a mesma coisa? É e não é. Acaso Jorge Luis Borges não já demonstrou, como queria demonstrar, que é possível produzir um Dom Quixote totalmente novo e inovado reescrevendo palavra por palavra a obra-prima de Cervantes? Pois então. É por aí. Verso de soneto de Miguel Marvilla não tem a mesma tessitura, o mesmo quilate, a mesma gramatura, o mesmo peso atômico que o verso do comum dos sonetistas. São catorze? São. Mas seu valor intrínseco se estima filatelicamente: tão filatelicamente como se estima, deixa ver um exemplo — como se estima um olho-de-boi.
Ademais, enquanto uma legião de poetas está aí escrevendo em vernáculo, Miguel Marvilla, ao contrário, escreve em vernáculo. Ora, direis, outra vez: não é a mesma coisa? Claro que não. Para usar da expressão mais simples, direi que o vernáculo daqueles poetas é o mesmo do tabelião: só permite uma leitura e olhe lá. No caso de Miguel, o seu vernáculo confere ao poema o poder caleidoscópico de admitir um porrilhão de leituras diferentes e sobretudo — repito: sobretudo — contraditórias. Cada verso se derrame, para parafrasear achado do próprio poeta em questão, num abismo de sinônimos.
Outra diferença fundamental entre o poeta, digamos, menor e um poeta como Miguel tem a ver com a temática de um e de outro. Aquele trata do ser humano e dos meandros de sua mente e de sua alma, tendo como um dos assuntos preferenciais, naturalmente, o amor. Já um poeta como Miguel trata do ser humano e dos meandros de sua mente e de sua alma, tendo como um dos assuntos preferenciais, naturalmente, o amor.
Terceira vez, ora, direis: não é a mesmissíssima temática? É e não é. A reação do poeta menor diante, por exemplo, do amor é pavloviana: vêm-lhe à mente todos os lugares-comuns — conceituais, imagéticos, vocabulares — que fazem parte do inconsciente poético coletivo e é com esses lugares mais que comuns, sem nenhum tratamento de choque, que ele vai compor o seu poema. Já um poeta como Miguel, diante, por exemplo, do amor, vê uma colcha de mistérios. Parte, então, em seus poemas, para mostrar que nenhum desses mistérios se presta à vulgaridade do esclarecimento. Esclarecer mistérios é tarefa da ciência; à poesia cabe, sim, desdobrá-los em mais mistérios.
Para encerrar. Miguel Marvilla é poeta que trabalha com o indizível. Ousa, em seus poemas, não só dizer o indizível mas, assim que o tenha dito, desdizê-lo categoricamente. E, nesse diz-que-desdiz, produz poemas como estes que aqui estão.
[In Revista Você nº 41, de agosto de 1996, seção Escrivaninha. Os poemas reproduzidos na revista são os de nº III, IV e X.]
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© 2001 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Reinaldo Santos Neves é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)
Para evitar preâmbulos, advirto o leitor de que este trabalho é um ensaio. Como tal, é embrionário e insuficiente. A provisoriedade que ...
A invenção do autor ou da função ficcional dos paratextos em A folha de hera: romance bilíngüe, de Reinaldo Santos Neves
Para evitar preâmbulos, advirto o leitor de que este trabalho é um ensaio. Como tal, é embrionário e insuficiente. A provisoriedade que o caracteriza denuncia o esforço exigido para se ler este romance – A folha de hera: romance bilíngüe – de Reinaldo Santos Neves. A leitura per se já é sempre incompleta. Trata-se, portanto, de um projeto, cujo propósito não é outro senão o de tentar salvar-me de naufragar, na condição de leitora, nesse oceano de enganos de que é feita a ficção deste romancista. Tomara possa, nessa tentativa, prestar a outros leitores alguma serventia.
Recorro para isso à astúcia e ao gênio de Pierre Menard, figura já tão repetidamente comentada pela crítica. À maneira de sua engenhosa reinvenção de D. Quixote, farei da obra de Gérard Genette – Paratextos editoriais meu salva-vidas e meu salvo-conduto. Mais que indagar quem, de fato, assina o romance dentro do romance, impõe-se, para início de conversa, uma indagação prévia e uma piscadela para o leitor:
– De que consiste a composição deste romance? De que parâmetros nos podemos servir para saber onde começa a narrativa e onde termina (se é que termina)?
Face às várias atribuições de autoria organizadas segundo a lógica, o rigor e o aparato da apresentação crítica de uma obra, quem diz a verdade? Ora, sabemos desde sempre que é o romance! Uma vez que elementos editoriais se entrelaçam à ficção, de que então se reveste a verdade deste romance?
