Co-edição com a Cândida Editora: [Edição digital ISBN 978-85-64258-11-2]
Série Estação Capixaba, volume 5
Co-edição com a Cândida Editora: [Edição digital ISBN 978-85-64258-11-2]
CALIGRAFIA INCANDESCENTE (ou visão de malabar) Para Douglas 1. Deserto Estava seco o chão e nulo e feio. Nada acendia a eira...
Caligrafia de fogo
CALIGRAFIA INCANDESCENTE
(ou visão de malabar)
1. Deserto
Estava seco
o chão
e nulo e feio.
Nada acendia
a eira,
por mesquinha.
Assim, o veio
de fogo, depois,
chama e tinta:
ígnea manifestação.
2. Epifania
O fio
de magma
a desenhar
o rubro.
A chama
a riscar
a beira
do escuro.
A teia
de flama
a seduzir
o percurso
da claridade
no sopro
em fogo
de um homem.
3. Malabar
O rubro,
em ruivo;
o turvo
mesclado na eira
do olhar assombrado
com os raios de brasa.
O lábio,
o cálido,
o mágico
no nome
que doma
e habita
em sopro
a faísca:
um homem; um lobo: um renome.
4. Efeito
O ruído da luz
doura a gaze
da vontade.
O olhar se fecha;
se abre o hálito;
os dedos fremem
à lâmpada
que doma, louva, masca
a falta de luz.
Incandescência.
5. Malabarino
Chamusca o ar
o cheiro do fogo
que
acende a barba
e a voz de lobo
e
ruivo.
Estraçalha o ar
o desenho da quentura
que
enrubesce o pelo
e a voz de lobo
e
fluido.
Rápido
cede quem olha o ar em fogo
abocanhado pelo fulgor do lobo
fúlvido
e belo.
6. Sedução
Seco o chão, e inóspito,
até que o ruivo
fogo lupino [e terno]
adejasse a poeira
e comovesse,
humano, a eira dos olhos.
Célere, a tinta da chama
umedece o pátio ínfimo,
e instala o fogo em fluxo
no corpo verde do olhar,
e clareia, ele,
breve, leve,
o mapa do escuro.
7. Salamandra
Magma, em fluido e flama,
aflora ao nervo da luz...
Lupino o homem, em zelo,
luminescência tanta
vocifera: faça-se lux.
Entro com um eu
lagártil, lânguido,
e as labaredas
abraçam cada palmo
da carne, do gesto, do som
que cedo
[túmido
de lume]
aos dentes
do fogo, do festo, do ardor
em sopro.
8. Auto de luz
Enquanto ardo
sob as garras da luz
que o lobo fluido
espalha sobre o corpo,
as lanternas dançam.
Enquanto inflamo,
as chamas nomeiam
da alegria o caminho
sob a voz da luz
que o homem ruivo
ordena, conduz, domina
lupinante e lúcido:
vibrante lamparina.
9. Fortuna
O chão, incendido
de inúmeras faíscas,
ignora o ímã do risco:
lobos mordem o abandono
e criam estepes de sombra.
O térreo iluminado, assim,
nubla-se, neblina-se
diante do destino:
a marca do lobo
doma, doura, desgasta
a falta de lume,
mas ensombra o triste
inflamado chão-corpo,
e subtrai-se, em eclipse.
10. Passagem
Belo, rubro, terno
[em pele de homem,
emblema de lobo]
ele doma o chão
túrgido de fagulhas.
Ruivo, leve, fluido,
[em olhos de lobo,
esquema de homem]
ele louva a eira
impregnada de lúmen.
Sobre o pátio, sobre o terreiro
as patas, o pelo, o porte
de um lobo iluminado e exato
a soprar o incêndio líquido:
feixe de luz, fado de lume,
feito fluxo frutífero de homem.
[Poema inédito reproduzido com autorização do autor.]
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© 2017 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
Para Lino Machado 1. Sob a sombra da mangueira, um rato (de si empoeirado) fuça o sumo solar da manga largada, à sorte, ao chão. ...
Conversa com sombra
1.
Sob a sombra da mangueira,
um rato (de si empoeirado)
fuça o sumo solar da manga
largada, à sorte, ao chão.
O chão, entregue a sua generosidade,
acolhe a sombra, o rato, a manga,
e o pássaro, repentino na paisagem
desarmada, estranha. E fecunda.
2.
O rato, esquecido de si
à luz indócil do meio-dia,
não sente senão a bondade do fruto
suave sob seu escuso olhar corroído.
O que vê da manga ninguém saberia.
Colhe o fruto sem dar por isso,
mas lépido, ao som de passos,
retorna à ausência de luz.
3.
Filigranada em sombra,
a mangueira permanece,
como o chão, entregue
à ventura de seus frutos
à mão, à boca, à sombra.
4.
Do escuro cavado à sorte,
espreitam o rato e sua poeira,
inertes no cheiro acre
que só a sombra dócil,
o chão
e a manga
ignoram.
[Poema inédito reproduzido com autorização do autor.]
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Para Hilal S. Hilal, 1. Atrás dessa escritura de cobre, atravessa a margem, a beira, o rio, tua ausência terna, a que leva c...
Palavras de cobre (ao pai)
1.
Atrás dessa
escritura de cobre,
atravessa
a margem, a beira, o rio,
tua ausência terna,
a que leva
camadas de dobras
indefinidamente.
2.
Se escrevo
em metal,
atravesso
o conto, a conta
que recorda o fio
que reencontro
no canto, na concha
de tua sombra
nebulosamente
aqui, a sós,
na frase cortante
de metal
e alma.
3.
Atravessa-me
o passo
de tua ausência
incandescente.
(se escrevo
linhas em cobre
é para reter
na teia
a palavra
que adivinhe
a raiz, o sumo, a noz
de teu nome
lindo e
árido
de luz).
Atravessa-me
o gesto,
o jeito
de tua paisagem
ínfima e
fulgurante.
E ardo.
E fremes.
E passo.
[Poema inédito reproduzido com autorização do autor.]
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BIOBIBLIOGRAFIA VITRINE DE TEXTOS Poemas do livro Interiores . 1984. Trecho do romance Lhecídio: gravuras de sherazade...
Paulo Roberto Sodré - Repertório Literário
BIOBIBLIOGRAFIA
VITRINE DE TEXTOS
Poemas do livro Interiores. 1984.
Trecho do romance Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite. 1989.
Poemas do livro Dos olhos, das mãos, dos dentes. 1992.
Poemas do livro De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas. 1998.
Livro de poemas Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004):
Prefácio ou a mão sem luva
Parte I – Percurso de sombra e frescor
Nestes paramos
Provocação
Vi tua dança
Talvez os cisnes
Que rumor haverá em teus olhos
Os arredores florem
Os cavalos
Poeira fina
Poemas desconcertantes [2012, versão completa.]