Pela refinada arquitetura de um edifício lingüístico construído a partir da tradução (modificada e ampliada) de A crônica de Malemort para o inglês e da posterior retradução para o português, já se intui um romance que bem representa a lavra das obras que fazem desaparecer o sutil liame entre crítica e criação. Grandes clássicos, de Cervantes a Thomas Mann (inspiração assumida pelo autor) e Borges ilustram esta caracterização. Resultante de um projeto extenso, complexo e ambicioso de tradução que se desdobrou em várias e sucessivas versões daquele primeiro romance, e do qual participa como valiosa fortuna crítica a tese de doutoramento da Prof.ª Dr.ª Lillian de Paula pela USP, A folha de hera: romance bilíngüe traz em sua literariedade o estatuto de sua enunciação. Em outras palavras, a própria trama ficcional engendra o indispensável e laborioso trabalho de pesquisa lingüística e de tradução. Absorver o léxico e a sintaxe encontrados nas fontes inglesas da Idade Média “e captar a mentalidade narrativa de seus prosadores” (A folha de hera: romance bilíngüe, 2011, p.11) parece ter sido condição mesma da ficção. Não se trata meramente, como se lê no prefácio, de livro bilíngüe e, sim, de romance bilíngüe. O bilingüismo é inseparável do propósito literário.
Para sua construção concorrem todos os paratextos que, em caráter radical, organizam a trama ficcional em torno das falsas atribuições. Trata-se, segundo Genette (2009, p.10) “de um conjunto heteróclito de práticas e de discursos” voltado para uma “convergência de efeitos”. Sendo já texto, o paratexto “é um discurso fundamentalmente heterônomo, auxiliar, a serviço de outra coisa que constitui sua razão de ser: o texto” (GENETTE, 2009, p.17). Este caráter funcional do paratexto determina quão essencial ele é. Logo, sua leitura é indispensável à compreensão e fruição desse romance.
O título, por exemplo, cumpre uma função: incitar o leitor a buscar no texto aquilo que o justifique. A relação entre o título e o romance se verifica desde sua designação factual – romance bilíngüe – até as relações simbólicas incertas que podem derivar da competência e das inferências de quem lê A folha de hera. Além da função de sedução, particularidade da relação semântica entre o título e o texto, destaca-se o que Genette (2009), ao tomar de empréstimo da lingüística a oposição entre tema (aquilo de que se fala) e rema (aquilo que se diz dele), designa como título misto, uma vez que traz claramente separados um elemento temático e outro remático. Fórmula clássica de grande exatidão, usada comumente em obras teóricas, o título misto tanto evoca simbolicamente o tema da obra como aponta a ambigüidade que se presta à abertura da interpretação. Nele se encontram simultaneamente metáfora e metonímia, que cumprem, de forma diferente e concorrente, a mesma função descritiva, qual seja descrever o texto por uma de suas características temáticas (este livro fala de...) ou remáticas (este livro é...). Para instigar a curiosidade do leitor, segundo Eco (apud 2009, p. 86-7), um bom título deve embaralhar as idéias e deve ser já uma chave interpretativa.
Saltemos folha de rosto, sumário e dedicatória, aos quais voltaremos, para a advertência inicial explícita feita no prefácio pelo autor: “Esta é uma obra de ficção: um romance que se vale de uma série de falsas atribuições para dar aos leitores a ilusão de que não é o que de fato é – uma obra de literatura brasileira – e de que é o que decerto não é...”. Esta advertência, como tantas outras, é um semidesmentido, característico do paratexto, tão freqüentemente encontrado em obras literárias do Ocidente. Proust, Balzac, Vitor Hugo, Stendhal, Poe, Walter Scott, Machado de Assis, Borges são alguns desses autores que se utilizaram deste procedimento estilístico para enredar o leitor na insídia da literatura.