Palavras de cobre (ao pai) [2017]
Conversa com sombra [s/d]
Lita e o rato que gostava de manga [conto inédito para criança, 2012.]
Caligrafia de fogo [2014]
DEPOIMENTOS
"Um itinerário de três passos" (Primeira aproximação autocrítica de uma obra poética). In Revista Você, SPDC/Ufes, n. 45, maio de 1997.
"Um itinerário de três passos (Primeira aproximação autocrítica de uma obra poética)”. Revista Você, Vitória, n. 45, maio 1997.
“Um autor à luz da leitura insatisfeita: autopoética”. In: LEITE, Leni Ribeiro et al. (Org.). Leitor, leitora: literatura, recepção, gênero. Vitória: Edufes, 2011. p. 495-499.
“XXI. Literatura deste início de século”. Graciano: Literatura Brasileira feita no Espírito Santo, Vitória, ano 1, n. 2, jul. 2010. Entrevista concedida a Sidney Spacini. [Disponível em: https://issuu.com/revistagraciano/docs/graciano_dois]
"Edward Morgan Forster, Maurice e uma ponderação". In: CASER, Maria Mirtis; SOUZA, Santinho Ferreira de (Org.). Por que é importante ler literatura. Vitória: Edufes, 2015. p. 78-81. Disponível em: http://repositorio.ufes.br/bitstream/10/1278/1/Livro%20edufes%
20Por%20que%20%C3%A9%20importante%20ler%20literatura.pdf
FORTUNA CRÍTICA
GAMA FILHO, Oscar. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Interiores. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES, 1984. p. 11-18.
COUTINHO, Afrânio, SOUZA, J. Galante de, dir. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: MEC/Fundação de Assistência ao Estudante, 1990. "Espírito Santo", p. 560.
BOGÉA, José Artur. Escritura da paixão. Revista de Cultura da UFES. Vitória, v. XVII, n. 49, p. 15-21, 1994.
BUSATTO, Luiz. [Orelha sem título]. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite. Vitória: FCAA/UFES, 1989.
LYRA, Bernadette. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Dos olhos, das mãos, dos dentes. Vitória: DEC, 1992. p. 5-6.
RIBEIRO, Francisco Aurélio. O erotismo ou a "escritura da paixão" em Paulo Roberto Sodré. In: —. A literatura do Espírito Santo: uma marginalidade periférica. Vitória: Nemar, 1996. p. 71-75.
DELMASCCHIO, Andréia. A recepção da literatura "infanto-juvenil" e da poesia "adulta" pelos públicos inversos. In: RIBEIRO, Francisco Aurélio (Org.). Leitura e literatura infanto-juvenil. Vitória: UFES, 1997. p. 45-61.
BARCELLOS, José Carlos. Poéticas do masculino: Olga Savary, Valdo Motta e Paulo Sodré. In: PEDROSA, Célia (Org.). Rio de Janeiro: 7Letras, 2000. p. 77-86.
NUNES, Sandra dos Reis Abrante. O ritual erótico em Dos olhos, das mãos, dos dentes, de Paulo Roberto Sodré. In: OLIVEIRA, Luiz Romero et al. (Org.). Bravos companheiros e fantasmas [1]: estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Ufes/Flor&Cultura, 2006. p. 240-257.
PESSOA, Fernando Mendes. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Senhor Branco ou o indesejado das gentes. Vitória: Secult-ES, 2006. [p. 9-13].
BERÇACO, Ériton. Ominho: uma história de homem pra homem. In: MACHADO, Lino et al. (Org.). Bravos companheiros e fantasmas 2: estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Ufes, 2007. p. 86-92.
MOISÉS, Massaud. Prefácio. In: SODRÉ, Paulo Roberto. Poemas desconcertantes seguidos de Senhor Branco ou o indesejado das gentes. Vitória: Cousa, 2012. p. 13-14.
RIBEIRO, Francisco Aurelio. O amor e a morte nos versos de Paulo Sodré. A Gazeta, Vitória, 28 jan. 2012. Pensar, p 10-11.
DALVI, Maria Amélia. Livro e leitura: O medo do mato, de Rodrigo Britto, e Guido, a folha e o capim, de Paulo Roberto Sodré. In: ___; LOPES, Orlando; NEVES, Reinaldo Santos (Org.). Bravos companheiros e fantasmas 5: estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Edufes, 2014. p. 217-230.
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Poeira final: joeira das horas delicadas. Poalha leve. Entre a leitura dos dias e a partitura dos gestos a praia, o vento, o pó. Po...
Poeira fina
Poeira final:
joeira das horas delicadas.
Poalha leve.
Entre a leitura dos dias
e a partitura dos gestos
a praia, o vento, o pó.
Poalha fina:
joeira das horas enternecidas.
Poeira leve.
[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]
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© 2004 Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
Os cavalos: pétalas de estrelas, faíscam de velocidade e músculos. No espelho de tua lâmina eles riscam o tempo e relincham de poder....
Os cavalos
Os cavalos:
pétalas de estrelas,
faíscam de velocidade e músculos.
No espelho de tua lâmina
eles riscam o tempo
e relincham de poder.
Diverte-te a energia
dos que não te percebem,
tomados de alegria e sonho.
[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
Os arredores florem: figos, nervos, libélulas a criarem nas águas os brevíssimos movimentos. Sob o salgueiro, brancamente, dormes. ...
Os arredores florem
Os arredores florem:
figos, nervos, libélulas
a criarem nas águas
os brevíssimos movimentos.
Sob o salgueiro,
brancamente,
dormes.
E tudo,
no entanto,
aguarda.
[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
Que rumor haverá em teus olhos, quando escolhes, dono, a criatura para teu senhorio de ausências? Que tremor se flagrará entre teus den...
Que rumor haverá em teus olhos
Que rumor haverá em teus olhos,
quando escolhes, dono, a criatura
para teu senhorio de ausências?
Que tremor se flagrará entre teus dentes,
ao escolher o corpo belo ou chagado
para teu recesso de silêncios?
Que canção ocorrerá a teus ouvidos
quando, senhor, recolhes o ânimo
para teu domínio de esquecimento?
[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
Talvez os cisnes toquem árias quando abres os olhos, líquidos, e castanhos como poeira, para aquele que te espera. Talvez cachos rodo...
Talvez os cisnes
Talvez os cisnes
toquem árias
quando abres os olhos,
líquidos, e castanhos como poeira,
para aquele que te espera.
Talvez cachos rodopiem teus cabelos
e os lábios claros serenem o riso
que de teu rosto vem,
quando do corpo retiras o nome.