Para Genette (2009, p.145), a instância prefacial diz respeito a toda espécie de texto liminar (preliminar ou pós-liminar). O posfácio é considerado uma variedade de prefácio, que, como paratexto editorial, “consiste num discurso produzido a propósito do texto que segue ou que antecede”. Esses discursos liminares, prefácio e posfácio, podem ter estatutos de enunciação diferentes. Da mesma forma, diz Genette (2009, p.159), “um mesmo texto pode conter, na mesma edição, dois ou mais prefácios devidos ou atribuídos a destinadores diferentes [...], cuja identidade é às vezes menos conhecida do que supomos...” No prefácio autêntico original que chamaremos aqui de autoral, o autor apresenta a concepção geral do romance e detalha aspectos fundamentais de sua composição, destacando questões relativas à tradução. Afirma ele: “convinha que o território bilíngüe englobasse apenas os textos ficcionais, a saber, a nota prefacial [...], a introdução [...], o posfácio do autor norte-americano, a nota do tradutor brasileiro, e, obviamente, o texto em pretenso inglês médio e as notas de rodapé; mantendo-se exclusivamente na língua oficial do romance, o português, este prólogo do autor “verdadeiro” e tudo mais que se lê em folhas de rosto, páginas de crédito, dedicatória, orelha e contracapa.” Ao destacar, por exemplo, o adjetivo “verdadeiro” entre aspas para se referir ao autor do romance, o escritor já inicia o jogo de prestidigitação. A essa suposta inocente brincadeira contrapõe a afirmação de que o texto do romance se apresenta em pretenso inglês médio e na sua língua oficial, o português. Com sutileza, o autor já assinala que todo o tempo há um autor (real ou pretenso) que diz e desdiz. Iniciam-se certas trapaças em perspectiva do texto.
Genette (2009), ao classificar os prefácios segundo suas atribuições a uma pessoa real ou fictícia, os distingue da seguinte forma: autêntico, quando a atribuição a uma pessoa real pode ser confirmada por outros indícios paratextuais; apócrifo, se a atribuição for invalidada por esses indícios; e fictício, se a pessoa a quem se atribui o prefácio for fictícia. Vamos adotar as duas categorias, autêntico e apócrifo, por medida de economia, reunindo na segunda também o caráter de fictício.
Na Nota Prefacial do Secretário da Sociedade Trentoniana de Amigos da Idade Média temos, como bem nos adverte Genette em sua complexa classificação do prefácio apócrifo, um autor suposto alógrafo e actoral (por se tratar de uma terceira pessoa fictícia, um personagem prefaciador; é alógrafo porque separa o destinador do texto – o autor – do destinador do prefácio – o prefaciador). Este pretenso autor/prefaciador chamado Stevenson se utiliza de uma imitação dos incipits históricos ao aludir à perda do manuscrito original e à sua preservação graças às “diferentes transcrições integrais do texto do manuscrito” (2011, p.25). Diz ele: “Lamentamos informar aos leitores deste livro que o manuscrito original quinhentista se perdeu logo após a morte inesperada da Dr.ª Thornham.” (2011, p.23) “A única intervenção que fizemos como editores foi trazer para o pé da página, seu apropriado lugar, as notas que a Dr.ª Thornham datilografara em folhas à parte.” (2011, p. 26-7). (A propósito, esclareço que o estudo dessas notas deverá merecer um capítulo à parte, dadas sua importância e peculiaridades, que, no interior do romance bilíngüe, reforçam a funcionalidade dos paratextos). “O que nos interessa como elemento paratextual [...] é o efeito que a presença de um pseudônimo produz sobre o leitor” (GENETTE: 2009, p.48). Pouco se sabe a respeito desse efeito, a não ser pelos estudos teóricos da estética da recepção e pela fruição dessa experiência na obra ensaística e literária de autores como Italo Calvino e Borges, por exemplo. Se o estatuto do prefácio apócrifo está ligado à posterior descoberta pelo leitor, o estatuto da ficção, que rege os textos romanescos, cobre “uma verdade que todo mundo percebe ou adivinha, mas que ninguém tem interesse em revelar” (GENETTE, 2009, p.162). Certamente isso se deve aos efeitos de verossimilhança. Este é o estatuto do paratexto: entregar-se à sagacidade do leitor.
Assim, os sucessivos paratextos apontam para uma característica do romance moderno, qual seja, o de ser um discurso metatextual que mostra, nas representações da construção de um romance medieval, um certo retrato da história do livro. Ao tratar, por exemplo, das inúmeras referências literárias e de suas fontes bem como das várias implicações lingüísticas do trabalho de tradução, que resultariam na trilogia, Reinaldo Santos Neves, autor do romance bilíngüe, empreende o que, à semelhança do que diz Genette sobre o prefácio, resulta em uma arqueologia da tradução. A folha de hera: romance bilíngüe (primeiro volume de um conjunto in progress) é o que se pode chamar um romance de linguagem. Por essa e tantas outras razões estilísticas, não seria presunção inscrever este romancista no rol dos “escritores-críticos” de que fala Leyla Perrone-Moysés em Altas literaturas.
Mas a insídia ficcional irá se revelar, de fato, na Pilhagem de palavras: Posfácio do autor e na Breve nota do tradutor. Ali pôde o autor de A folha de hera: romance bilíngüe realizar-se amplamente como ficcionista. Se o prefácio, já comentado, se caracteriza essencialmente como autoral, nestes dois outros discursos da instância prefacial reconhece-se seu caráter alógrafo e actoral, uma vez que, em ambos os casos, sua autoria é atribuída a um personagem narrador. Logo, o posfácio do autor é um posfácio de um suposto autor. Ora, o que não se dissera até então acerca dos motivos e procedimentos a que se refere Genette sobre os paratextos editoriais passa a ser dito nestes dois textos pós-liminares. Ou seja, a história da gênese do texto e a indicação de suas fontes testemunham os métodos de trabalho do romancista.
No primeiro se lê, no testemunho do suposto autor, a predileção literária que criou os sedimentos para o romance: como que pelo desfiladeiro da memória de um leitor exigente e refinado são trazidos de uma história que costura suas leituras da infância às da maturidade nomes como Thomas Berger, Thomas Malory, Stevenson, William Morris, Mark Twain e, principalmente, Borges. A todos eles o romancista presta tributo, fazendo-o, é verdade, pela voz do suposto autor – Alan Dorsey Stevenson –, personagem que, inventado à maneira de Borges, assina a autoria do “romance apócrifo que finge ser a edição crítica de um manuscrito de 1516 contendo a tradução inglesa, feita em 1483, de uma crônica francesa desaparecida.” Nesta folha de rosto do romance dentro do romance, portanto, “falsa” folha de rosto, o romancista embaralha, como nos demais textos introdutórios, tanto os conceitos quanto a própria ficção, criando, de fingimento em fingimento, uma narrativa em “mise-en-abyme”. Não bastasse a referência explícita ao autor de A flecha preta, o escritor o homenageia ainda n’O manuscrito Alfield, dando à flecha preta o status de arma e ao tradutor da crônica o nome de Bennet Hatch, um dos personagens desse livro. De fingimento em fingimento, confessa ele: “concebi a obra como um romance que fingisse ser uma autêntica tradução quinhentista para o inglês de uma igualmente autêntica crônica francesa do século XIV supostamente perdida.” (GENETTE, 2009, p. 459)
É ainda nesse posfácio que são apresentados ao leitor por Alan Dorsey Stevenson, o autor apócrifo/alógrafo, o motivo e a maneira da construção do romance: “Berger deixou (ou melhor, não teve a preocupação) de captar o potencial da prosa narrativa arcaica como linguagem literária por direito próprio para os dias de hoje. Opa, pensei. Alguém devia acordar e fazer alguma coisa com isso.” (2011, p. 457). Sucessivamente, vai sendo entregue ao leitor, tal qual o risco de um intrincado bordado ou de um palimpsesto, o traçado das informações, que se multiplicam, acerca das fontes de pesquisa que possibilitaram a abordagem intertextual para a escritura do romance: crônicas, tratados, poemas, romances de cavalaria, dentre os quais se destacam as crônicas de Froissart, “cronista por excelência da Guerra dos Cem Anos” (p.461), a cujas histórias e a cujos personagens recorreu o autor apócrifo/alógrafo para, analogamente, romancear, por meio de sua “pilhagem de palavras” e de “preciosos bens literários” sua Folha de Hera. “Tudo, é claro, falsificação, fraude, burla; tudo, é claro, para o leitor curtir fingindo que acredita.” (2011, p. 459).
Poderíamos indagar, num desdobramento da questão inicial: – Quem é o sujeito da enunciação?
Jogando com o uso de falsas atribuições no romance, assim como Borges e diferentemente dele, o ficcionista opta por imaginar a existência do documento – O manuscrito Alfield – e, nele, a tradução da Crônica de Malemort do francês para o inglês médio – e cria, por meio dos textos introdutórios que se revestem de um rigoroso aparato intelectual, tão ao gosto da crítica acadêmica, toda a máquina ficcional que dá propriamente sustentação ao romance bilíngüe.
Ao comentar as convenções de estilo no Prólogo de Prólogos, Borges afirma: “há casos em que o prefácio [...] expõe e comenta uma estética”. E acrescenta: “Um prefácio, quando bem sucedido, não é uma espécie de brinde; é um modo lateral de crítica”. (apud GENETTE: 2009, p. 237)
Na “Nota Prefacial do Secretário da Sociedade Trentoniana de Amigos da Idade Média” (2011, p. 21), assinada, como já disse, pelo mesmo A. D. Stevenson, portanto prefácio actoral alógrafo, a narrativa romanesca propriamente dita se desenrola, como texto introdutório, ficcionalizando o desaparecimento da crônica, a justificativa de seu interesse acadêmico pela Dr.ª Kathryn Lyell Thornham, “arguta especialista em documentação histórica medieval” (2011, p. 27), responsável pela “Introdução da Edição Crítica” de O manuscrito Alfield, assim como as circunstâncias da interrupção de seu trabalho ocasionada por sua morte. Não por mero acaso seu nome é o mesmo nome da pretensa heroína do romance. Já aí, num dos textos introdutórios, o suposto autor do romance alude, apropriadamente, a “esta sinfonia inacabada acadêmica”. (2011, p. 27). É na instância desse discurso ficcional em que Alan Dorsey Stevenson se outorga a assinatura do posfácio autoral, reiterando o fingimento, que se podem entrever nuances, preferências e marcas de estilo.