És lindo e pálido e esguio
ou hediondo como um susto
que rompe o peito e tira os sentidos?
Senhor, que beleza
amaciaria tua voz,
quando anuncias tua passagem
àquele que, surpreso, te nomeia?
[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]
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Vi tua dança, teu baile de foices, as foices invisíveis que recolhem da haste a papoula, o grão, o olhar luminoso. Não há música, ...
Vi tua dança
Vi tua dança,
teu baile de foices,
as foices invisíveis
que recolhem da haste
a papoula,
o grão,
o olhar luminoso.
Não há música,
nem matiz,
nem vibração
para o cortejo
de teus passos.
Um átimo:
que separa
a voz de um silêncio
inamovível.
Vejo tua dança,
mas canto-te,
sim,
ruidosamente.
[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]
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Faleces, finas, finalizas, feneces e tudo decede, definha, desanima, desce. Transpassas, transpiras, transitas, traspassas entre u...
Provocação
Faleces, finas,
finalizas, feneces
e tudo
decede, definha,
desanima, desce.
Transpassas, transpiras,
transitas, traspassas
entre
um ato, um trato,
um entreato,
um termo.
Determinas?
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Acaso estamos mortos e só aparentamos estar vivos, nós gregos caídos em desgraça, que imaginamos a vida semelhante a um sonho, ou es...
Nestes paramos
| Acaso estamos mortos e só aparentamos estar vivos, nós gregos caídos em desgraça, que imaginamos a vida semelhante a um sonho, ou estamos vivos e foi a vida que morreu. [Paladas de Alexandria (séc. IV d.C.)] Y consiento en mi morir con voluntad plazentera, clara y pura, que querer ombre biuir quando Dios quiere que muera, es locura. [Jorge Manrique] Araçá azul é sonho, segredo, não é segredo araçá azul fica sendo o nome mais belo do medo com fé em Deus eu não vou morrer tão cedo araçá azul é brinquedo [Caetano Veloso] |
Parte I: Percurso de sombra e frescor
Nestes paramos
Nestes páramos
de sílabas,
darei a ti um rosto,
sim, de homem,
pois se uma mulher deu-me
o que se fez vida,
é de sorte que um homem
ma recolha.
[In Senhor Branco ou o indesejado das gentes (inédito em 2004).]
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
Há qualquer coisa, aquém do se diz nas frases reflexivas de pensadores e nas tintas dos artistas e nos pentagramas dos músicos e além do qu...
Prefácio ou a mão sem luva
Há qualquer coisa, aquém do se diz nas frases reflexivas de pensadores e nas tintas dos artistas e nos pentagramas dos músicos e além do que se ouve nos receios das comadres e na cal dos coveiros e nos versos dos aforismos, de incandescente na famigerada figura da Morte.
Tinha visto e lido e ouvido sobre ela diversos testemunhos, sempre em penumbra, doídos como fio de música que se cala. Nenhum me impressionou mais do que "Momento num café", do Estrela da manhã, de Manuel Bandeira. Se o conhecia antes de 1993, quando o (re)encontrei numa leitura casual, não me recordo. Deparei-me com ele, em São Paulo, e o meti num trabalho acadêmico para o bandeiriano Arrigucci Júnior.
"Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição"
Sua sombra se instalou, límpida como um mote inevitável.
No ano passado, recordei-me da "indesejada das gentes", convidada pelo poeta para uma consoada. Imaginei a moça, indesejável embora, nos óculos dentuços de Bandeira. Imaginei um rapaz, não obstante indesejado, em poemas de uma elegia à luz do dia: melancólico, mas belo; implacável, mas leve; inadiável, mas terno.
Veio o primeiro verso. Junto, a ideia de um livro em três partes: I (Percurso de sombra e frescor), II (Percurso de sombra e arrepio) e III (Percurso de sombra e corte). E nada, por enquanto, faz-me desistir de um livro em que ele, a Morte, se manifeste, misterioso como o "Homem de luvas", de Ticiano.
Neste Canteiro de obras* exponho, aos poucos, o percurso. Indesejado?
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ORELHA DO LIVRO VÍRGULA Paulo Roberto Sodré Ao rol dos glosadores da ausência, dos de Safo, deitada sob as plêiades, Sérgio Blank se j...
Orelha do livro Vírgula
ORELHA DO LIVRO VÍRGULA
Paulo Roberto Sodré
Ao rol dos glosadores da ausência, dos de Safo, deitada sob as plêiades, Sérgio Blank se junta, dono de seus versos, senhor da persona lírica que vivencia, escruta e define a solidão, "sentença com sete letras e um til", o tema-rei que impetra para si os acordes dos dezesseis poemas que se apresentam neste livro, Vírgula.
Fruir da poesia de Blank — Estilo de ser assim, tampouco, de 1984; Pus, de 1987; Um, de 1988; e A tabela periódica, de 1993 — requer lições de sobreaviso: ouvido para seus traços imagísticos e ritmos livres; ouvido para os trocadilhos; ouvido para as ironias e alusões; coração sagaz para compreender as vírgulas da emoção assentada entre a eficácia dos versos e o desespero de uma mundividência encurralada pela falta, no caso desses poemas, do dedo de Eros.
As dezesseis estrofes únicas, que compõem cada poema, sovam o tema do indivíduo travado pela agonia de ser só: "a solidão é meu título/ o que eu faço?" Diante disso, o poeta vocifera, mas delicada e ironicamente, sua "sentença". Remexida, revirada, espremida, a palavra solidão é a senha com que o poeta tenta atravessar o inferno da condição humana: a catarse aguarda o leitor em cada ponto (implícito) do último verso.
Nessa famigerada demanda de sublinhar a ausência, Blank firma a sua maneira de escrever, aduzindo uma estrutura poética que, sem dificuldades, se reconhece como blankiana.
Tal maneira se efetiva, sobretudo, por meio das palavras retiradas da poeira dos dicionários e da estranheza das falas esquecidas: "no fim blefe — noite — vou e avisto em bolandas rir o roto do esfarrapado / de rojo e roldões sigo e penso que não quero mais o amor bleso / o meu quinhão nesta vida beirã". A essas palavras e expressões desacostumadas do ouvido, juntem-se os estrangeirismos, as frases re-feitas ("a traça do ofício do osso faz a festa"), as aliterações e assonâncias ("luto com lustre lupa lume luvas / luto sem velas vestes véus vultos"), os versos-apostos (você "pedrada no fim falso e fosco brilhante / paralelepípedo ignaro e ignavo") e a, parece, inevitável intertextualização. Esses recursos da arquitetura poética de Sérgio Blank, pinçados aqui e ali apenas para uma breve noção, fundamentam seu texto musical, espesso no arranjo de idéias, texturizado no achado das palavras.
Com esse repertório estilístico, o poeta de Vírgula afasta de seu cancioneiro solitário a amargura óbvia e o estado meramente depressivo. Seus poemas se erguem num discurso que concilia a dor experienciada e a experiência da montagem de seus versos. A voz que se revela, lobo da estepe ou fantasma da ópera, ressoa tristeza e canto, abarcando os olhos, o afeto e os passos desacompanhados comuns aos urbanóides atarantados entre a azáfama do dia e as esquinas ilhadas da noite.
Blank apresenta Vírgula. Safo não está só.
[Cultural-ES, Vitória, 1996.]
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A primeira vez que li Poética de romance: matéria de carpintaria , de Autran Dourado, fiquei surpreso com a possibilidade de se debruçar so...
"Um itinerário de três passos" (Primeira aproximação autocrítica de uma obra poética)
A primeira vez que li Poética de romance: matéria de carpintaria, de Autran Dourado, fiquei surpreso com a possibilidade de se debruçar sobre a própria obra, sem que isso parecesse um banal exercício de umbiguismo. Isso foi em 1983. Quase dez anos mais tarde, encontro Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira, e Memórias das palavras ou o gosto de falar de mim, de José Gomes Ferreira, duas deliciosas crônicas das atividades biográfico-literárias. Menos preocupado com o narcisismo ou não desse observar a própria obra, aceito hoje a chance de mirar publicamente meu trabalho. Não esperem uma bela crônica, nem Dourado, Bandeira nem Ferreira. Meu umbigo é estreito.
Para melhor organizar essa aproximação, preferi dividi-la em três partes, em cada uma tratarei de uma década, a de 70, a do pré-início; a de 80, a do início, e a de 90, ainda a do início.
Primeira Parte
(Quando só os desenhos me enchiam os olhos, ainda não míopes)
Não foi sob mangueiras, nem no sótão, nem na sala de minha avó que deparei a leitura das palavras. Numa biblioteca do antigo Colégio Oliveira Castro, em Itaquari, perto do qual até hoje soam os apitos do trem, fiquei impressionado com as ilustrações, as cores aquareladas de um livro. As letras e as palavras eram as caixinhas onde se escondiam as claridades daqueles desenhos. Para eu entendê-las melhor, tinha de abrir cada caixa, centenas delas. Então, a menina com sombrinha colorida, o leão e sua empáfia, o garoto no fundo do mar e o portão aberto de uma casa ganhavam porquês, quandos, ondes.
A televisão em preto e branco, logo depois a cores, e seus programas na TV Educativa me conduziam também para o cultivo das imagens: Disney e Pinóquio, Hanna e Barbera e Zé Colméia, a mimosa Betty Boop. O belo Príncipe Valente e o Capitão América, Pateta e Clarabela, nos quadrinhos, são alguns dos outros traços que me chegavam pelas palavras. Estas, contudo, eram apenas lanternas para os desenhos bem feitos.
No Colégio Americano Batista de Vitória, entrei em contato com minha adolescência intimidada; com a urbe (até então só conhecia as ruas e quintais de meu bairro, Alto Laje, e vizinhança, no subúrbio, ou as praias de Nova Almeida e Jacaraípe, onde corriam os dias de férias de janeiro); com meus desejos na contramão, com a produção mais intensa de desenhos. Numa tarde qualquer, numa sala de aula de português, no primeiro grau, lemos um trecho de Os cangaceiros, de Lins do Rego. Havia as ilustrações, mas o texto verbal e seu poder de criação de homens, cenários e dramas começaram a acordar minhas perguntas sobre o mundo. Dessa experiência vieram outras tardes, em casa, com a leitura de Menino do engenho, Fogo morto; depois, Clarissa, Música ao longe, o telúrico Ana terra, de Veríssimo. Numa manhã de segundo grau, minha atenção não conseguia deixar de lado um vaso grego, num soneto talvez de Alberto de Oliveira, e as brancuras sonoras de Cruz e Souza. Não sabia se tentava desenhar o vaso ou se tentava vasculhar palavras que cantassem tão bem. Pela primeira vez, a poesia me interrompia a indiferença e a desatenção.
Nesse momento, minha inclinação para a produção literária tem sua gênese, seu embaraço, sua marca. Os parnasianos (e eu nem imaginava que eles pudessem ter sido vaiados em 22), me interessavam pela fotografia, claro, pelo desenho verbal. Os simbolistas me arderam pelas palavras de água, nuvem, poalha de sol e plenilúnio.
Mas no começo, sim, no começo, era o Desenho.
Segunda Parte
(Quando percebi que se destoava com rimas em ão e osa)
Alguns anos mais tarde, com essas influências (quem me dera traçar as escolhas!), já universitário de Letras-Inglês, participei da primeira Oficina Literária de Vitória. Melting pot de olhos, pensamentos, palavras, leituras e estilos. Pasmo. Não sabia se reduzia ao esquecimento absoluto meus poemas ou se me deixava marcar, a ferro e susto, por tantas possibilidades de formas, temas, personalidades. Bandeira me soava coaxado; Cabral me tocava metais (para mim, que adoro oboés); os irmãos Campos me lembravam ásperos pedreiros. Acabaram, contudo, por me seduzir. Saí (creio eu) do século XIX.
Lendo ou relendo a prosa de James Baldwin, Virginia Woolf, Autran Dourado, Lins do Rego, Marguerite Yourcenar e André Gide, comecei a escrever contos como forma de me esquecer da poesia. Não consegui, todavia, vencer a vontade petulante de escrever poemas, especialmente quando via as reproduções dos nenúfares de Monet e das ninfas de Burne-Jones, ou lia as gravuras verbais de Bashô e as canções de Garcia Lorca. "Poeta, sim, poeta", como escreveu simplesmente Miguel Torga.
Meus poemas, os que sobreviveram ao poemicídio, vieram desses esbarros e pasmos e encantamentos. As imagens evanescentes, predominantemente fotografadas em gerúndio, os adjetivos, os neologismos, os versos arrogantes pelo hermetismo ou pelo arrevesado das ideias (devo confessar que os labirintos barrocos sempre me pareceram charmosos), tudo isso foi produzido com um intuito que hoje compreendo melhor: diluir o receio de transformar em versos as reflexões, os sentimentos e o desejo por rapazes botticcelianos.
Se Interiores, de 84, pode ser observado como um livro em que se deflagra a paixão pela língua portuguesa e pelas possibilidades de linguagem — daí a exploração excessiva principalmente dos neologismos, da pontuação e dos hipérbatos; por sua vez, Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite, de 89, pode ser uma ilustração da paixão pela literatura e pela arte, daí ser uma obra pedante, exageradamente intertextualista, feita num momento em que a única referência digna de nota era a da cultura elitista, para apreciadores da arte e de seus variados discursos.