Na “Breve nota do tradutor”, paratexto que contribui decisivamente para a construção dessa literatura de encaixe, em que a estrutura narrativa se faz das sucessivas representações e transformações (cf. Kristeva, 1984) organizadas em torno das falsas atribuições, convém notar o savoir faire do romancista que, ao criar o personagem tradutor Reynaldo Santos Neves, assim, com “y”, a exemplo do que já fizera em Sueli (romance de 1989), rasga qualquer hipotética e equivocada associação do dizer do personagem (inventado à maneira borgeana) à biografia, desvencilha-se do labirinto de referências construído pelo romancista, e, de um só golpe, “em sua busca obsessiva no sentido de atribuir uma aparente autenticidade ao manuscrito fictício de sua história”, evidencia que o próprio autor do romance é uma ficção. Ou seja, o escritor inventa a si mesmo como autor. Tudo leva à clandestinidade. Ou, se você, leitor, preferir, tudo leva à ficção. Como afirma Genette (2009, p. 44), “a verdadeira vocação romanesca é inseparável de certo pendor pela ‘delitescência’, vale dizer, em suma, pela clandestinidade”.
Parece ser esse gosto pelo ocultamento que justifica a suposta folha de rosto, que antecede a verdadeira folha de rosto. Por não conter, como se prevê, o nome do autor do romance A folha de hera: romance bilíngüe bem como sua data de publicação, é “falsa” folha de rosto. Esse ocultamento se intensifica pela apresentação, frente e verso, dos créditos institucionais vinculados à edição da obra. Deliberadamente?! Pode-se supor, apenas supor. Curiosa também é a marca d’água com a imagem de Santa Catarina nessa suposta folha de rosto. Como a ampliar a associação entre o título do romance A folha de hera, de grande valor simbólico no contexto do romance medievo, e a heroína do romance, de nome Katherine – ou Kathryn, Katerine, Caterine, Katheryne, Katheryn (2011, p. 471) –, a imagem de Santa Catarina apresentada na capa do livro e em seu interior, como marca d’água na suposta folha de rosto, além do nome da responsável pela introdução da edição crítica do manuscrito, Dr.ª Kathryn L.Thornham, reverberam esse labirinto de suposições e enganos, que lançam o leitor numa espécie de vertigem. Essa experiência de busca daquilo que, em sua inapreensibilidade, não se deixa fixar produz no leitor certos efeitos de aesthesis. No processo de ficcionalização do autor, há uma organização em torno da ausência de um nome, que aproxima o leitor da experiência estética da criação.
Porém, é no texto da dedicatória endereçada postumamente ao pai que a obra mais se reveste de significação. Este texto ilumina no romance as insígnias do “nome-do-pai”. Nessa particularíssima cortesia se explicita a filiação intelectual e afetiva, a dimensão simbólica que enlaça livros e afetos. Há um legado. E o leitor é chamado a testemunhar. Ali, mais que em qualquer outro paratexto, se enuncia o que liga a obra à sua ontogênese. Fio invisível que organiza as paixões humanas e formata a existência, o desejo adquire, na particularidade desta história, deste romance, os matizes do que se desenhara em imaginação e afeto naquela “vasta e caótica biblioteca”. Cumprida a função paterna, realizada a criação. Para a “felicidade difícil” do leitor.
Referências
GENETTE, Gérard. Paratextos editoriais. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009
KRISTEVA, Julia. O texto do romance: estudo semiológico de uma estrutura discursiva tranformacional. Lisboa: Horizonte, 1984.
SANTOS NEVES, Reinaldo. A folha de hera: romance bilíngüe. 1º. volume. Vitória: SECULT/ES, 2011.
[SILVA COSTA, Rita de Cássia Maia e. A invenção do autor ou da função ficcional dos paratextos em A folha de hera: romance bilíngue, de Reinaldo Santos Neves. A Gazeta, Caderno Pensar, 10/11/2012. Reprodução autorizada pela autora.]
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© 2012 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Rita de Cássia Maia e Silva Costa é autora do texto.
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