Nesse meio tempo, experimento uma conciliação, escrevo e ilustro Ominho, de 86. Costumo dizer, a quem me pergunta sobre os desenhos, que me considero um traidor em relação a minha vontade de desenhar. Deixei-a em função das letras. Melhor escolha? Até hoje não saberia responder. De todo modo, com Ominho, diplomaticamente, fiz desenho e palavra se juntarem.
Se na década de 70 o que me interessava mais era o desenho, na de 80 predominou a produção literária, incentivada especialmente pelos amigos e pelos colegas de ofício, com quem comecei a ter longas conversas com café, pizzas e passeios pelo campus da UFES, dentre eles Francisco Grijó Filho, com quem aprendi a ouvir João Cabral e as rimas toantes; Marcos Stulzer, que me ajudou a repensar o hermetismo dos poemas; Cristina Siqueira, com quem comecei a apreciar os poemas menos cerebrais; Oscar Gama Filho, que me orientou na percepção do meu próprio trabalho e me apresentou Souzândrade e Pound; Valdo Mota, cujo talento e escracho me favoreceram no desbaste de meus acanhamentos, e, sobretudo, Reinaldo Santos Neves, que acabou por se tornar para mim um norte precioso por sua sobriedade, elegância e consequência na criação literária.
Terceira Parte
(Quando o início parece estar pronto para começar)
Em 1992, publico Dos olhos, das mãos, dos dentes, livro que me parece ser o desvelo de um tema apenas esboçado em Interiores e Lhecídio, o do homoerotismo. Nesse trabalho, também, começo a perceber melhor a concepção de um livro como um todo: sua unidade ou sua homogeneidade temática. Continuam os aspectos que considero defeitos: o excesso de imagens que dificulta o "fôlego" dos versos, a falta de leveza de algumas soluções métricas, uma certa tendência para o hermetismo. A experiência com formas tradicionais, como o canto da andorinha, as janeiras e as redondilhas; com o reagrupamento estrófico e rímico dos catorze versos do soneto (que transformo em sete dísticos com rimas toantes em variada posição); com o haikai; com os detalhes concretistas (já ensaiados em Interiores) e a experiência com o tom paródico, jocoso e satírico, entre outras, dinamizam o livro monotemático.
Nesse livro, há os "Madrigais secos", poemas em que começo a me aproximar, levemente, do que pretendo literariamente: uma linguagem mais precisa, imagens contidas, versos e estrofes mais breves, temas mais abertos, para além da região dos desejos e ideias especificamente homossexuais. Aqui cabe uma nota: claro está que escrever sobre a homossexualidade e tentar poetizar esse tema até hoje constrangedor para muitos e sensíveis leitores foi e é imprescindível; por outro lado, escrever sobre isso de modo predominante me preocupa. Receio restringir demais meus poemas.
Poemas do desconcerto, livro inédito, reúne textos ainda voltados para uma visão e uma vivência homossexuais, mas tratando já de matizes até então não tentados: a dúvida quanto ao não desejo pelo outro sexo, a experiência mística e a apreensão da morte, temas que constituem o desconcerto humano, seja qual for sua condição racial, religiosa, sexual e social.
Todos esses livros, devo talvez repisar o óbvio, se pautam pela experiência pessoal, sim. Mas tão transfigurada pela criação literária que dificilmente reconheço nos poemas os episódios que o engendraram, senão sua sombra ínfima, a nódoa em que se detecta o que Amylton de Almeida afirmava quase afetuosamente: não falamos senão de nós mesmos. Somos falados pelos poemas, sim. Mas na medida em que todos os homens, que se expressam, o são, em sua vivência sempre hesitante, entre um céu e outro, entre uma geografia e outra, entre uma ideia e outra, entre um corpo e outro corpo, mesmo ou díspar, amável, de todo modo.
[In Revista Você, SPDC/Ufes, n. 45, maio de 1997. Reprodução autorizada pelo autor e pelos editores da Revista.]
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© 2001 Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
para serem rasgados à luz de lamparina Menino. Não te vais cair no rio! [Garcia Lorca] Intróito Talvez devesse polir o não...
Poemas do livro inédito Poemas ridículos: ele passeia em beleza
para serem rasgados à luz de lamparina
| Menino. Não te vais cair no rio! [Garcia Lorca] |
Intróito
Talvez devesse polir o não,
redesenhar o silêncio posto
e deixar submergir, outra vez,
o que veio para não amanhecer.
Talvez.
Primeiro Pedaço
Os riscos da chuva tomam os dedos,
e um ardor de névoa instala sobre sua ausência
qualquer coisa entre
pétala de poema
e cheiro de mãos abertas.
Segundo Pedaço
Insensato é abrir os ouvidos
para o rumor de seus botões
que trazem cercados
os textos de seu corpo.
Ouço, contudo, os arrulhos
de sua pele sob as camisas,
e canto, em quietude,
os figos que não colho
para o aceso céu da boca.
Terceiro Pedaço
Não lamento as largas cartas
que deixei murcharem,
nem o vinho que sequei
sobre os gestos que não acordamos.
(Aceito que nada é tecido
sem que a sorte escolha
agulhas, linhas, pontos
e riscos das mãos
para uma crônica inopinada)
Não tomamos licor
nem tivemos da boca
o hálito das permissões.
Acolhi sua falta de vontade
e deixei que minhas mãos
saíssem da beira de seu porto.
Quarto Pedaço
Os dias trazem o norte do sul
e a cor da sombra, em passos de gato.
Ao descanso de meu corpo,
oferta o repente um tremor:
sua camisa sob meus dedos.
Por um detalhe à tona
vêm suas digitais
que imagino sobre meus ombros,
desabotoados para suas marcas
de leão, de álcool, de senhor.
Quinto Pedaço
De nenhum namoro,
de nenhuma aliança
ouço vozes.
Escuto seus dedos
e sua barba, largados,
e minhas costas cedidas
para os passos de seu hálito.
Em recanto de alguma hora
sem nome, sem endereço;
em arquitetura evanescente,
onde meus óculos conheçam o chão
e minha camisa descanse
longe de meu corpo,
inteiro para seus domínios.
Sexto Pedaço
Deveria guardar o selo
que impede das palavras a clareza.
Mas como deixar de lado
o delicioso zunido da fenda
que se abre entre um segredo
e uma inviabilidade?
Se não posso conhecer
o risco de suas juras amorosas,
que me venham os traços
de sua passagem
sobre um breve espasmo
de sombra, de músculo, de agora.
Peroração
Talvez pudesse ignorar
o azul que norteia seus olhos
e matizá-los com castanho lençol;
talvez pudesse ignorar seus pés
com caminhos para longes.
Mas nestes poemas, senhor,
picadeiro de Sísifo,
zombo do horizonte
e furto de um mínimo
a ocasião de umedecer-me
com suas camisas fechadas.
as circunstâncias de sal e areia
Nomenclatura
Que nenhum som, nenhuma luz amanheça
sem que seu nome ancore
num sentido que anuncie
sua passagem pelas minhas clepsidras.
Um nome para tomá-lo em palavra,
antes que o poema tombe seus sons.
Étimo
Colônia do lago é a paisagem
que seu nome ressoa, latino e galês,
como uma pintura de Constable:
cheiros de junho sob nuvens, pássaros
em cada canto de uma estação propícia.
Eis o nome. Eis o lugar. Eis meu recorte.
Fora de lei
Ainda que não devesse, de modo algum,
mesmo não podendo, olhei sua voz.
Atravessei sua paixão por outro
e, sem chances, olhei seu cheiro.
Sob os castanheiros de Itaparica,
larguei meus olhos a suas mãos: deriva.
Adivinhação
Não sei de seu beijo nem de seu gosto.
Desconheço a textura de seu sonho.
Não imagino como sua noite dança.
Apesar de tantos nãos, olho seu hálito
e todos os meus músculos se retesam.
Rir com você transborda de vinho.
Não estacione
Sei de seus olhos que não me incluem;
de seus dedos que não me indicam.
Mas adivinho, Sagitário, seus pêlos
que tocam seu corpo como ventos
que preparam o frescor da vontade.
Ilícito, peço ao talvez que me dê de beber.
Alternativa
Sim, é o que digo à vontade de ficar
ao lado de seus gestos engenheiros.
Mas parto de você para um lago,
onde planto portas, nenúfares e vésperas.
Nomeado o desejo; colhido o sentido,
rumo em direção aos silêncios:
colônia das horas imprevisíveis.
um jeito para ouvir canção
| Vi no meu caminho Uma aglomeração Procurei você Nem sei por quê [Antonio Cícero] |
Abro estes deslocados poemas,
a despeito do que São Jorge,
Chico Buarque e Pound
disseram sobre versos.
(Danem-se essas folhas
que recusam o único nome
que acende o oriente
de cada um de meus olhos.)
curriculum vitae
De Touro, de Tigre, de água
de poço cercada por todos os muros;
de terra, de fogo, de ar, de água
de lua à margem dos caminhos;
de turmalina, de nácar, de água
de avencas em frestas baldias;
de pardal à beira dos fios
de tardes sem eira nem semente de romã,
sento-me ao poema,
e espero que você me veja
e pergunte por meu sim.
flor de cinza
Deixar um endereço na florista
para que ela entregue bilhetes
é tão tolo quanto cromático.
O clichê, com pólen de cinerárias,
ganha qualquer traço de ouro
ou de dia lavado de chuva
ou de nome que deixa a quietude
e mina de todas as pedras.
astrolábio
Vai alta a incerteza medo adentro.
Os atalhos e os certos caminhos
e as brechas de estrada
e a falta de trilha penteada
assombram os pés diante da hora
que escapou do relógio pontual.
Óculos sem olhos, farol sem centelha,
toda a nudez dos pontos cardeais
estremece, falto que estou
de sinal de seta de sentença de sentido
O que chamar meus dedos sabem,
mas os passos não decifram
e, estancadas, as ruas não acontecem.
A noite estala no céu da boca.
clepsidra
Heliotrópico, heliografia, heliocromia,
heliofilia, heliossonância, heliogravura,
helioscópio, heliometria, helionomia.
O rio arruma seus augúrios.
O tempo busca os empecilhos
e, mesmo à beira das águas,
temo e demoro e receio desligar os nós.
O rio arruma as palavras.
Hélio.
[Poemas do livro inédito Poemas ridículos: ele passeia em beleza. Reprodução autorizada pelo autor.]
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
De Ulisses a Telêmacos 1 Meu filho não é meu filho, em nada, senão no que nele meu sangue molda e meu sêmen legitima. Não mais que...
Poemas do livro De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas
De Ulisses a Telêmacos
1
Meu filho não é meu filho, em nada,
senão no que nele meu sangue
molda e meu sêmen legitima.
Não mais que aparência ele manifesta
em seu rosto de minha juventude,
em seu jeito de minha presença.
Não, esse filho não assume meu nome,
mas seu traço que de mim
é menos que meu nome quereria.
2
Quando o vi entre os anos,
pressenti atalhos de mim.
Não podia dizer-lhe Esse é o passo,
Esse é o gesto, Esse é o espelho.
Envelheci sobre seus poucos anos
e nada pude lhe outorgar,
senão uma fenda, uma lacuna,
um silêncio.
3
Sei que suas mãos são gêmeas das minhas;
que seus ombros, seu andar, seus olhos
são águas onde posso me debruçar, sem cair.
Mas nenhum de seus nortes lembram os meus:
as partidas, os desafios, as terras,
nada o acende para os navios e as gáveas.
Você não tece tapetes, tampouco dá vida às setas.
4
Uma vez falei-lhe de viagens, de guerras, de cavalos.
Ouviu-me como quem bebe vinho sem defesa,
e deu-me sua atenção sem perceber
que seus olhos empalideciam, luz a luz.
Guardei todas as dúvidas num medo tácito
e zarpei, munido de um espesso frio no coração.
Mais do que das praias de casa, zarpei de meu rapaz
que me olhou como quem não partilha o mesmo ar.
Você me disse qualquer coisa, e ouvi Adeus.
Eu silenciei os olhos, e você entendeu Nada posso fazer.
Criamos o avesso, filho, e não nos beijamos mais.
5
Entre o que queria e o que em você conheço
há o tempo que esvaziei distraidamente.
Não percebi seus olhos longe,
em algum lugar, onde se frisam estigmas.
Vi-o por meio de mim, ignorando-o.
Esqueci-me do que naufraga
entre o que se sonha e o que vibra o tempo.
Ele vai, com meu corpo, sem meu nome,
e não sei se sorrio ou se fecho portas.
De Jessé a Davi
1
Quando a pedra de tua funda
arrebentou o tamanho daquele homem,
filho, caí com ele sob a consciência
de que teus anos seriam acesos
e meus passos não seriam mais
que um grão que trouxe o teu para a luz.
Desde então alegrei-me para o Senhor,
e entristeci-me para o que em mim
era mais que ser pastor e teu pai.
Apaguei minhas estrelas:
tua claridade delas faz garranchos.
2
Largo os olhos sobre esses pastos.
Meu cajado sob meus dedos secos;
as ovelhas cochicham sono sob o sol;
nenhum vinho alegra a sede que sinto
ao ver esse plano silêncio de vida.
Soletro teus passos a caminho de Saul,
meu filho, e nenhum dos milhares que fiz
canta um salmo de luz, mas de pó infecundo.
Teus passos a caminho de reino e ouro e glória.
Não sei que inquietude assombra hoje meus dias,
que não ouço bem o caminho do rebanho.
Tudo é pequeno e pouco e ermo e fosco e nulo
senão teu sangue onde agita-se o meu.
3
Cantam as palmas de Israel tua passagem,
e nada obsta teu destino, larga tiara de Deus:
nem lanças, nem reinos, nem luas, nem crimes.
Sob teu nome fulgura o poder que desencoraja a pieguice.
A flauta que acompanha meus dias
arrulha pastorais mesquinhas, filho,
e nada, senão minhas ovelhas, seguem
o vulto de minha humanidade pequena.
Fecho os olhos sobre os pastos empoeirados
e minha vida não consegue ser mais
que um eco pálido de tua luz no mundo.
4
Ishai, chamam-me; viril significa o nome.
Dauid, chamam-te; amado de Deus acende
o imensurável sentido de teu imenso nome.
Sou o homem que, dono dos grãos e da terra
que te trouxe, de minha estirpe raiou tua sina:
a de humilhar grandezas e dourar reinados.
Do nome do pai, o sêmen de teu início;
Do nome do pai, o cajado de teu começo;
Do nome do pai, a poeira para teu esplendor.
Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras
e acode, pelo salmo de meu filho, ao meu gemido.
5
Largados os olhos pelo horizonte,
cometo a tristeza de chorar meus limites.
E nada posso mover senão minha sombra
que sonha o vulto de meu filho abençoado.
As ovelhas querem o caminho de meu cajado
e meus olhos ardem de sede e sol e ausência.
Tu brilhas, filho, aumentando meu nome em ti,
e brilhas, esvaziando em ti minha presença.
A poeira dos teus passos me acolhe.
[Poemas do livro De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas. 1998. Reprodução autorizada pelo autor.]
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
Terra Inicial I Vasto e alto o morro, entre tantos, laje onde ressoa, úmida e fértil, a manhã. Numa clareira, a história finca seus...
Poemas do livro inédito Temporâneos
Terra Inicial
I
Vasto e alto o morro, entre tantos, laje
onde ressoa, úmida e fértil, a manhã.
Numa clareira, a história finca seus caprichos
sob a enxada de Manuel Gincanga: cria-se.
Tosco o senhor, toscas as ruelas, alta a vereda
traçada para que São José, o operário,
deixasse seus calos, sua aura, sua igreja
plantada no alto do morro.
Largo o tempo em que portas e janelas
escreveram moradias, ditaram cercas,
coloriram flamboyants, acolheram os dias.
Veio alto, veio laje, veio o nome acanhado
na boca dos homens remotos, da terra embevecidos.
Deu-se a manhã nas cercas de Gincanga.
Brotou o bairro nos canteiros de sua chegada.
II
A tarde toda cheira a laranjeira.
Da igreja de São José descem
Maria, Antônio e grãos de arroz
que a alegria de todos espalha
ao tilintar dos sinos embranquecidos.
Dançam e bebem, no quintal da festa.
Esperam a noiva e o noivo o silêncio
em que deixarão sua nudez à aliança.
Os dias aumentam suas crônicas.
Ele trabalha, retorna, adormece.
Ela trabalha, aguarda, murcha.
A noite se ajeita, confiante no vir a ser.
III
O Moxuara se dedica ao sol,
e um azul de distância ecoa
pela paisagem que rodeia
o oeste dos morros de Alto Lage.
As ruas, as praças, os pardais,
a folhagem toda aos ventos
das árvores e das pipas largadas
nos fios que carregam silêncios.
O Moxuara acolhe nuvens.
Alto Lage hospeda simplicidades.
De cima de quase nada
avisto alturas de dezembro,
e um pó de relógios e história
visita meus olhos úmidos de miopia.
IV
Dezembro se arvora em chegada
nas franjas dos flamboyants
tomados de vermelhos, ao redor
dos caiados muros do cemitério.
Farfalham os calores.
As varandas quaram frescuras
e as conversas giram entre cotidianos e segredos.
As esposas fazem suco; os maridos fumam;
as meninas se perfumam e os rapazes brincam
enquanto a lua entorna luz sobre os cantos
que os olhos dificilmente esquadrinham.
A noite recebe cheiros e líquidos brinquedos.
V
Seu Tião padeiro; Dona Domingas;
Seu Pereira do riso bom;
Dona Lídia da dourada trança.
Todos viram o tempo trazer
e levar paralelepípedos, hibiscos e casas novas.
Vi-os, nas ruas, colhendo idades,
vendo julhos e novembros
com trouxas de férias e Finados.
Vi-os, nas ruas, sorrindo dos relógios.
Começo a colher anos e rugas
e a plantar na sola dos passos
os olhos e as trilhas simples
que adivinho, aos poucos,
nas pistas que eles vão deixando.
VI
Sob o descanso das sibipirunas,
aposentados soletram o tédio,
viúvas esperam a meia-noite,
garotos fazem núpcias com galinhas,
esposos se deitam com nada,
meninas engordam fundos de quintal.
Sob a sombra das ruas,
acostumei-me aos uivos da noite
e ao riso da aurora
a colecionar flagrantes.
Sob a quietude dos que ignoram,
vi que os galos tocam clarim
para que a noite faça
seus enredos e armadilhas
sem que as casas se entristeçam,
sem que a Fortuna enferruje precoce.
IX
Dona Mulata canta nas Quaresmas
de luzes e rosários e de fim de domingo.
As crianças enfeitam de xadrezes
as noites juninas de pipoca e rojão.
Seu Zé Reis, que Deus o acolha!,
ainda espalha balas de Cosme e seu Irmão.
Para os Finados e sua ausência
Isaías vende velas e flores e flores.
A igreja de São José Operário
espalha os anjos com cristais de Natal.
Do porto de Vitória vêm os avisos
de que um ano começa num apito de navio.
Edinho, o louro, e Daniel, o belo Daniel,
anunciam a folia na espuma das cervejas.
Sempre estive à beira do mundo,
enquanto passavam pelos calendários
os indícios de que as ruas batizam
somente os que comungam com elas.
XII
Anoitece e não conheço todas as ruas.
Dezembro escapa, em febre.
O que esperava das estradas
murcha aos poucos e poucos.
Tenho mapas dentro de mim,
e os pontos que marcam
roteiros e rotas e trilhas
foram achados em Alto Lage.
Como saber da conclusão dos caminhos?
Sei que as viagens doem,
e meu sorriso só acende
para vontade de girassol.
Onde os campos amarelos?
Paulistanos (segunda parte)
I
Um véu de Maia ressona
nas manhãs de São Paulo.
Os homens soam seus passos
e não ouvem a poeira
dos sons de outubro e cinza.
Resistem as ruas e os faróis.
Os homens.
O sol trepida. A lua sucumbe.
O tempo se enferruja
nas rugas dos homens que não acordam.
II
As quaresmeiras reluzem de roxos
no Cemitério do Araçá.
Nenhum morto sob suas sombras.
Os pombos encardidos não arrulham:
ganem vôos sobre as flores.
O cemitério ri suavidades
e placas com nomes e datas de mármores.
As quaresmeiras e os anjos sujos
de uma poeira que lembra pólen,
e morre.
III
Há um sapo na esquina
da Ipiranga com a outra avenida.
Hesita.
Urra o ônibus. Verde farol.
Um office-boy chuta o anfíbio
que, sob as rodas de um tumulto,
recorda o quinto movimento
de uma Bachiana ao meio-dia.
IV
Fernão Dias passa horas,
olhando as pedras de Brecheret:
Tudo o que eu encontro
são pedras aquém de meu sonho
de verde, de virudente gema.
É preciosa essa pedra de arte,
mas não faísca como uma menina dos olhos.
V
Na ladeira da Memória
escorre umidamente a noite.
Descem e sobem as horas
debaixo das sombras das janelas
esgalhadas nos prédios tantos.
São Paulo garoa esquecimentos.
[Poemas do livro inédito Temporâneos. 1995. Reprodução autorizada pelo autor.]
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Todos os poemas que de amor eu li Todos os poemas que de amor eu li debulhavam olhos, mãos e colos de meninas, estrelas, mulheres, nuv...
Poemas do livro inédito Poemas do desconcerto
Todos os poemas que de amor eu li
Todos os poemas que de amor eu li
debulhavam olhos, mãos e colos
de meninas, estrelas, mulheres, nuvens.
Nenhuma gota de sangue trincava a leitura.
Num acaso, um verso estilhaçou meus ouvidos:
um jovem colhendo trigo no segredo de um homem.
Os poemas viraram listas de febre.
Meu poema é um monge confuso,
Meu poema é um monge confuso,
preso por paredes que silenciam o sol
e censuram os cânticos das prímulas.
Os muros. As grades. Os portões.
A aldrava inquieta.
Um vasto país se espalha: extrajanelas.
Invoco-te, Francesco, e teus madrigais:
Invoco-te, Francesco, e teus madrigais:
amassar o ar como um Daniel e tirar leite de um tema
tão cheio de enredos de flores e seios.
Laura, Marília, Luísa, Sueli:
o que vossos lábios anunciam
para que minhas mãos
não se tornem dança para vossos rosas?
É estrangeiro o corpo de uma mulher.
É estrangeiro o corpo de uma mulher.
Nele, ao redor dele, perto dele, por ele
os sentidos se desnorteiam e vacilam;
nada se equilibra, nada se harmoniza.
Meus dedos se calam, meu abraço perde chão.
Há, entretanto, frescor de aragem
em sua pele de uva, de água amaciada,
que meus óculos beiram intocadamente.
Como será jorrar aurora nesse campo desconhecido?
Em mim fincaram joio e trigo raízes
Em mim fincaram joio e trigo raízes
e nunca pude separá-los nos outonos.
Quando em corpo desenhado veio o traço
da luz de Cristo: triste barba, olhos cacheados
de sol, pálidos lábios, ombros magros,
vi grãos de claridade num dourado de pintura.
Percebi estrelas em espigas de éter.
E como da beleza o trigo, o joio fez pétala
entre as espigas, e os moços de pouca década
entravam em meu desejo com traços de luz até para
brotarem em poemas sem um nada
de pregos, graal, páscoa, nada.
Os claros olhos tristes, os pálidos cachos
louros, a frágil magreza suave: os gratos
moços vivem em meus olhos pasmos,
misturados nos ventos que mexem nos cheiros
dos grãos de luz e da luz do joio.
Francisco entrou em minhas orações
Francisco entrou em minhas orações
como os antúrios inauguram outubros.
Cheio ele de pássaros nos olhos.
Ouvi os pássaros sobre o róseo
cheiro das flores de antúrio
entre paisagens de hóstias e altares.
O rosto claro de manhã macia
espreitava meus olhos com antúrio nos meses
em que cresciam meus dedos soltos.
Ele, moço de nuvem com oestes de éter,
mexia nas flores que roseavam outubros:
eu dedilhava seus pássaros com cantos de luz
sobre os telhados das tardes
cercadas de flores de um calendário rosa,
ouvindo orações
com
dedos
de
pássaros.
Tomada Primeira: os vidros
Adoro o brilho das pedras lilases
nos aros, nas placas,
nas tranças das tiaras faiscantes.
Adoro as faíscas de purpurina nos batons,
nos vestidos, nas echarpes,
nas calcinhas com detalhes de rubi.
Brilham, faíscam, reluzem, douram, iluminam.
Adoro as jóias que sopram esquecimento.
Réquiem em Sol Menor
Um canto de cigarra
devora o olhar de minha irmã
com olhos de oliveira
e novembro nas rugas da mão.
Um gemido de cisne
anuncia angelus de tristeza
e espalha flores carpideiras
pelos passos presos de minha irmã.
O silêncio da cigarra
escreve sons de pranto
sobre as folhas que no chão
esperam o afeto da terra.
Feito de maio, abril e junho a insinuarem oboés e aldeias alemãs.
Feito de maio, abril e junho a insinuarem oboés e aldeias alemãs, teu corpo fende o ar e revela e esconde a cor nômade de teus óculos, portões e de tuas frases trancadas.
Insistir em te ver: caminho que não conhece repouso.
Uma camada de pêssegos te clareia as manhãs.
Uma camada de pêssegos te clareia as manhãs. Comecei a ver-te, grave hora, da janela que sempre me hospeda: uma erupção de vermelhos farfalhou, gelando o nó de minha garganta. Teu rosto simples, tua barba comportada, as espáduas, as sardas, tuas mãos acanhadas, teus passos líquidos.
Espalhei-me pelos ventos e pelas folhas de agosto, procurando teus dedos firmes, sem que você soubesse sequer de minha sombra em brasa.
[Poemas do livro inédito Poemas do desconcerto. 1994. Reprodução autorizada pelo autor.]
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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)
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